A IDADE DA ALMA
Romance e sonetos integrados
de ALMA WELT
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Quase (de Alma Welt)
Alguns de nós ficamos quase ricos,
Alguns, quase felizes, mas nem tanto;
Outros restamos quase invictos,
E houve um que quase virou santo.
De nós, de nosso grupo quase unido,
Quatro quase que “bateram o Catolé”
E um de nós, que foi mais atrevido,
Quase foi pra Sibéria andando a pé.
Mas todos, quase todos, nos perdemos
De nossos sonhos perfeitos, de guri,
Que quase alguns de nós ainda temos.
Somente eu, que quase me cumpri,
Estou firme, quase, nesta estância,
Fiel ao “quasi modo” meu, da Infância...
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Àqueles que, na amizade, resistiram ao Tempo
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Prefácio
(Por Guilherme de Faria)
Existem coisas curiosas na Literatura clássica,
quase idiossincrasias, como a de Os Três
Mosqueteiros (de Alexandre Dumas) que eram
quatro (!): Athos, Porthos, Aramis, e... D’
Artagnan. Assim também a Trilogia A
HERANÇA, de Alma Welt: O Sangue da Terra;
Vinha de Dioniso, A Ara dos Pampas,
comportaria perfeitamente este quarto volume,
A Idade da Alma, que é uma nítida e digna
continuação da saga de família da autora
protagonista no seu Pampa real e Mítico, como
ela mesma, na sua dimensão arquetípica, que
confere tanta beleza e profundidade à sua
linguagem expressiva, que se, situa, às vezes,
numa fronteira tênue entre o coloquial e o
lírico, ou entre a prosa e a poesia. Também ela
aborda, com propriedade, simbólica e com
legitimidade, sem abuso, com moderação,
momentos de “realismo fantástico” sul
americano, como (com algum “spoiler”) cito a
sua sobrevivência muito natural e contínua, em
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uma dimensão quântica paralela, após a trágica
e chocante descrição de sua própria morte
assassinada. Mas, neste romance realista, nada
de fantasmagoria espectral como, por exemplo,
o encontro finalmente em espírito de Cathy
Earnshaw e Heathcliff. após a morte de ambos,
vagando na charneca amada no Morro dos
Ventos Uivantes, a obra prima de Emily Brontë,
romance que percebemos que Alma Welt tanto
ama, como ama a sua campanha gaúcha, das
coxilhas e também de um uivante vento
Minuano. A continuação plácida e, insisto:
realista, após a descrição tão chocante de
violência brutal de seu assassinato, confere uma
originalidade magistral ao sentido geral deste
novo romance da gaúcha. O realismo de sua
descrição dos acontecimentos, segue sempre um
encadeamento lógico que guia a narrativa,
sempre com um sabor, não de fantasia, mas de
memória e confissão, que é a característica
peculiar, geral, de seus textos, em todas as suas
obras. No entanto, literariamente, ela não se
assemelha ao naturalismo de um Zola, mas ao
realismo lírico de um Flaubert, que ela parece
amar.
Nesta obra, ainda fazendo parte da saga
familiar A Herança, vemos ainda um original
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atrativo: a autora apresenta uma extraordinária
inovação no gênero romance: duas grandes
coleções temáticas de sonetos integrados aos
enredos desenvolvidos: sobre o Tempo e sobre
Amigos. São sonetos belíssimos que exibem a
riqueza e a profundidade de suas variações
sobre os temas. Eu diria que Alma Welt é
especialmente magistral neste gênero poético
nascido na Idade Média e que ela cultiva de
maneira idiossincrática a ponto de ter produzido
incríveis 5.000 sonetos dodecassílabos
originais, e quase sempre confessionais .
Como vêm, eu saúdo esta escritora gaúcha,
excepcional, que tive o privilégio, em 2001 de
descobrir em seu “auto-exílio” paulistano, e
lançar seu primeiro livro de contos em 2004, os
Contos da Alma, de Alma Welt, uma coletânea
de obras primas do gênero, a maioria de contos
urbanos de sua experiência existencial na
capital paulista, ela que veio do meio rural
gaúcho, tão diferente da “Paulicéia desvairada”
do nosso Mario de Andrade.
Sim, eu diria que esta Alma carrega consigo o
seu Pampa, como aquela inglesa rural carrega
até os nossos dias a sua charneca. Ambas nos
encantam de maneira semelhante e nostálgica,
num mesmo “realismo romântico”, que
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preservam e perpetuam gloriosamente, numa
época de realismo sórdido como o destes nossos
tempos.
Guilherme de Faria
10/10/2025
Nota
Ainda a respeito desse peculiar universo
“weltiano”, como já me permito denominar,
considerei oportuno expor aqui o poema de
timbre romântico inglês brontëano, ou mesmo
alemão, goetheano, que a fiel Lucia Welt,
irmã da Alma, escreveu em memória da
grande poetisa, algum tempo depois da sua
morte, e me enviou por carta, escrito à mão, e
que conservo como um tesouro adicional:
Manhã orvalhada
(de Lucia Welt para a amada Alma)
Nesta manhã orvalhada
caminhei pela campina como outrora
quando tudo parecia mais autêntico e vivo
pois a Alma estava entre nós
e eu podia segurar a sua mão ao caminhar.
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Ainda ouvi sua respiração arfante
não tanto pelo andadura
como pelas emoções de seu olhar
sobre detalhes da paisagem, da relva e do céu
que me passavam despercebidos.
Senti novamente seu perfume
de mulher jovem inconcebivelmente linda
que só por isso já nos comovia
tanto quanto aos peões
que ao vê-la caminhando paravam seu trabalho
e tiravam o chapéu
ao seu riso cristalino.
Ah! Doce irmã das pradarias, tu eras a alma
que agora nos falta!
Tu, o elo de ligação entre este pampa
e nossas vidas
entre a paisagem e nosso alento
que todavia persiste sem teu respiro mais amplo
em teu voo a um tempo gracioso e sobranceiro,
de branca garça pampiana,
guria de cabelos flamejantes, de pele alva
de paraísos suspeitados, ah! cobiçados mesmo...
Esta foi, além de teus poemas
tua prenda maior mas tua desgraça,
pois também os maus te viram e cobiçaram...
Mas não quero pensar senão em ti, na tua
caminhada,
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quando rindo de alegria te afastavas de súbito
virando-te para mim
para logo me estenderes as duas mãos para
rodopiarmos na campina
por puro prazer de viver.
Ah! Como eras preciosa, meu amor,
minha irmã!
Que poema posso eu te escrever
senão evocar-te tal qual eras em tua beleza
cheia de secretos encantos
que no entanto prodigalizavas?
Quanto te desnudavas em tua generosidade,
pois bem sabias que o olhar do povo,
deslumbrado te vigiava, respeitoso contudo,
como não seria com nenhuma outra prenda!
Quem, entre os mortais que te viram nua
(e talvez alguns deuses)
não sonhou secretamente ter-te nos braços para
sugar-te o hálito divino
e fruir de tua pele de seda
de impossível brancura
sob este sol do Pampa, ou mais amiúde
sob a lua e as estrelas peregrinas
do teu negrinho padroeiro?
(Ai! Na grande cidade também foste amada,
mas também violada
em tua comovente vulnerabilidade,
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criatura exótica perdida no caos.)
Ah! Não poder nunca defender-te,
preservar-te do mal e dos maus,
cobrir teu corpo de ninfa
com meu corpo maternal
e nunca mais deixar-te ir-se!...
Caminhei esta manhã na pradaria orvalhada
e por um segundo tu, Alma,
tocaste a minha mão,
senti teu beijo em meus lábios,
o hálito fresco da pradaria
e soube que continuas por aqui.
E chorei consolada...
28/05/2008
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Índice
PRÓLOGO........................................................
Capítulo Primeiro
Encontro na Coxilha.......................................
Capítulo Segundo
Tempestade à vista..........................................
Capítulo Terceiro
O Resgate.......................................................
Capítulo Quarto
O Processo......................................................
Capítulo Quinto
Este corpo que habito.....................................
Capítulo Sexto
A Festa da Vindima........................................
Capitulo Sétimo
Depois da Festa................................................
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Capítulo Oitavo
O Elenco completo...........................................
Notas................................................................
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A IDADE DA ALMA
Romance e sonetos integrados
de ALMA WELT
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PRÓLOGO
Eu, Alma Welt, com meus 35 anos, sou,
portanto, muito jovem, e me diverte a idéia de
que seria considerada uma “balzaquiana” com
essa idade na primeira metade do século XX ,
quando ainda se lia o grande Honoré de Balzac.
Sim, muito jovem ainda, mas carregando a
bagagem anímica de uma grande luta pela
minha herança e minhas terras. Sim, luta que
venci com a ajuda de meus amados e amigos, e
que narrei nos três volumes de meu romance-
trilogia A HERANÇA,cujo primeiro tomo
publicado na sua versão para o inglês THE
HERITAGE:The Blood of The Earth, pelo
Guilherme de Faria, me tornou conhecida em
grande parte do Mundo, justificando,
finalmente o significado do meu nome.
Após tantas lutas, a vida aqui na nossa estância
vinhateira (a Santa Gertrudes) caiu por um
tempo numa pasmaceira, com o encerramento
dos conflitos e até batalhas verdadeiras que
narrei, sem falseá-las nem poupar-me da
confissão desabrida de minhas fraquezas e
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eventuais ridículos. Meus leitores, portanto, me
conhecem bem, e sabem que não minto nem
aumento. Assim, o que teria eu para contar, ou
revelar, ainda?
Bah! Meus amigos... a paz duradoura não me
estava destinada nesta vida, e devo confessar,
por minha própria culpa. Minha psicanalista, a
querida Doutora Jensen, interrompera a minha
análise, depois de se envolver comigo
amorosamente, como contei aos meus leitores,
sem peias ou pudores, mas tendo me feito
atingir a consciência plena do cerne da minha
SOLIDÃO, deu-se o sagrado direito de me
abandonar, antes que se perdesse como
profissional respeitada e idônea, essa é que é a
verdade...
Eu continuava com meus passeios solitários
pelas manhãs bem cedo, ou ao crepúsculo,
muitas vezes, devaneando ou meditando sobre
este novo “romance” que meus leitores
esperavam de mim, segundo mensagens que eu
recebia nas “redes sociais”, e que me faziam
sentir devedora para com meus amigos virtuais,
agora uma legião.
Ah! Muitos leitores me perguntavam sobre
meus amores, meu marido Dario; sobre a Aline,
nosso pimpolho Marco, sobre Rodo, meu
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irmão, e meus sobrinhos, principalmente a doce
Patrícia (Pati), os gêmeos, e até sobre os
queridos Galdério e Matilde, meus humildes,
fiéis e amados servidores... Todos continuavam
à minha volta, menos o Rodo, que perambulava
pelo mundo de cassino em cassino, como
sempre.
Então começo aqui com os acontecimentos dos
tumultuados tempos de paz que se seguiram às
verdadeiras batalhas que experimentei pra
conservar a minha HERANÇA.
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CAPÍTULO PRIMEIRO
Encontro na Coxilha
Foi então, que numa manhã, durante meu
passeio, romanticamente colhendo flores
silvestres, avistei uma jovem e bela mulher de
mochila nas costas e na mão um inútil cajado de
peregrina, que, por sua vez, ao avistar-me, se
encaminhou na minha direção, que a esperei,
parada, com meio buquê na mão. Ela se
aproximou a dois metros de distância e,
mirando-me nos olhos, disse:
- Alma Welt... Não és?
Assenti que sim, e por minha vez, perguntei: - E
tu, quem és?
- Sou Natália, de Florianópolis (respondeu com
lindo sotaque açoriano), e sou tua amiga no
facebook, mas com outro nome de perfil, e li
todos os teus livros, e todos os teus poemas e
sonetos, tudo, tudo... tantos, que ocuparam
maravilhosamente meus últimos cinco anos.
Resolvi procurar-te, mesmo sem avisar, para
não correr o risco de não ser recebida, pois sei
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que os fãs são quase sempre incômodos. Sou
formada em Letras e estou escrevendo um TCC,
meu trabalho de Conclusão de Curso sobre a
tua literatura, e arrisquei vir assim ao teu
encontro. Só não esperava encontrar-te em
plena campanha gaúcha, a colher flores, como
tantas vezes imaginei ao ler teus versos e
romances, e nos quadros em que apareces,
assim de branco, vagando, ou diante de
portentosas árvores, que pareces adorar. Já me
sinto recompensada, só de ver-te aqui, assim.
Mas, poderás me receber e ser entrevistada por
mim, que nada fiz de grandioso por mim
mesma, além de devorar teus textos e admirá-la
desde que eu era adolescente, para desgosto dos
meus pais, que fiscalizando minhas leituras, se
escandalizaram com a franqueza e liberdade de
tuas confissões, Alma?
-Natália (respondi)... És minha hóspede desde
já. Com a tua singela e franca apresentação, já
me sinto disposta a responder quaisquer
perguntas, e até a abrir meu coração em nichos
que estão ainda trancados. Venha, venha, sinto
que poderei confiar em ti, pela limpidez dos
teus olhos, que observei. Venha comigo à
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minha casa, o casarão assombrado, que deves
conhecer bem pelos meus contos e romances...
Retornei ao casarão trazendo a peregrina
comigo, cheias de animação e esperanças de
uma nova amizade auspiciosa, que certamente
renderia frutos, já que eu estava disposta a me
abrir, confiante na minha intuição quanto ao
caráter das pessoas, antes de conviver ou não
com elas.
Entrando pela varanda e logo na nossa grande
sala, levei-a à biblioteca e a convidei a sentar-
se, oferecendo uma bebida qualquer, água,
vinho ou um suco, ou mesmo um chimarrão
hospitaleiro. Para minha surpresa ela aceitou
uma taça de nosso melhor vinho, que pedi para
a Matilde, que com seu olhar de eternas
suspeitas, trouxe em duas taças. E bebeu um
tanto avidamente, comentando:
- Delicioso o teu vinho, Alma. Deve ser o Ara
dos Pampas, não?
Natalia estava me ganhando a cada fala sua, que
me fazia perceber o quanto acompanhara
minhas aventuras e mesmo as amara, pelo
brilho dos seus olhos, que estavam já a marejar,
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enquanto rodava o olhar conferindo tudo ao seu
redor, como um cenário conhecido ou
longamente imaginado...
Então, subitamente, enquanto eu a olhava mais
atentamente para captar suas gratificantes
emoções de reconhecimento, eu... percebi! Sim,
eu notei algo que de algum modo estava
camuflado: não se tratava de uma mulher feita,
mas de uma adolescente! Imediatamente senti
um odor agridoce, velho conhecido meu: o de
problema à vista.
Imediatamente, num tom um pouco mais alto,
que não pude evitar, perguntei-lhe:
-Natália, que idade tens? Não mintas para
mim...
A moça tremeu, seus olhos marejados se
derramaram e ela, num soluço, balbuciou:
-Tenho dezesseis para dezessete... em dois
meses... mas não me rejeites, Alma, ou morrerei
se me expulsares, agora que cheguei até a ti,
depois de tanto sonho...
Ai! Eis que já eu sentia o sabor de encrenca,
que fatalmente já se armava. Questionei-a:
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-Natália, tu fugiste de casa? Teus pais sabem
onde estás? Tu tens a mesma idade da minha
sobrinha Patricia, que sabes certamente quem é.
Não posso nem imaginar a Pati fazendo um dia
o que estás fazendo... Vou ligar já para os seus
pais, me dê teu celular.
- Não! Não! Alma! Não faça isto! Não posso
voltar! Não me rejeites! Deixa-me ser tua
amiga, eu te imploro! Não te arrependerás! Eu
juro!
De mãos postas, caiu de joelhos, tão
dolorosamente que, impressionada, até
condoída, me detive e a ergui pelas mãos, o que
e ela no mesmo impulso, aproveitou para me
abraçar dramaticamente, agarrando se a mim,
trêmula.
Fiquei, sem ação, comovida. Báh! Ai de mim!
Seria o começo de um desencadeamento de
circunstâncias perigosas e dramáticas que me
roubariam a paz, eu imediatamente pressenti.
Mas lentamente devolvi o abraço, e apertei
aquela adolescente em meus braços.
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Após o lanche que lhe servi, e ela, faminta,
devorou, conduzi-a ao meu leito, despi-a como
a uma menininha e a vesti com uma camisola
minha, a cobri, e fazendo, não sei por quê, um
shhhhhh com um dedo em meus lábios, me
retirei do quarto, sentindo ainda o seu olhar
súplice me seguindo... e fechei a porta.
Na sala peguei na sua mochila o seu celular e
procurei seus dados, encontrei-os, mas, por
alguma obscura razão do meu inconsciente, ou
da alma mesma, não fui adiante. Desliguei o
aparelho, suspirei, e recoloquei o aparelho na
mochila. Lembrei-me da frase de Nietzsche:
“Não me preocupar, eis a providência que
preside o meu Destino”.
Entretanto fui procurar a Matilde, para que
minha “shakespeariana”, e antiga babá, não se
alarmasse ao encontrar a adolescente no meu
leito.
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Matilde, minha fiel “bá”, já há duas décadas
nossa cozinheira, é uma mistura de conselheira,
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bobo e corifeu desta nossa pequena tragi-
comédia familiar. Morreram já a Açoriana
(minha Mutti), o Vati (meu pai), Solange,
minha irmã mais velha e, Alberto, seu marido
bêbado, meu querido e fiel cunhado. Rodo
(Rudolf) meu amado irmão jogador de pôquer,
anda pelos cassinos do mundo e quase não pára
por aqui. Na solidão desta estância e seu
vinhedo decadente, só amainada pela presença
de Matilde e do fiel Galdério, seu irmão e nosso
"factotum", eu me consumo em meus
pensamentos, crônicas e sonetos e me esforço
para não enlouquecer, já que converso com
espectros e vago nas noites como uma
sonâmbula pelo jardim e pela coxilha em torno
do casarão. Somente a Internet prorroga minha
lucidez, paradoxalmente dando-me a ilusão da
comunicação, de ser compreendida e até mesmo
de ser amada. Escolhi o meu destino? Tudo é
encadeamento de circunstâncias, não cuspirei
no prato do meu talento mesmo que ele me leve
à solidão e à morte. Tudo é Destino...
Com isso tudo, está visto que a solidão já assola
este meu mundo, e constrange gradativamente a
minha alma, que eu queria universal para
abarcar o mundo e até ser um alento para os
meus leitores... Entretanto (ai de mim!) agarro-
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me a qualquer criatura que vier ao meu
encontro, como uma bóia salva-vidas.
Meus sobrinhos, Patricia e Pedrinho, e os
gêmeos Hans e Christian, estão com minha
irmã Lucia em Alegrete e cada vez mais
ocupados com os estudos, sómente vêm para as
férias. Aline, minha amada, e nosso filho
Marco, estão em viagem com Rodo, que
resolveu assumir seu filho natural e o está
carregando para o seu errante mundo, com sua
mãe, minha ex amante. Dario, meu marido, está
em viagem de negócios ao exterior, me deixou
sozinha aqui na estância por tempo indefinido.
Todos os meus esquemas de felicidade (um
tanto manipulativos, na verdade) estão se
voltando contra mim.
Então, não se passou meia hora sem que eu
voltasse ao quarto para observar a minha jovem
hóspede em seu sono. Sim, exausta pelas
emoções de sua aventura e de nosso encontro,
ela estava profundamente adormecida, com o
semblante relaxado, plácido como o de uma
criança no berço.
E eu fiquei longamente contemplando-a.
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“Como é bela!” eu pensei. “Como vou te amar!
Sim, com cuidado, para não te machucar... Para
não te machucares ao também me amares...”
Enquanto esperava a adolescente acordar, o que
me pareceu um longo tempo, me senti inspirada
e pus-me a escrever estes sonetos sobre o tema
do Tempo, que me vieram todos assim,
encadeados:
O Tempo Suspenso (de Alma Welt)
Quisera suspender do Tempo o curso
Tal como implorava Lamartine *
No seu lago feliz, mas sem discurso,*
Que tempo não há que não termine.
Mas enquanto ele corre, que agonia!
Passa o tempo e nele a juventude
E com ela o próprio sonho que me guia
E que acalentei enquanto pude.
Mas se velha eu ficar, do que duvido,
Possa alguém, um poeta, dedicar
A esta Alma um poema nunca lido
Mas feito para mim em minha velhice
Como o soneto famoso de Ronsard *
Às rosas e ao Tempo, e que este ouvisse...
_______________________________
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O tempo presente (de Alma Welt)
O Tempo que nos cabe é o presente,
Fugidio como peixe ensaboado
Que escapa-nos dos dedos de repente
E ficamos para ele no passado.
Ele deixa-nos pra trás sem mais delongas
Sonhando com o tempo do Afonsinho
De gregárias calendas de milongas
Num qualquer saudoso Bar do Minho
Onde um luso de bigodes como um muro
Servindo pinga e não água corrente
A nossa boemia fomentava...
E como éramos felizes no presente
Daquele tempo repleto de futuro,
A sonhar com quase tudo que calhava!
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As orelhas do Tempo (de Alma Welt)
As orelhas são fixas no Tempo *
E crescemos entre elas, diz a lenda,
Desde que não haja contratempo
E enviemos uma de encomenda *
Para as terras de Gog e de Magog *
Onde nascem os pintores e poetas
Que antes escolhem as suas metas
Pra ser feliz depois, como Van Gogh. *
Bah! Todo o nosso criar é surreal
Já que nada leva a crer tanta loucura
De morrer por "um pedaço de pintura"...*
Mas só quem pinta sabe do que falo
E, numa tela, persegue o ideal
Seja em grossa pasta ou meio ralo... *
.
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Oração ao Tempo (de Alma Welt)
Que meu tempo não seja só a espera
De conclusões ainda que felizes,
Nem o da caçada de uma fera,
Sem a fera, ou só levante de perdizes...
Que não seja mero jogo, desfastios,
Muito menos o de mil cartas marcadas,
Ou daqueles que ficaram a ver navios
E do ônibus a espera nas calçadas.
Que meu tempo não tenha sido em vão
Ou somente aperitivo pra Saturno
Enquanto o deus aguarda o seu filão.
Mas que seja eu mesma a iguaria
Enquanto avança Cronos por seu turno,
Pra devorar a mim e à minha Poesia...
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Meu pequeno relógio (de Alma Welt)
Um reloginho ganhei quando guria
De ouro, um mimo, com ponteiros
Que me fascinavam, de certeiros,
Mas o tempo, neles não corria...
Como eram lentos os ponteirinhos!
Como o tempo era longo, e a vida, enfim...
Era difícil maturar aqueles vinhos
Nas garrafas reservadas para mim.
Então eu disse ao pai: "Me deste o Tempo
Ele agora me poupa à revelia,
Preciso que me dês um contratempo".
Rindo, meu pai, então, seu mimo retirou:
"És impaciente, e eu não sabia,
Mas foi a vida que até hoje te poupou..."
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A Senhora do Tempo (de Alma Welt)
Meus amores finalmente hão de voltar
Mesmo a terra estando pobre, devastada,
Se eu não tiver senão minha morada:
Esta casa, o jardim e o meu pomar...
Sou a senhora do tempo que foi meu
Pois que o dominei com minhas palavras
Em noites claras e outras como breu,
Em versos, minhas verdadeiras lavras.
O vinhedo? Esse foi-se com os ventos
Após tantas vindimas de alegria
Deixando agora gestos bem mais lentos...
Mas não lamento nada, que amei tanto
E plantei minha semente de poesia
No lugar das uvas secas e do pranto...
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Mais Palavras ao Vento (de Alma Welt)
Vento, há muito tempo não te imploro
Que me leves daqui para os teus pagos
Pois o Tempo já não ouve quando choro
E a ele não seduzem meus afagos.
Então ponho-me nua ante os espelhos
E peço que me dêem mais uns anos
Ao menos pelos meus pêlos vermelhos, *
Que a estes não pertencem meus enganos...*
Ó Tempo, ó espelhos, ó meu Vento!
Revelai-me a essência do momento
Num acordo que o meu destino sele,
Que nada mais almejo, só mais prazo,
Já que a cada rima mais me atraso
Para o Verso fatal que me revele...
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Tempo e coração (de Alma Welt)
Ó Tempo, desfila em minha varanda
Mas não me transforma o coração
Que permanece de guria e pouco anda
Me mantendo sentadinha na estação
A esperar o trem das novidades
Como se o mundo só mudasse alhures
E eu, aqui, na espera e nas saudades,
Que dessa nem espero que me cures...
Mas, coração, passageiro ensimesmado,
Liberta os olhos de passadas águas,
Que não passas d'um narciso debruçado,
E deixa-me ir ao léu com o trenzinho
Às terras onde nem existem mágoas,
Nem é mais verde o pasto do vizinho...
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Encontro com o Tempo (de Alma Welt)
Na coxilha com o Tempo me encontrei,
Muito velho a andar com firme passo
E com tanto domínio de sua lei
Que não me atrevi a dar-lhe o braço.
A barba branca até o tornozelo
Lhe dava um tal aspecto bizarro
(mas não de sujeira ou desmazelo,
que nessa bizarria não me amarro)...
Mas, confesso, um tanto temerosa
Saudei o velho andarilho com respeito
Sem saber se o fiz em verso ou prosa.
“Tão gulosa tua quota devoraste”-
Disse o velho com o dedo no meu peito-
“Que a ti mesma para trás deixaste...”
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Pequena Ode ao Tempo (de Alma Welt)
Tenhamos reverência pelo Tempo
Já que ele respeita o nosso passo
Tão desigual em meio a contratempo,
Infortúnio ou só mudança de compasso.
Ele é o Senhor, é o Maestro autoritário
Todavia mesmo às vezes paternal,
Conquanto passível de humor vário
E quase sempre inflexível no final..
.
Sabei, senhores: o Tempo é mesmo Deus
Que o Verbo conjugou, nos complicando,
Ao criar a Nostalgia e o Adeus.
Mas o Presente é Seu fluxo visível,
O Futuro imprevisível retardando
E tornando o Amor, mesmo, possível...
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Na viagem de minha vida (de Alma Welt)
Na viagem de minha vida solitária
Tenho todo o tempo pra sonhar,
Mas sento-me à janela, que, contrária,
Busca distrair o meu olhar.
Assim vejo a mim mesma contra o fundo
De um cenário mutável e veloz
Que é o retrato dinâmico do mundo
Transformado em filme como nós
Que custamos a entender as tramas várias,
Confundidos com o nosso personagem
Em tomadas assim fragmentárias
Que é preciso editar para entender
O sentido linear e a mensagem
Que somente o Diretor logra saber...
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Outrora caminhei de Alma Welt)
Outrora caminhei sobre um jardim
De flores densamente alcatifado,
Em que cores e perfumes, para mim,
Eram meu próprio corpo projetado.
Pois criança, estendia meus limites,
Já que as doces coisas tão queridas
Me cercavam lançando seus convites
Confundindo-me à suas próprias vidas.
Crescer foi um processo, para mim,
Doloroso, do cortar de mil gavinhas
Como orquídea transplantada de xaxim.
E me vejo exilada do jardim
Qual de um mágico buquê dessas florinhas,
Como ervas são podadas, se daninhas.
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Volto ao pomar (de Alma Welt)
Volto ao pomar da minha infância
Lembrada qual se fosse a Grande Era,
Comovida com os ecos à distância
Que a própria memória reverbera.
Caminho ao redor da macieira
Como outrora, com a mesma sensação
De ouvir mais claro o sopro e o coração,
Junto às raízes em que estou inteira.
E confiro junto ao tronco e suas folhas,
Do meu destino o preço e a missão,
Pedindo só ao Tempo: “Não me tolhas,”
“Me deixa completar a minha sina
Seguindo do meu ser a inclinação
Como a semente ao fruto se destina!”
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Sob o cone de luz (de Alma Welt)
Sob o cone de luz, que me deslumbra,
Cercada do bailar dos filamentos,
Dissipo no Tempo meus momentos
E sinto a alma sair de sua penumbra.
E vejo-me a mim, melhor, me sinto
Neste turbilhão tão silencioso
Cintilante, como em tela às vezes pinto
O espaço ideal, com tanto gozo.
E é claro, para mim, esse sentido
Do surgir, e após o brilho pressentido
Mergulhar no Nada, novamente,
Numa eterna dança coruscante,
Que consola meu corpo e minha mente
Com ser eterna, e bela, num instante.
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Quando chegar ( de Alma Welt)
Quando chegar o meu momento
Quero olhar a vida num relance
E vê-la inteira, sem tormento,
Polida, completa, ao meu alcance
Como em mármore, escultura acabada,
Obra-prima que por ser assim perfeita
Merece a atenção, que nela deita,
E repousa na beleza, apaziguada.
Pois que Vida e arte, uma só
Visão, tarefa, obra, sai da alma
E dura como se não fosse pó.
Assim ludibriamos nossa morte
E sentimos como a vida então se acalma
Por um tempo bem maior que a nossa sorte.
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As horas voam (de Alma Welt)
As horas voam, é o que elas fazem,
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.
São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,
A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.
E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...
42
Ananke (de Alma Welt)
Eu vi o grande fuso do Destino
Atravessando o céu e a terra num cilindro
De luz, bobinando lento e lindo
Das três Parcas aquele fio tão fino.
Passado, Presente e Futuro
Eu vi de uma só vez nesse momento
E com o mesmo olhar ainda perduro
Perplexa, com o mesmo sentimento,
Pois tive do Mistério a vertigem
Por fração do Tempo eternizada
E vi do Edifício a fachada,
Embora o alicerce ou sua origem
Permaneça na alma ainda virgem
E a razão de tudo, intocada.
43
Nightmare (de Alma Welt)
Acordo nesta cama em que estou,
Assustada, em plena madrugada,
E logo me dou conta, espantada,
Que um silêncio fundo me acordou.
Nem um latido ao longe, nem um galo
Nem o cri-cri dos grilos que são gratos
Quando anunciam chuva, nem os sapos,
Tampouco o Tempo escoando pelo ralo.
E esse silêncio atroz me desespera
Pois deve ser o mesmo dentro a tampa
Fechada do caixão que nos espera
E corro ao espelho, apavorada,
Por um segundo antevendo minha campa
Sobre minha bela face descorada.
44
Sinopse (de Alma Welt)
Os poentes me devolvem a guria
Reverente e humilde finalmente,
E preciso contemplá-los todo dia
Para ter um parâmetro na mente.
Testemunho de Deus em ato puro
Para nós se agraciados pela fé,
Para outros é o sol atrás do muro
Do horizonte como onda de maré.
Mas para mim é o ciclo eterno,
Ou da vida abreviada trajetória
De sua primavera ao seu inverno:
Se morro todo dia também nasço,
Como uma sinopse da estória
Cujo tema é só o Tempo-Espaço...
45
A Jornada ( de Alma Welt)
A quem agradecer tanta beleza?
A Deus, ao Cosmo, à Mãe Natura,
Ou ao Tempo que a todos nos matura
Pra ceifar-nos logo, com crueza?
Acabamos de aprender alguma cousa,
E depois de tantos erros e erratas
Estamos aptos a escrever na lousa,
Que afinal será um nome e duas datas.
Mas se a vida foi bem desfrutada
E co’a sabedoria estamos quites
Pelo menos já fruímos a jornada
Que terá sido tão bela de se ver...
E a verdade é a beleza, disse Keats, *
Era tudo o que havia pra saber.
46
O Eterno Retorno (de Alma Welt)
Às vezes ser mais simples eu quisera,
E viver sem questionar o tempo e o ser,
A razão de se viver e essa quimera
Que nos exige trabalhar para viver,
E buscar ser feliz a todo custo,
Mesmo contra a nossa própria mente
A recordar a dor, o medo e o susto
De ver tudo perdido de repente...
Mas perdido o quê, além da vida,
Que pelo que se espera lá no fim
Infelizmente já é coisa resolvida?
Talvez viver seja somente procurar
Voltar ao par que fomos no jardim,
Bem antes deste mundo começar...
47
Confusão (de Alma Welt)
De muito longe no tempo vem minh’alma,
Assim como as mais puras dentre vós
Que recordamos a raíz do nosso trauma
Co’a confusão lingüística da voz...
Mas Deus alternativa oferecia
Além do aprendizado desses códigos:
O dom maior da Música e Poesia
E da boa acolhida aos filhos pródigos.
Desculpai-me a confusão, por minha vez,
Que muitos acham só insensatez
Eu assim misturar temas e conceitos.
Mas creio estar tudo interligado,
E o Retorno ao Paraíso, programado,
A charrua abandonando e nossos eitos.
48
Alma Frankenstein (de Alma Welt)
Que posso eu, vã poeta deste Pampa
Fazer em relação ao triste Mundo,
Que é o lado sombrio que destampa
A caixa de Pandora que é, no fundo?
O Olimpo éramos nós, ou Paraíso,
Num tempo que perdemos por maldade;
O abismo que cavamos, mal juízo
Que fizemos de nossa deidade...
Querer mais... da humanidade a maldição,
Fagulha a nós legada por aquele
Prometeu, de quem somos a metade.
Qual Frankenstein, somos filhos da Razão
Que nos deu a solidão, a mesma dele,
Desterrado de toda sociedade...
49
Alef (de Alma Welt)
E me vi num espaço de alforria
Onde antes corria aquele vento
Ou rio do meu próprio pensamento,
Que há tempos a Morte perseguia.
E eis que o Tempo cessa por encanto
E me sinto de repente em plenitude
No cenário da minha juventude,
E dessa memória guardo o espanto.
Quão belo é o hiato que me acalma
E faz ver o equilíbrio delicado
A que o homem precisa dar a palma!
Essa zona de silêncio em meio ao prado
É um Alef sublime, e tudo é uno:
A alma e seu amor, o fogo e o fumo...
50
O Poeta e o levante (de Alma Welt)
Através dos milênios à porfia,
Carrega o poeta a sua tocha,
E o tão sagrado fogo da Poesia
Pesado vai ficando, como rocha.
A solidão aumenta a cada século,
Que, nós, milênios dentro carregamos,
Que ser poeta é ser como um espéculo
Da espécie que o saber e dor herdamos.
Que importa se o tempo nos compreende!
A missão é passar o fogo adiante,
Um poeta com outro só se entende
Desde o nadir do ser, de trás pra diante,
Como esgarçada malha que se estende,
A esperar de nós nosso levante...
51
O rio (de Alma Welt)
Atirados na corrente sempre fomos
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,
E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,
E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,
Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...
52
O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)
Não digo adeus às coisas tão amadas
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida
Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,
Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade
Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...
53
Antípodas (de Alma Welt)
Para ser a Alma mesma que me cabe
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.
Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.
Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.
E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.
54
Dúbios domingos (de Alma Welt)
Tenho com os domingos dúbia liga
Pois embora ensolarados em essência
Me fazem ver do Tempo a vã carência
E a tal fugacidade, ó minha amiga.
A contagem domingueira se revela
Ultimamente regressiva e voraz
Embora eu seja jovem, viva e bela,
Já me vejo saudosa a olhar pra trás.
Eis que me sinto assim contemplativa,
Que nunca fui alguém que muito chore,
E me ponho a vagar como uma diva
A colher florzitas como a Core
No seio claro desta natureza viva
Antes que o escuro solo me devore.
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O passatempo das horas (de Alma Welt)
Para escapar às tentações do tédio
Não aceito nenhum jogo de baralho,
Nenhum de tabuleiro ou o borralho
Dos sentimentos e do raciocínio médio.
Em matéria de cartas só respeito
As da cigana com seu pacto astral
Ou aquelas que exigem muito peito
Como as do Rôdo em seu pôquer marginal.
Mas servil, vejo o passar das horas
Como um mordomo que exige as atenções
A elas porque são grandes senhoras
Que preferem o soprano da poesia
Que lhes é apresentada nos salões
Onde o próprio Tempo se enfastia.
56
CAPÍTULO SEGUNDO
Tempestade à vista
Procurei Matilde no seu quarto de paredes
recobertas de santos, crucifixos, e altarezinhos
improvisados. E velas, muitas velas
permanentemente acesas, e aquele cheiro
característico de sacristia.
Ela interrompeu um terço que desfiava e
interrogou-me com os olhos, antes de
perguntar:
-A guria já foi embora? Galdério já a levou à
estação, como o mandei preparar a charrete?
-Não, Má, ela está dormindo em minha cama,
mas assim que acordar chamarei o Galdo, não
te preocupes...
Eu disse isso esperando que a guria dormisse
muito, muitas horas... (que sei eu?). Por quê?
Para quê Para esquentar os meus lençóis e
deixar o seu aroma, seu perfume? Eu me
desentendia... estava na fronteira de sensações
desencontradas.
57
Fui para o escritório, para a grande biblioteca
do meu Vati e sentei ao seu piano, seu grande
Steinway negro e toquei, depois de muito
tempo que não o fazia, um prelúdio de Chopin,
quase esquecido por mim, o da “Gota d’Água”,
e senti que o gotejar das notas era o do destino
me preparando para algo, para o desconhecido...
de mim mesma.
______________________________________
Naturalmente, ou não, Natalia foi ficando, sob o
pretexto de me entrevistar para um tcc de sua
Faculdade, que na verdade não batia com a sua
idade confessada, mas ao que fiz vista grossa,
como se fosse possível ela estar concluindo
uma faculdade. Na verdade, se a guria mentia,
eu já era sua cúmplice, em minha fraqueza
diante da tentação que ela representava ao meu
espírito, ou ao meu coração. Ou ao meu corpo
mesmo...
Sim, eu passeava com ela todas as manhãs,
pelo jardim, pelo bosque e pelo pomar em que a
apresentei à Ara dos Pampas, minha macieira
sagrada da infância, que ela me pediu ver, logo
no primeiro dia. Ela estendeu o braço e tateou
emocionadamente o coração cicatrizado no
58
tronco com as iniciais de minha tríade: ARA
(Alma, Rodo, Aline), que ela parecia já
longamente cultuar.
Não, eu não mais a deixei voltar ao meu leito
nem para dormir sozinha como fiz no primeiro
dia, e a fiz ocupar o quarto de hóspedes. Eu
apenas fruía, inocentemente ou não, de sua
companhia e da contemplação de sua juventude
e beleza. Com isso vários dias se passaram
deliciosamente para nós, dando tempo para,
longe daqui, se formar a tempestade.
Em Florianópolis, os pais de Natália,
alarmados, desesperados mesmo, com o sumiço
da filha, sem pistas, pois os amigos e colegas de
primeiro ano de faculdade de Natália, por
incrível que pareça, também não as tinham,
resolveram contratar um detetive particular, que
foi logo dizendo que, na falta do celular, que a
guria levara consigo, era preciso entrar no
notebook dela. E com a permissão dos pais, e
uma habilidosa descoberta da senha, foi muito
fácil rastrear os caminhos, as navegações pelos
blogs de uma certa escritora e poetisa chamada
Alma Welt e depois o perfil falso no facebook
com que Natalia acompanhava e comentava
com entusiasmo e admiração de fã
59
incondicional, as minhas postagens, há mais de
um ano. O detetive, também descobriu meio
escondidos no quarto de Natália, todos os meus
livros publicados até então, alguns com
anotações e pontos de exclamação a lápis. Logo
fez um relatório com a conclusão correta de que
a garota fugira de casa para encontrar a
escritora de sua admiração, e imediatamente
começou uma pesquisa sobre a minha vida, que
como vocês podem imaginar, estarreceria
aqueles pais moralmente ultra-conservadores.
Na verdade os dados mais abundantes e
verdadeiros eles descobriram no meu romance
autobiográfico e confessional, totalmente
verdadeiro, a saga-trilogia A Herança, onde
desnudei corpo e alma como poucos escritores
já o fizeram na História.
O detetive e a mãe de Natália leram meus
livros pela rama e em diagonal, mas se
detiveram, em particular, no capítulo do meu
julgamento em tribunal de Juri, e não tardaram
a concluir que, na lista de meus “crimes” agora
não faltaria o de transvio de inocentes e de
“pedofilia”. E os pais se preparam para resgatar
sua filha das garras de uma escritora talentosa,
mas “diabólica”...
60
Como eu já mencionei, Natália queria que eu
lhe mostrasse todos os pontos e recantos da
propriedade e eu já até apresentara a ela o mais
sagrado para mim, a macieira, a Ara, do meu
pomar, mas eu estava evitando levá-la ao meu
“Poço da cascata”, onde sempre me banhei,
invariavelmente nua, mais um hábito de
sensualidade e liberdade, do que um ritual.
Justamente por isso eu não a tinha levado até
aquele dia, em que ela insistiu tanto que a
levasse a conhecer o decantado pequeno lago
cristalino, cujas águas estranhamente plácidas, a
uma certa distância da cascatinha não
escondiam a nudez. Tanto Natalia insistiu,
rogou e me prometeu obedecer qualquer
comando, que eu, finalmente cedi e a levei lá
para “reconhecer” ou conferir com o
imaginário das suas devotadas leituras.
Ali chegando, ela imediatamente me pediu que
me despisse e me banhasse nua junto com ela
como eu fizera com a minha Doutora Jensen e
contara no meu último romance. Mas eu resisti
em parte e não caí na sua perigosa armadilha:
me desnudei em sua frente e entrei na água, mas
proibindo que ela me imitasse, e ordenei que
61
entrasse de calcinha e soutien, o que na verdade
me foi estranho exigir pois me senti um tanto
hipócrita e até covarde. Ela me obedeceu, mas
devo mencionar que seus olhos se arregalaram
diante da minha nudez branca e desmesurada,
que ela mais tarde descreveu como
“deslumbrante”. Sim, eu, de certa forma, caíra
na armadilha, dando margem a que futuramente
me acusassem de sedução e aliciamento...
Após banhar-me nadando um pouco e
mergulhando como uma sereia ou mais
apropriadamente, uma iara, tive que sair e
dirigir-me às minhas roupas que ela, saída
primeiro, travessamente colheu no chão e
escondeu atrás de si, se afastando para mais
tempo me ver nua, me devorando com os olhos,
a ponto de eu ter um pequeno movimento de
súbito pudor cobrindo minha vagina levemente
rosada com a mão direita enquanto o braço
esquerdo tentava cobrir os meus seios, de bicos
igualmente rosados.
Sim, pela primeira vez na minha vida eu tentei
cobrir minha nudez... e pior: não por vergonha,
mas por medo.
Depois de ter que persegui-la um pouco na
praiazinha de cascalho, e lutar nua pelas minhas
roupas, o que me deixou quase furiosa, meu
62
semblante fechado a intimidou e ela as entregou
e se limitou a observar-me, enigmaticamente, a
vestir-me às pressas, como para apagar alguma
coisa escusa... pela primeira vez em minha vida.
Quanto à sua radiosa beleza adolescente,
percebida por mim, mesmo semi-vestida de
absurdos calcinha e soutien ”obrigatórios” por
alguma suposta lei, eu tentava obliterar da
minha mente em conflito... essa é que era a
verdade!
__________________________________
Voltamos para casa em silêncio, e eu, um tanto
zangada e confusa, ainda antes de chegarmos,
lhe disse:
-Natália, chega de passeios e visitas, turísticas
ou de peregrinação, seja lá do que forem.
Chega! Tu disseste que veio me entrevistar
como a escritora escolhida para o teu TCC.
Vamos começar a fazer isso agora mesmo ou
nunca mais, e te despacho com o Galdério, no
automóvel até a estação, para ser mais depressa
do que com a charrete.
63
Natália fez que sim com um movimento triplo
e rápido com a cabeça, que me pareceu
levemente cínico, ou ainda “travesso”. Aquela
guria iria me dar trabalho, eu pressenti...
De volta no casarão eu a levei direto ao
escritório e biblioteca e a fiz sentar-se numa
cadeira simples enquanto eu me sentava na
cadeira de meu pai na sua mesa de trabalho. E
comandei:
-Natália, faça as tuas perguntas. Comece!
Ela retirou um caderninho (e uma caneta bic)
de sua mochila, e fingindo consultá-lo,
perguntou:
- Alma, quantos amantes tu já tiveste na tua
vida até hoje, além de Aline e Rodo, teu irmão?
Eu fiquei perplexa, e logo furiosa:
- O quê? Essa é uma pergunta que se faça para
um TCC? Estás brincando comigo? Aonde
queres chegar, guria atrevida? Não vieste saber
como nasce minha literatura, suas
64
características, suas fontes e segredos, etc?
Queres perpetuar intrigas mundanas, é isso que
queres?
Eu disse isso furiosa, mas mais comigo mesma,
pois aquela garota estava expondo uma espécie
de hipocrisia que até então eu desconhecia em
mim. Tanto mais que, perguntas assim seriam
legítimas, pois meus amores e amantes de uma
vida, todos, eram o manancial mesmo da minha
literatura, da minha poesia. Aquela guria era
sagaz e, nada inocente...
Eu estava perdida.
________________________________
65
CAPÍTULO TERCEIRO
O Resgate
Como seria de se esperar, os pais de Natália,
Doutor Ciro e sua esposa Dona Cíntia,
chegaram de carro na minha Santa Gertrudes,
acompanhados por seu advogado, os três com
feições sérias e até fechadas, e os recebi na
varanda. Convidei-os a entrar e se sentarem na
Biblioteca-escritório de meu Vati e,
hospitaleiramente, ofereci bebidas a eles, que
recusaram friamente. Logo expuseram sua
indignação, perguntando por sua filha, e por sua
integridade.
Dona Cíntia foi a primeira a falar:
- Dona Alma, és casada, pois não? Posso saber
onde está o teu marido, e por quê minha filha,
menor de idade, se encontra em tua casa, aqui
tão longe de tudo. Onde está ela? Queremos vê-
la imediatamente!
66
Antes que eu pudesse responder, o advogado,
Doutor Jair, irrompeu, dizendo:
-Dona Alma, a senhora, pessoa culta que é, e
adulta, embora pareça surpreendentemente
jovem, sabe que está cometendo um crime
acolhendo uma menor de idade fugitiva de casa,
sem ter comunicado imediatamente a polícia e a
família, não sabe?
Meus olhos marejaram, mas eu tentei continuar
ostentando serenidade e firmeza. Na verdade eu
estava envergonhada da minha fraqueza e
imaturidade. Respondi:
-Sim, doutor, eu sei, não tenho desculpas
quanto a isso, a não ser que a guria me enrolou
ou eu me deixei enrolar, por vaidade, talvez...
Ela é muito inteligente e encantadora e parece
conhecer a minha vida inteira, além da minha
obra. E me surpreendeu. Mas não tenho
desculpa por tê-la acolhido e não ter
comunicado a sua família imediatamente. Vou
chamá-la, por favor, aguardem aqui.
67
Minha franqueza e naturalidade diante das
circunstâncias parece tê-los desconcertado um
pouco, mas permaneceram ali enquanto fui
procurar Natália.
Ela estava em seu quarto, sentada no chão
encolhida, tremendo. E irrompeu em lágrimas.
Não sei se de vergonha ou raiva. Eu segurei
sua mão, a fiz levantar-se e a conduzi pelo
pulso até a biblioteca, onde sua mãe, que já a
esperava de pé, a abraçou fortemente, em
alvoroço e lágrimas, como a uma seqüestrada
recém libertada. Ela exclamava:
-Minha filha, estás bem? Não te fizeram mal?
Ela não te tocou? (e segurava entre as mãos,
convulsivamente, o rosto de Natalia).
Então (ai de mim!), Natália a afastou firme
mente e proclamou;
- Mãe, eu me tornei amante da Alma. Estou
apaixonada, ela me ama, e eu a ela. Nós somos
felizes e durmo com ela. Vejam a nossa beleza
juntas!
68
Natália estendia, a todos, um vídeo de seu
celular ligado, mostrando-me nua, frontal (não
sei como não percebi) e de costas, no poço da
cascata, e ao seu “selfie” de seios desnudos
enquanto eu mergulhava. Ela me
enganara!Traíra os meus fracos escrúpulos e
minha hipocrisia! Ela me atirava aos lobos!...
A vista se me escureceu... e, desmaiei.
________________________________
69
PÍTULO QUARTO
O Processo
Eu soube, no dia seguinte, quando me
restabeleci do choque de realidade, que os pais
de Natália e o advogado explicaram a ela a
gravidade de minha situação criminal e jurídica,
e a convenceram a abandonar-me para regressar
com eles à sua casa em Florianópolis. Em
seguida instauraram um processo contra mim,
por sedução, aliciamento de menor e pedofilia
(!!!).
Por minha vez, eu estava chocada com a reação
de Natalia, que na sua imaturidade, pensava não
ter mentido e me traído, mas sim afirmado
valentemente o seu amor (ou paixão), obsessão
adolescente, na verdade das mais perigosas.
Eu ia me tornar a protagonista de mais um
escândalo, e desta vez pensava em meu marido,
o Dario e meus sobrinhos que já eram também
quase adolescentes, e sobretudo na Patricia, já
uma mocinha, mas que continuava um anjo de
70
candura. Eu temia chocá-la, desencantá-la de
mim e do seu mundo ideal.
Ultimamente, quem vem pela estrada, numa
elevação da coxilha, ao pé das Colina dos
Mortos, nosso cemitério particular, avista a
Casa dos Welt, o “casarão dos boches” (nas
más línguas), e aponta o dedo como a grande
toca de uma bela feiticeira ruiva, sem idade,
eternamente jovem que a habita desde o tempos
farroupilhas, quando a casa hospedou Anita e
Giuseppe Garibaldi que foram seduzidos pela
feiticeira e formaram um triângulo amoroso que
não se desfez mais. Os fantasmas do casal de
heróis ainda vagam pelo casarão (dizem eles) e
são invocados pela poetisa feiticeira que seduz
homens e mulheres que, por alguma razão, de
beleza, talento, ou coragem, são atraídos por
aquela casa.
Eu me divertiria com estes Mitos, que na
verdade contribuí para serem criados, se não
71
fossem os perigos que eu agora percebia, se
acumulando, de conspirações e calúnias, de
inveja e maledicências, de cobiça e desejos
lúbricos ocultos.
Quando meus amados voltaram, sem ainda
nada saberem dos últimos acontecimentos por
aqui, me encontraram como um fantasma,
vagando descabelada, de camisola, falando
sozinha, ensaiando alto minha defesa diante de
um invisível juiz, que se confundia com um
padre ou o Deus-Pai mesmo. Pensaram
imediatamente em me internar, pois eu não
conseguia explicar coerentemente a encrenca
em que me metera.
Passaram-se muitos dias ou meses, não sei,
enquanto o meu fiel advogado, mais uma vez
deliciado com o que ele chamava “meus
processos de beleza”, estudava a minha defesa,
que na verdade estava difícil pela ausência de
testemunhas, tendo apenas a minha palavra a
meu favor, como inocente da acusação de
aliciamento e pedofilia, contra a da suposta
vítima que eu temia fosse arrolada como
72
depoente, que certamente, por orgulho juvenil,
confirmaria em juízo o seu falso testemunho
para constar na História como uma jubilosa
última amante da Poetisa do Pampa. Deus me
perdoe!...
Naqueles dias estava muito difícil disfarçar a
minha preocupação. Eu percebia o risco que eu
corria, com a minha fama de “Casanova de
saias”, como me tachou o promotor do meu
primeiro julgamento como ré no caso do
suposto seqüestro dos meus sobrinhos, caso que
nada tinha a ver com minha vida amorosa, e que
narrei no meu primeiro romance autobiográfico,
A HERANÇA: O Sangue da Terra, publicado
em 2022, e depois sucesso mundial, na sua
versão em inglês, THE HERITAGE: The Blood
of the Earth, publicado em 2024.
Finalmente, foi marcado o dia do meu
julgamento e meu advogado, o Dr.Loredano,
estava animadíssimo, como se fosse uma festa.
Eu, insegura, como se estivesse andando no fio
de uma navalha, já mirando o abismo. Afinal,
minha liberdade e felicidade estavam em jogo,
73
pois minha insegurança tinha fundo real no fato
de que eu, na verdade me sentia culpada, pois
fantasiara por momentos quase ocultos de mim
mesma, uma relação amorosa e, por que não
confessar: sexual, no meu leito, com a ninfeta, a
Lolita da minha desgraça...
___________________________________
Quando eu era guria, havia uma vizinha
estancieira velha que explorava os seus
empregados. Falecidos os meus avós, meu pai
passou a pagar melhores salários aos nossos
"gáltchos", acima dos praticados nas estâncias
vizinhas, o que provocou uma corrida ao nosso
casarão. Alguns peões abandonavam seus
velhos patrões ou vinham escondidos sondar a
possibilidade de novo emprego com meu pai,
que freqüentemente os dissuadia, por não
dar conta de absorvê-los. Então, aquela velha
estancieira montada a cavalo veio até diante de
nossa varanda, ataviada como um “gáltcho”, de
bombachas, botas, esporas e faixa com punhal
de prata na cintura, chapéu de barbicacho, aba
dobrada na testa. Sem apear-se, com um relho
na mão (a outra na cintura) apontou-o para o
74
meu pai (este imponente, nunca me esquecerei,
de pé na varanda) e disse-lhe alto:
-"Senhor "boche", o senhor está inflacionando
os salários e roubando-nos nossos empregados.
Isso é contra a lei, pare com isso ou vou à
polícia, vou ao governo do Estado se preciso. O
senhor está avisado!"
Olhei para o meu pai, esperando sua resposta,
mas ele, impassível, nada disse. Para meu
espanto tocou apenas o chapéu como um
cumprimento e ficou vendo a velha se afastar
arrogantemente. Eu era pequena e apesar de
minha curiosidade, nunca soube o que
aconteceu depois, já que meu pai não perdeu
nem uma noite de sono, isso eu percebi. Como
contornou ele a delicada a situação?
Muitos anos mais tarde perguntei diretamente a
ele, que tomou um ar distante e disse
lentamente:
- "Báh! Filha, aqueles foram tempos difíceis, de
batalhas e escaramuças... muito sangue correu,
mas estabelecemos nosso reino de cidadãos
felizes."
E piscando-me um olho sorriu para mim, aquele
sorriso maravilhoso.
75
Eu agora me lembrava dessa história para
colher alento na sabedoria e dignidade de meu
pai em momentos difíceis, que segundo me
disse um dia, “se rearranjam por si mesmos”, se
não perdermos a serenidade.
Ah! Lembrava-me também que quando guria eu
vivia em lágrimas pela beleza de quase tudo.
Uma irmã me chamava de “manteiga
derretida”, a outra me abraçava ternamente,
condoída. Nenhuma das duas podia realmente
me compreender. Minha mãe, a bela Açoriana,
abanava a cabeça. Meu pai, o Vati, me
observava calado, eu não precisava me
preocupar, ele me conhecia...
Então, diante dessas lembranças, eu me
retomei em brios, resolvida a enfrentar meu
julgamento próximo com uma postura
inusitada, que era “a da beleza contida em tudo
isso”. Essa era a chave: havia beleza em ser
julgada por um crime que só cometi em fantasia
íntima. “Não há, a rigor, verdadeira injustiça no
mundo” disse uma vez um filósofo antigo, e eu
iria confessar em público o meu pecado de
fantasia amorosa e de renúncia ao amor... por
AMOR!
Naturalmente eu não revelei a minha decisão a
ninguém, muito menos ao meu defensor, o Dr
76
Loredano, fosse lá qual fosse o seu plano de
defesa, que ele também sempre me escondia até
o desfecho.
Com todos os meus amados, de volta, por aqui,
eu procurei levar os dias que restavam até o dia
do meu julgamento como se nada estivesse
acontecendo, mas foi difícil, pois Dario lia
jornais na Internet, e as notícias do novo
escândalo Alma Welt estavam já em toda parte,
inclusive na boca de youtubers, e
influenciadores gaúchos, alguns maliciosos e
maledicentes, desses que querem botar fogo no
circo. Fotos minhas, algumas falsas, apareciam
tendo sido colhidas não sei onde, pois meu
único retratista autorizado sempre foi o
Guilherme de Faria, pintor e poeta paulistano,
idoso, que me descobriu em 2001, no meu
exílio paulistano e me lançou no mercado
editorial brasileiro.
Quando afinal chegou o dia do meu
julgamento em Tribunal do Juri, em Rosário do
Sul, a cidade mais próxima da minha estância,
fiquei sabendo que o promotor público
designado tinha fama de feroz e impiedoso. Era
77
eu, a ovelha, diziam alguns, que ia para o
matadouro.
Na véspera do julgamento, fui com Dario e
Lucia para Rosário do Sul e nos instalamos no
Hotel Areias Brancas, em que havíamos
reservado dois quartos. Passei uma noite de cão,
com pesadelos estranhos, se não agourentos.
Por volta das nove horas eu dava entrada no
tribunal com pequena multidão, que já se
adensava na calçada, com jornalistas e
fotógrafos, verdadeiros “paparazzi” em versão
gaúcha, ávidos por escândalos e fotografias da
poetisa que já ganhava fama também por
escândalos (ai de mim!). O jornal da cidade e
seu canal de televisão, já fizera intensa e
escandalosa cobertura do novo caso da poetisa
estancieira, já famosa, no mínimo por meu
julgamento anterior em Novo Hamburgo,
alguns anos antes, em que fui absolvida e até
aclamada.
Agora, ali, se repetia o tumulto, e no empurra-
empurra, me separaram de Dario e de Lucia, na
ânsia de tocar-me, e no meio de gritos
controversos ouvi uma moça gritar: “Alma, me
aprisione com você!”, coisa que na hora eu não
entendi, mas me perturbou.
78
Na sala do Tribunal o Juiz, togado, já
martelava bravamente com seu martelinho de
madeira, gritando por silêncio, tal o burburinho
que ocorreu à minha entrada.
-Silêncio na Sala! (proclamou ele) Vamos
proceder ao julgamento da acusada Alma
Morgado Welt, por crime de “aliciamento de
menor, cárcere privado e pedofilia”. Queira a ré
se apresentar. Com a palavra o promotor!
Após alguns segundos de perplexidade diante
da acusação de “cárcere privado”, que por essa
eu não esperava, me dirigi no meu melhor
passo, com altivez e dignidade, ao banco dos
réus, e olhei em volta toda sala onde se fez um
denso silêncio. Meus olhos se encontraram com
os de Natália, ali me olhando fixa e
enigmaticamente, e senti um calafrio. A guria
iria reafirmar sua irresponsável e mentirosa
versão perante toda aquela platéia, e ao mundo?
______________________________
Quando eu tinha uns quinze anos, veio passar
férias na nossa estância uma prima minha, lá do
Vale de Itajaí, da parte da família de minha
mãe, Isolda, guria bela e desenvolta, cuja fala
cantada, de belíssimo sotaque açoriano, me
79
encantou de saída. Por sua vez, ela se encantou
comigo, e assim que nos vimos, na sala, ali
diante dos adultos, nos demos as mãos e, saí
com ela correndo, para estarmos a sós no jardim
e no pomar, e até para lá da porteira, na coxilha,
para eu a coroar de flores silvestres, no “ritual
de recepção” de meus eleitos. Eu já estava
disposta a me apaixonar por minha prima,
adolescente como eu, e com a qual faria um
pacto de sangue... menstrual, que, pensava eu,
duraria para sempre. Estou contando isso, para
me lembrar da minha propensão para os
extremos da amizade e do amor, que sempre
caracterizaram meu temperamento apaixonado,
que certamente me levaria na vida a situações
extremas e inusitadas.
Talvez, mais adiante, eu conte o que ocorreu
naquelas férias entre mim e minha prima, o
segundo escândalo de minha vida, depois do
escândalo primordial muitos anos antes, com
meu irmão sob a minha macieira, que tanto me
marcou...
______________________________________
80
No banco dos réus, logo após fazer o
juramento solene de dizer “toda a verdade,
somente a verdade, nada mais que a verdade” O
Juiz perguntou, de praxe:
Alma Morgado Welt, conhecida como Alma
Welt diante das acusações como te declaras,
inocente ou culpada das acusações que lhe estão
sendo feitas neste processo.
Eu respondi:
-Meritíssimo, sinceramente, não sei ainda.
O juiz, meio desconcertado, por incrível que
pareça, resolveu aceitar a minha resposta
inusitada e passou a palavra ao promotor, que
imediatamente começou a me inquirir com
agressividade contida:
-Alma Morgado Welt, pintora, escritora e poeta,
de 35 anos de idade, bastante reconhecida, eu
diria famosa mesmo, esse é o teu nome? E és
casada?
- Sim, me chamo Alma Welt, e assim assino
minhas obras, agora conhecidas também no
exterior. E sou casada.
81
-E a senhora não acrescentou, no plano
jurídico, pelo menos, o sobrenome de seu
marido, o Sr Dario Dalencastro, por quê? Mais
um exercício de liberdade, que a senhora tanto
proclama nos seus escritos, sempre memoriais,
e, convenhamos, despudorados ?
-Protesto! (exclamou meu advogado, Dr.
Loredano) - O promotor extrapolou a sua
pergunta, e fez ilações arbitrárias à conduta
artística de minha cliente.
- Protesto concedido! (replicou o juiz). - Senhor
Promotor, evite julgamentos sobre a conduta
artística da ré, não pertinentes neste julgamento.
- Senhorita Alma (continuou o promotor), irei
direto ao ponto: Onde estava seu marido,
quando a senhora, encontrando a senhorita
Natália, de quinze anos apenas, de mochila, em
plena campanha gaúcha, a levou para sua casa
na estância Santa Gertrudes, sem telefonar
imediatamente para os pais dela, cujo endereço
e telefone constavam no celular da menor?
- Dario, meu marido estava em Porto Alegre, a
negócios, onde permaneceu duas semanas.
(respondi eu)
82
- E a senhora não comunicou a ele por telefone,
ou sequer por e.mail, a presença da menor na
casa de vocês. Não é verdade? Por quê?
- Nnn... não sei (eu quase balbuciei). Talvez
porque me sentisse culpada...
(burburinho na platéia)
- Culpada de quê? Explique-se, senhora Alma.
(o promotor, fechava o cerco com essa pergunta
incriminatória, da qual, ele esperava, se seguiria
uma confissão de culpa que ele exploraria com
contornos escabrosos, certamente.
(Eu demorei para responder, pondo a platéia
em suspense, mas o promotor aproveitou a
brecha e completou, agora num tom enfático e
cruel:
- Não seria porque a senhora, com sua beleza,
dons poéticos e tendência à luxúria lésbica,
seduziu e levou a menor direto para o seu leito
conjugal, vago no momento, que deveria
respeitar, abusando da inocência e da admiração
ingênua de uma adolescente, na idade propensa
à tietagem artística que a fez ir tão longe casa e
da qual a senhora, criminosamente, se
aproveitou?
83
(O burburinho aumentou, e ouviram-se até
alguns gritos ambíguos. O juiz martelou
furiosamente e exclamando: “Silêncio na
platéia ou mando esvaziar a sala! Silêncio!”
- Protesto ! (gritava o Doutor Loredano,)
Antes que eu pudesse responder, o promotor,
com um gesto teatral, completou:
- Não precisa responder. Os fatos falam por si.
Meritíssimo, permita-me conclamar a vítima,
menor de idade, mas que, com o consentimento
dos pais, predispôs-se a depor.
O Juiz disse: - Sim, prossiga!
Natália, mais linda que nunca, mas vestida com
recato, e com um olhar tímido se levantou de
onde estava ao lado dos seus pais, caminhou
sob murmúrios da platéia e sentou de olhos
baixos no banco das testemunhas. Mas logo
ergueu os olhos e encarou a platéia com um
ligeiro ar de desafio, me pareceu.
-Senhorita Natália, a senhorita tem apenas
dezesseis anos de idade, não é mesmo?
84
Natália fez que sim com a cabeça e o promotor
prosseguiu:
– Como consta dos autos, a senhorita declarou
no momento do seu “resgate” por seus pais, na
estância mesma, da ré, local do crime, que
senhorita foi levada ao leito da criminosa onde
foi abusada por uma semana, sem que seus pais
desesperados, soubessem onde se encontrava, e
tiveram que contratar um detetive particular que
habilmente, através de sua página de perfil falso
no facebook e nos próprios livros da acusada,
localizou, permitindo o seu salvamento, o seu
resgate mesmo, pois se tratava de uma espécie
de seqüestro, uma retenção falsamente
consensual, visto que a senhorita é menor de
idade.
(O promotor, na sua ânsia condenatória cercava
maliciosamente as evidências por todos os
lados).
- Protesto! (gritou o meu advogado, Doutor
Loredano) O promotor não fez uma pergunta e
está pondo conclusões na boca de sua
testemunha, antes mesmo dela responder.
85
-Protesto concedido (disse o Juiz), Promotor,
faça perguntas, não pré-julgamentos, nem
induções à depoente.
- Sim, desculpe a minha indignação,
Meritíssimo...(respondeu o promotor e
prosseguiu):
-Senhorita Natália, a Senhora Alma levou a
senhorita para o seu leito no dia mesmo em que
a introduziu na sua casa e vocês dormiram
juntas? Fizeram sexo, de algum modo?
Foi então, que o inusitado começou a se
instalar naquele julgamento.
Natália, surpreendentemente, respondeu:
- “Não, senhor promotor, ela me encontrou na
coxilha, não longe de sua casa para onde eu
caminhava em peregrinação de meu amor, de
minha devoção à mulher e poetisa maravilhosa
que ela é, que cultuei por mais de um ano antes
de ter coragem de ir ao seu encontro. E ela me
conduziu ao seu próprio leito, pois eu estava
exausta de caminhar e de tanta emoção de
encontrá-la. Mas ela não se deitou comigo,
cobriu-me com uma manta, como uma mãe,
fazendo schhhhh com o dedo nos lábios, saiu,
fechou a porta e... adormeci. No dia seguinte,
86
me serviu um excelente café da manhã e me
instalou no quarto de hóspedes que ela equipou
com travesseiros, lençóis e mantas e tudo mais,
carinhosamente, e fomos visitar os locais
sagrados de suas memórias, romances e
poemas... E eu mais a amava, como uma deusa
que ela é para mim. Não, ela nunca se deitou
comigo, para minha única decepção... Eu queria
ser sua amante, sonhei com isso mais de um
ano. Não posso traí-la. Estou profundamente
arrependida da minha bravata, de desafio aos
meus pais, que sei que não poderão
compreender e aceitar meu amor pela Alma”.
Foi um reboliço na platéia! O promotor não
esperava por isso, por uma declaração que
praticamente desmontava quase todo o
processo, ou invalidava, pelo menos em grande
parte, a acusação, sobrando somente o fato da
minha irresponsabilidade em não dar parte
imediata à família e à polícia, do paradeiro da
guria em minha casa. Quanto aos pais de
Natália, a suposta vítima, esses estavam
perplexos, indignados. A mãe de Natália, a
senhora Cíntia, teve até um ligeiro
desfalecimento nos braços do marido.
87
Então, aproveitando a reação da platéia, o
Doutor Loredano, com seu oportunismo
coreográfico, se posso dizer assim, me chamou
como testemunha de minha própria defesa,
coisa perigosa, mas que por ter dado certo no
meu julgamento anterior, arriscou.
E eu haveria de pasmar ainda mais, a todos,
com o que eu decidira fazer, por minha vez,
para não trair minha própria alma.
-Alma –inquiriu o doutor Loredano - Como te
declaras diante de tudo isso, sim, do testemunho
de tua inocência, vindo da própria suposta
vítima, de um crime que, na verdade, nunca
ocorreu? Que tens a dizer para encerrarmos esse
bizarro enredo e mal entendido, provocados
pelo amor de uma jovem por seu ídolo, reflexo
de sua própria feminilidade imatura, refletida
nos encantos da Arte literária de uma grande
escritora e poeta a caminho de uma consagração
mundial?
Eu fiz uns segundos de silêncio antes de
responder:
- EU ME DECLARO CULPADA!
88
O Tribunal, a platéia, tudo pareceu vir abaixo.
Uma perplexidade geral que se transformou
rapidamente em tumulto, tomou aquela sala.
______________________________________
Como já me referi àquele episódio dos meus
próprios quinze anos com minha prima
catarinense, da mesma idade, e nosso pacto
menstrual de “irmãs de sangue”, devo
esclarecer do que se tratava esse pacto
adolescente que inventei a partir da minha
menarca, que tanto me impressionou. Naquelas
férias, eu convenci minha linda prima, a
“açorianinha” como afetuosamente a chamaria
anos mais tarde, a realizar um pacto, não como
o faziam certas pessoas extremadas, com um
corte nas mãos que depois se apertavam
trocando sangue numa promessa de amizade e
fidelidade eternas, mas entre duas gurias com o
sangue das suas menstruações, quando
providencialmente reveladas em relativa
sincronia, com as mãos passadas nas pequenas
vaginas virginais e depois juntadas, num aperto
de mão e um toque de dedo de sangue trocado,
nos lábios e na testa de cada uma,
acompanhados de um juramento solene, quase
macabro: “Com esse sangue de nossas
89
entranhas, firmamos o pacto de nossa aliança
fraternal eterna. E que a maldição do sangue
recaia sobre aquela que primeiro trair este pacto
sagrado.”
Agora, lembrando-me daquele episódio da
minha adolescência, não tive mais vontade de
rir, mas de chorar, no meio das circunstâncias
dramáticas a que meu temperamento mítico e
romântico acabara me conduzindo na vida.
Devo também dizer que minha priminha
açoriana não tardou a se rebelar e a reagir,
tardiamente, com asco, àquele ritual inventado
por mim, e nunca mais quis encontrar-me de
novo e passar férias na estância da “bela
alemãzinha ruiva e porca”.
Então ali, naquele Tribunal, diante da minha
espantosa confissão de culpa, todos esperavam
uma explicação, já que contradizia a confissão
de perjúrio inicial da falsa e suposta vítima.
E eu me expliquei, comovidamente, em
lágrimas:
Meritíssimo, senhores advogados, senhoras e
senhores presentes... sim, sou culpada porque
90
me apaixonei por Natália, por sua beleza e
aparente candura, e intimamente a desejei, sim
desejei estar com ela no meu leito, mas não o
fiz, mais por covardia do que por escrúpulo. Eu
não a toquei, mas desejei ter tocado, e fantasiei
intimamente, em devaneios secretos, uma
relação íntima e apaixonada. Sou culpada
porque sabia que deveria ter telefonado
imediatamente para seus pais sobre meu
acolhimento, que se tornou suspeito passada a
primeira hora. Sim, sou culpada porque a amei,
não maternalmente como fiz transparecer, mas
mais apaixonadamente como um reencontro da
minha própria adolescência carente de amor
materno, embora me sobrasse, de sobejo, o
amor de meu Vati. Sim, sim, sou culpada de
amar, como sempre, desmedidamente, e mais
que tudo, de me fazer amar por alguns seres de
minha eleição anímica, sem medir as
conseqüências de meu desastrado poder de
sedução, involuntário no mais das vezes, quase
como uma maldição... Deus me perdoe!
Caí em lágrimas verdadeiras, tão copiosamente
que muitas pessoas naquele recinto, naquela
platéia... também caíram em lágrimas. Eu
chorava, não de auto-piedade, juro, mas de
comoção verdadeira, legítima, comigo mesma e
91
meu Destino excepcional, de artista, de poeta
amorosa e de mulher eternamente carente,
insaciável de amor para dar e receber, e de
beleza, sim da Beleza que, entretanto, nunca me
faltara...
Natália soluçava, eu percebi, de repente... a
mãe, Dona Cíntia chorava, e o pai dela (nunca
lembro o nome) cujo olhos também marejavam.
E o Promotor, que me olhava desolado, se
sentindo derrotado, talvez pela primeira vez na
sua vida. E que, por honra do ofício,
arrematou:
-Senhoras e senhores jurados, diante dessas
novas revelações, peço que esqueçam a
acusação mais grave, agora desqualificada, e
concentrem-se então na irretorquível
responsabilidade de acolhimento ilegal de
menor fugitiva e da ausência deliberada de
comunicação aos pais ou à polícia, que a ré,
como adulta não poderia deixar de fazer,
deixando os pais, parentes e uma comunidade
inteira em desespero por dias, pensando no pior
Aconselho que sejam severos com tão grave
falta, e prejuízos emocionais de tantos cidadãos.
92
O juiz encerrou os debates e fez um intervalo
para esperar o veredicto do Juri, quando todos
deixaram a sala e se reuniram no saguão em
animado debate, segundo eu soube, alguns
ainda enxugando os olhos e suspirando e
balançando a mão.
Quanto a mim, me sentia esvaziada, mas
começando a pensar como a minha vida estava
destruída por um erro, uma infantilidade
cometida por mim, e a imaginar se poderia
viver numa prisão mais de uma noite, como a
que eu tinha vivido antes do meu primeiro
julgamento, anos atrás.
Quando a campainha soou, voltaram todo à
sala de julgamento onde eu já me encontrava ao
lado do dr Loredano, Lucia e Dario, esperando,
dignamente, o veredicto e a sentença que me
caberia.
-Silêncio no Tribunal! Conclamou alto o Juiz,
e enquanto os jurados entravam e sentavam-se,
perguntou:
- O corpo de jurados chegou a um veredicto?
O líder entregou ao oficial o bilhete dobrado
em quatro, que o entregou ao Juiz. Este abriu,
93
olhou rapidamente e fez o indefectível suspense
de alguns intermináveis segundos, e disse:
- A ré levante-se para ouvir o veredicto... Alma
Welt, a senhora foi declarada... INOCENTE!
Foi uma explosão de abraços e risos,
exclamações e suspiros de alívio no tribunal,
mas o juiz martelava pedindo silêncio. Quando
conseguiu, declarou:
-Entretanto, atenção: o júri recomenda uma
pena de trabalhos comunitários de noventa dias
e uma multa, que estipulo, devido à condição
abastada da ré, em um milhão de reais, indo
metade aos pais da menor e a outra metade
destinada a uma instituição de caridade, à
escolha, aqui da nossa Rosário do Sul. O
julgamento está encerrado e não cabe recurso
devido às grandes atenuantes dispensadas à ré,
absolvida da mais grave acusação. Vão todos
para casa e que Deus os acompanhe,
E deu uma última pequena martelada.
______________________
94
CAPÍTULO QUINTO
A Reação de Dario
Após o desfecho inusitado do meu julgamento,
Dario, meu marido ideal, ficou muito silencioso
e temi que algo tivesse quebrado dentro dele.
Preocupada com o perigo de perdê-lo,
questionei-o, mas ele me abraçou
carinhosamente, dizendo:
- “Não, Alma, não estou decepcionado contigo.
Creio que te compreendo bem, e foste coerente
com o teu coração, como sempre. Eu, é que
estive, e estou ainda com medo de estar te
perdendo, pois fizeste uma declaração de amor
tão profunda por uma adolescente
desconhecida, que me perturbou e demorei a
perceber que era, na verdade dirigida a um
reflexo de tua própria adolescência tardia, de
que estás te despedindo. Estás te tornando uma
mulher adulta, mas ainda inconformada com
isso, e em conflito. Cometeste um erro grave,
que fez muita gente sofrer, quiseste pagar por
esse erro, e mais uma vez foste perdoada. Mas a
mulher que surgir disso tudo, ainda me amará?
95
Porque a Alma que conquistei era ainda aquela
do balanço no pomar, que não coube ao meu
pobre irmão, que adorava impulsioná-la no ar,
porque dizia que era um anjo..”.
Ouvindo isso, aninhei-me em lágrimas no peito
de meu marido, e agradeci a Deus por não tê-lo
perdido com meus desvarios, com minha
loucura mansa, com meu tresloucado coração.
Não me deterei sobre os noventa dias de
trabalho comunitário nos arredores de Rosário
do Sul, que tirei de letra, e o pagamento da
multa que foi paga generosamente por Rodo,
que para isso vendeu sua Ferrari, piscando um
olho para mim, me abraçando carinhosamente,
e dizendo que queria mesmo trocá-la por uma
Lamborghini que cobiçava há muito tempo.
Surpreendi-me com a dinheirama que meu
amado irmãozinho parecia continuar ganhando
com o jogo, e murmurei como a velha mãe de
Napoleão quando, lá na sua casinha modesta na
Córcega lhe deram a notícia de que seu filho
tinha sido coroado imperador da França, disse
somente: “Contanto que isso dure...”
96
Depois disso eu resolvi sossegar meu coração e
concentrar-me nos trabalhos da vinha, e na
qualidade do nosso vinho para que mantivesse a
qualidade da safra herdada do nosso avô, a do
Ara dos Pampas, cuja fortuna resultante estava
se acabando. Resolvi dar um filho nosso mesmo
para o meu Dario que queria isso desde sempre,
e para isso, depois do sexo eu ficava de cabeça
para baixo e bumbum para cima para ajudar seu
esperma a descer, e não subir, o que ele achava
“engraçadinho”, e dava uma palmadinha nas
minhas brancas nádegas que ele amava mais
que tudo.
Finalmente, depois de um mês, a minha
gravidez se confirmou e tomei minha última
taça de vinho, compenetrada com a saúde do
bebê. A felicidade voltava a reinar na casa dos
Welt, e Aline, que voltou de São Paulo com
Marco, festejou generosamente minha barriga
crescente, aparentemente sem ciúme... minha
amada esposinha, mãe de meu primeiro filho, o
pequeno Marco, cada dia mais lindo e feliz.
Ah! Mas, parafraseando Camões nos Luzíadas:
“Estavas, linda Alma, posta em sossego/ De
teus anos colhendo doce fruto/ Naquele engano
de alma, ledo e cego/ Que a Fortuna não deixa
durar muito/ Nos saudosos campos do seu
97
Pampa/ De teus formosos olhos nunca enxuto/
Aos campos ensinando e às coxilhas/ O nome
que no peito escrito tinhas...”
Mesmo em começo de gravidez eu continuava
com meu habito de banhar-me nua no meu
“poço da cascata”, desde guria, com meu Rodo
ou sozinha. Dario estava novamente em Porto
Alegre a negócios e eu naquele dia fatídico
estava me despindo na praiazinha de cascalhos
quando já nua, ouvi uma risada grosseira e senti
uma sombra atrás de mim. Fui agarrada por
mãos poderosas e ásperas que me dominaram
por mais que eu me debatesse e lutasse, fui
colocada de bruços e no solo e penetrada por
trás em minha vagina, com violência, sem que
sequer eu pudesse ver meu agressor que me
mantinha no chão com a munheca em minha
nuca. Resfolegando e dizendo obscenidades
estuprou-me longamente até meu sangue
escorrer. Então passou uma corda pelo meu
pescoço e enforcou-me atirando meu copo nu
com a ponta do laço amarrada a uma grande
pedra, no centro do poço onde água era mais
funda. Foi assim que fui morta e achada
submersa, horas depois por meus amados Rodo
e Galdério.
98
Transcrevo aqui a carta que Lucia escreveu e
enviou ao nosso amigo Guilherme de Faria, que
me apadrinhara como escritora em São Paulo,
durante meu auto-exílio paulistano por conta da
morte de meu Vati:
“Guilherme
A tragédia abateu-se sobre a nossa casa. Alma
está morta. Minha pobre irmã matou-se por
volta do meio dia de hoje. Esperaram-na para o
almoço, e como ela não chegava de suas
andanças todos começaram a ficar inquietos,
pois ela andava esquisita, novamente, nos
últimos dias. Rodo, a doutora Jensen, e Matilde,
saíram para procurá-la e percorreram os lugares
preferidos dela, o quiosque do jardim, o pomar,
o bosque, e até a pradaria em torno da casa.
Afinal foram até a cascata. Ali, encontraram o
seu vestido branco, sobre a alta margem de
pedra do poço, ou piscina da cascata. Ali, pode-
se ver de cima a superfície cristalina da piscina
natural formada pelas águas que caem na
cabeceira do poço, único ponto mais
tumultuado. Rodo num ponto mais alto avistou
o corpo nu muito branco, de minha irmã, a
poucos metros do fundo. E mergulhando retirou
uma corda que a prendia a uma pesada pedra,
99
pelo pescoço, para que não subisse. Ele a
retirou das águas, gritando, gritando seu nome,
em desespero. Ele a colocou na margem e
tentou fazer uma respiração boca a boca, mas
que era mais um beijo trágico, pois ele
desmaiou de dor sobre ela. Ao voltar a si,
estava como louco, e está assim até agora, num
tal sofrimento, que tememos pela sua vida.
Galdério, quase catatônico, de maneira
automática e instintiva, paternalmente como
costumava fazer quando Alma era pequena ao
tirá-la adormecida de sua charrete, pegou seu
corpo como estava e veio com ela nua nos seus
braços andando pela pradaria em direção ao
casarão enquanto a noticia corria, até entrar no
salão e depositá-la sobre a grande mesa de
jantar. Tudo isso me foi contado por Matilde ao
telefone, em meio a um choro convulsivo.
Deixei as crianças aos cuidados de Alícia, sem
contar a elas o que e estava acontecendo, peguei
o carro e dirigi em disparada até a estância.
Aqui encontrei minha irmã posta ainda nua
sobre a grande mesa da sala. Seu corpo tão
branco estava mais lívido ainda, o que fazia
com que se parecesse com uma estátua do mais
puro mármore de Carrara, tal a beleza que ainda
conservava. Tinha somente uma marca circular,
100
avermelhada, ao redor do seu longo pescoço de
bailarina. As pessoas da estância, até os peões e
suas mulheres já tinham invadido a sala e
velavam com enorme reverência seu corpo nu
deslumbrante. Nem mesmo a doutora Jensen,
arrasada, pediu que a vestissem. Era como se
todos sentíssemos que sua nudez era sagrada.
Foi então que Matilde suspendeu tal desvario,
irrompendo na sala com uma grande toalha de
mesa de renda branca na mão, gritando:
“Afastem-se da minha guria, seus ímpios!
Afastem-se todos, cubram a minha guria!” E
lançou a toalha sobre seu branco corpo,
amortalhando-a. Começaram então as velas
acesas, as novenas e o pranto coletivo. Agora o
corpo de minha irmãzinha será levado até
Santana do Livramento onde será cremado,
como ela queria, para que suas cinzas sejam
trazidas de volta e espalhadas ao vento, pelos
locais da estância que ela mais amava: as flores
do jardim, o pomar, o bosque, a campina ao
redor do casarão e o vinhedo. Seu amado
pampa será sua morada para sempre. Nossa
estância, nossa terra, nunca mais será a mesma.
Não sei sequer se sobreviveremos à perda de
nossa Alma amada, que era tão bela por dentro
quanto por fora. Jamais haverá alguém como
101
ela. Sentimo-nos perdidos, Guilherme, nosso
amigo, que a descobriu e amou aí em São
Paulo, e que tudo fez para que tivesse um livro
seu publicado, e que tanto parece conhecer a
alma e o coração precioso de minha irmã. O que
mais temo agora é a reação de meus filhos e
sobrinhos quando souberem do acontecido. Ai!
Não sei o que será deles, que a amam tanto!
Reze por nós, meu amigo, pois esta família
precisa de orações, pois lágrimas já temos
demais!
Lucia”
A seguir três dias depois Lucia enviou esta
nova mensagem para o nosso amigo em São
Paulo
Guilherme
Fiquei estarrecida quando encontrei este soneto.
E tive que chorar novamente. Ele evidencia
como Alma sabia de sua morte próxima, no dia
20/01/2007, e das circunstâncias de seu velório
sobre a mesa de nossa sala, com a vela acesa e
os convivas, os trinta e cinco anos fecundos de
sua vida.
102
Envio a ti o soneto de premonição, datado do
dia 03/01/2007, sobre o inaudito e espantoso
velório nu da Alma. (Lucia Welt)
Visão (de Alma Welt)
Ser a musa eternizada do meu pampa!
Cantar, celebrar e endoidecer
De tanto amar até saltar a tampa
Do coração e da mente, e então morrer!
Nua, estranhamente, sobre a mesa
Estendida me vejo, uma manhã:
Um desfile silencioso me corteja
De peões, peonas e algum fã.
Mas olho o meu corpo de alabastro,
Absurdo e belo ali, e não à toa
Eu noto algo nele que destoa:
Sobre a alvura do pescoço bailarino
Uma faixa vermelha como um rastro
Da corda que selou o meu destino...
03/01/2007
103
__________________________________
Então me vi em seguida neste universo
paralelo, se posso dizer assim, onde me lembro
de tudo e onde retomei a minha vida no ponto
em que estava. Apenas não espalharam
completamente minhas cinzas, não sei porquê, e
colocaram metade delas numa urna enterrada na
Colina dos Mortos, o cemitério da nossa
família, que mandou fundir uma placa de
bronze com meu nome e as duas datas em
relevo, 1972-2007, muito gastas, não se sabe
por quê, um túmulo que se encontra agora
muito abandonado, pois meus amados
continuam convivendo comigo nesta dimensão,
como se nada tivesse acontecido. Na verdade,
não consigo explicar muito bem o que
aconteceu, mas coloco aqui a fotografia real do
meu túmulo, que salvei um dia ao descobri-lo e
que agora nem eu mesma consigo encontrar de
novo para cuidar, limpar o mato, as ervas
daninhas e deixar minhas flores silvestres
prediletas. Eis aqui a foto do meu túmulo,
estranhamente maltratado, para quem foi tão
amada como eu ainda sou:
104
105
CAPÍTULO SEXTO
Este corpo que habito
Após nove meses, dei a luz a minha filha com
Dario, e meu parto foi meio selvagem, mas
belo, pois foi natural, em plena coxilha
pampiana, como eu mesma nasci na relva de
um acostamento de estrada como já contei
algumas vezes. Eu estava sozinha, e pari sem
ajuda, sem muito esforço e em seguida
carreguei meu bebê junto ao seio por uma
centena de metros, após ter cortado o cordão
umbilical com os dentes, deixando minha
placenta sendo devorada por um lobo-guará
faminto, meu conhecido, que eu visitava há
anos para alimentar. Cheguei à cozinha do
casarão tão coberta de sangue, inclusive na
boca, que a Matilde começou a gritar de susto
chamando todo mundo, o que resultou num
escândalo, pois me tiraram minha bebê por
instantes, enquanto eu gritava por ela
estendendo os braços, desesperada, e me
fizeram deitar sem que eu precisasse, me
examinando inteira, à força, inclusive minha
vagina muito aberta. Fiquei furiosa por dois
106
dias com a Matilde e com a Lucia que
estragaram a beleza selvagem do meu parto, e
assustaram muito minha querida Patrícia,
adolescente, que, traumatizada com a cena,
chegou a dizer que jamais teria um bebê se o
parto era uma coisa assim...
A verdade é que desmaiei depois disso,
deixando todos mais preocupados ainda, mas
acordei com a minha bebê, a que dei o nome
Zoe, e logo o povo diria Zoé, sugando meu seio
farto, cheio de leite, o que me enterneceu, e me
deslumbrou, como um “satori” do zen samurai,
que me fez entender numa fração de segundo,
tudo do mundo e da vida ao mesmo tempo, ou
como o “alef” do Borges, de minha memória
livresca.
Estava tudo certo. Depois de tantas paixões, que
agora me pareciam provisórias, eu me sentia
completa como mulher, e pronta para defender
minha cria como uma leoa, se fosse preciso.
Rodo, impressionado, me disse que eu jamais
parecera tão linda quanto naquele primeiro ano
de minha maternidade, apesar de ter engordado
uns quilos e estar com os seios fartos e não
pequenos e virginais como pareciam antes,
quando eu “dava mais que chuchu na cerca”
como dizia picarescamente, “no popular”.
107
Assim transcorreram dois anos no meu
universo paralelo em que sobrevivi, e continuei
escrevendo sobre a minha vida, que me pareceu
sempre a mais interessante de todas as vidas,
pois eu me sentia “todas as mulheres do
mundo”, porque sobrevivera a muitos atentados
ao meu sexo, e até à minha morte por
assassinato, após mais um brutal estupro.
___________________________________
Agora, podíamos, eu acreditava, viver um
“novo tempo de vinhos e de rosas”, todos
pacificados, acalmados nas suas paixões e
rivalidades, até mesmo minha cunhada Quitéria,
que eu chegara a acreditar ser uma “vampira”,
pois na sua paradoxal paixão por mim bebera o
meu sangue menstrual, no episódio que contei,
sem pudores, no meu romance memorial
anterior, publicado, A Ara dos Pampas.
Zoé brincava com o seu irmãozinho maior, o
Marco, no gramado do jardim, lindinha, com
seus cachos loiros e olhos verdes, enquanto
Marco com seus lindos cabelos negros e olhos
azuis, de sua mãe, fingia fugir dela em giros
graciosos. Eu os mirava, felizes, e pensava:
“como é belo o ser humano”... Juro que pensava
108
isso, malgrado os percalços e brutalidades por
que passara.
Mas eis que, nesse momento singelo e pacífico,
uma ave voou com estrépito de asas, assustada,
e estremeci. Coloquei a mão em aba sobre os
olhos e avistei um cavaleiro que se aproximava
a passo, mas não um peão gaúcho de
bombachas, mas um citadino, de terno e
gravata, insólito assim montado, eu diria
deslocado mesmo, que de óculos e sem chapéu
tocou dois dedos na testa em cumprimento à
minha pessoa que, me ergui, rodeada das
crianças que pararam com suas brincadeiras e
curiosas e inseguras, seguravam minha saia.
- Buenas!- disse o cavaleiro, à moda gaúcha,
nas sem o nosso sotaque e inflexão, o que soou
artificial. Via-se que não era um “gáutcho”, mas
um forasteiro, logo identifiquei um paulista, um
paulistano de sotaque ligeiramente italianado,
que após meu gesto imitativo irônico, de dois
dedos na testa disse:
-Você é Alma, não?
_ Sim, “por supuesto” (brinquei), e tu, quem és?
109
-Sou Rogério, advogado, primo da Aline, e vim
a mando da minha tia Maria, para ver como se
encontra minha prima, que afirma por carta à
sua mãe estar casada e esperando mais um filho
de seu marido. Dona Maria me pediu que viesse
vê-la e ao seu marido, sem preveni-los, me
desculpe...
Você poderia me levar até à minha prima, para
eu poder cumprir esta missão de apaziguamento
das preocupações legítimas de uma mãe em
relação à sua filha e aos seus netos?
Fiquei imediatamente um tanto perturbada,
percebendo que Aline não contara a verdade
para sua mãe, por ser impossível explicar para
uma senhora italiana tão conservadora e
católica, o seu suposto casamento com uma
mulher (que era eu) e suas produções
independentes, providenciadas com o meu
irmão, por mais belos que essas crianças
nasciam e eram felizes naquele nosso paraíso
estranho, e ao seu ver, totalmente à margem das
regras sociais rígidas em que ela baseava a sua
visão de mundo.
Além disso, eu tomava consciência naquele
momento que Aline devia ter mentido em parte
110
à sua mãe, na sua última visita a ela em São
Paulo, para pacificá-la, que agora estava casada
com o verdadeiro pai de seu filho, Rudolf Welt,
o Rodo, homem rico, meu irmão, do qual estava
esperando um novo filho.
Eu percebi que tinha que aliciar aquele homem
jovem, para que sustentasse as nossas meias
verdades, embora podendo não ser fácil, pois
embora jovem e primo de Aline, ele estava ali
como advogado constituído, certamente à
procura de provas, como uma certidão de
casamento em cartório, e a de filiação do nosso
Marco.
Conduzi-o, a passo, andando na frente com as
crianças, ele desmontado, por cortesia, puxando
sua montaria pela rédea, até o casarão onde ele
se encontraria com sua prima, mas não com seu
suposto marido, o Rodo, que estava na Europa
na sua ronda dos cassinos, como sempre, e sua
profissão, afinal...
Aline não esperava esse primo, e o encontro foi
festivo pela surpresa e antiga amizade de
infância, e eu estava curiosa do que adviria de
tudo aquilo. Eu não tinha motivos para estar
preocupada, porque Dona Maria não me
parecia ser uma senhora rica, e portanto não
representava perigo caso se sentisse enganada.
111
Mas eu achava que poderíamos contornar a
situação dizendo simplesmente a verdade à
dona Maria, mesmo que lhe doesse, sim, porque
estávamos no século XXI e nada da situação ali
representava um crime. Resumindo: hoje em
dia, as crianças são sempre todas legítimas, e, a
meu ver, sagradas. E ninguém, no nosso
Ocidente pode ser obrigado a casar.
Rogerio e Aline se abraçaram e rodopiaram em
festa, rindo, como amigos íntimos que não se
viam há anos. Instada por Aline, ele chegou a
botar a mão na barriga dela, para sentir o novo
bebê. Tudo levava a crer que seria fácil,
contornar a situação com a mãe de Aline.
Ah! Mas logo saberíamos que a italiana tinha
um trunfo, um elemento de pressão, para exigir
provas de casamento legítimo de sua filha.
Além do grande sobrado do Bom Retiro, em
São Paulo, havia uma grande herdade de família
na Itália, na Toscana, com um vinhedo, cuja
proprietária, sua irmã, viúva, acabara de morrer
e o único filho também tinha morrido muitos
anos antes, sendo a dona Maria a herdeira, que
prometia passar essa herança para sua filha
única dependendo da legitimidade legal de seu
casamento com “esse tal senhor Rudolf Welt”,
o alegado pai de seus netos.
112
Informados disso pelo visitante, após a
recepção calorosa de sua prima, sentados todos
numa roda de chimarrão, eu me senti aliviada, e
até divertida com a situação inusitada, pois me
parecia auspiciosa, dependendo somente da
anuência de Rodo, que era um homem prático e
perceberia imediatamente a inesperada virada
de destino que um casamento assim
representaria para um aventureiro como ele.
Naquela noite depois de muitas conversas e
muito vinho, eu, recolhida ao meu quarto me
senti inspirada pelas perspectivas afortunadas
do dia, e escrevi este soneto:
Fortuna Imperatrix Mundi (de Alma Welt)
Atirados neste mundo de perigos
Todos temos nossa nau em tempestade
E enfrentamos os deuses da Vontade
E até os nossos Eus quando inimigos.
De quê, ó Alma, assim, falas sem peias?
Teremos o destino que escolhermos
E procelas são os nossos próprios termos,
Como também a calmaria das sereias.
Mas estamos a falar da mesma cousa
E as escolhas não mudam portulanos
Somente a rota do nosso giz na lousa..
"A Sorte é a Imperatriz do Mundo"
Era como formulavam os romanos,
E jamais disseram algo mais profundo...
113
Quanto à Aline, essa ficou pensativa o resto da
noite, e não quis fazer sexo comigo, coisa rara,
na verdade, como se compenetrando de sua
futura condição de casada, eu depreendi...
Afinal, quem não se deixaria comprar por um
vinhedo na Toscana?
Sinceramente, a essa altura, tudo me divertia,
afinal, mesmo me confessando culpada eu já
escapara duas vezes da prisão, e tendo morrido
continuava viva nesta dimensão paralela que me
foi oferecida, talvez pela minha arquetípica
condição de Artista... sim, provavelmente, ou
simplesmente de mulher que por alguma razão,
resumia, em mim, todas as mulheres em sua
vulnerabilidade invencível através dos séculos.
Sim, provavelmente, por isso...
Dando um salto nesta narrativa, para resumir:
dentro de um mês estávamos, Aline, Marco, eu
e Zoé ainda de colo, com os nossos passaportes
e nossas duplas cidadanias, eu, alemã e Aline,
italiana, voando para a Europa para um
encontro combinado com o Rodo. Ele e Aline
se casaram em Mônaco, num cartório, comigo e
114
um desconhecido como testemunhas e entre
uma mão e outra de pôquer, por assim dizer.
Devo esclarecer que meu irmão aceitou a
proposta de Aline por várias razões, ou ainda
pelo útil e agradável que ela era. E ele já
fantasiava se tornar, finalmente, um vinhateiro,
já que a paisagem maravilhosa da Toscana,
perto de suas rotas de carteado na Europa, o
convenceram de saída. Não teve festa nem
convidados, mas naturalmente eles cobraram,
um ao outro, a noite de núpcias, uma lua de mel
rápida, no hotel enquanto o nosso Marco
dormia inocentemente e feliz, ao lado da sua
irmãzinha Zoé, no meu quarto, ao lado do deles.
Bem que eu ouvi por boa parte da noite os
suspiros apaixonados de Aline, e uns urros
lúbricos de Rodo, ambos unindo o útil ao
agradável.
No dia seguinte, depois do café da manhã,
fizemos o checkout, e no carro alugado por
Rodo, já que o seu Lamborghini não
comportava os quatro, pegamos alegremente a
estrada para Firenze.
Não farei disso um relato turístico nem me
deterei na descrição das maravilhas de
Florença, da qual não sairíamos sem visitar por
115
muitas horas o museu dos Ufizzi e seus
Boticcelli, e rodear por muito tempo, na praça,
o Davi de Michelangelo.
Quando afinal, retomada a estrada, depois de
muitas horas e alguns percalços, encontramos a
herdade e seu vinhedo, nos entreolhamos
deslumbrados, a paisagem, a região toda, a
Vila, casarão toscano típico entre os pinheiros,
o vinhedo circundando uma colina, tudo era tão
antigo e maravilhoso, que tive por um momento
uma sensação de irrealidade, como se estivesse
num sonho mas soubesse disso. Seríamos
felizes com aquilo? Recebidos por uma fiel
caseira e velhos empregados já prevenidos da
nossa chegada, Aline e Rodo olhavam tudo e
davam gargalhadas, felizes, se abraçando em
rodopios. De repente, enxerguei: eles tinham
sido seduzidos, sim, comprados! Tomei súbita e
tardia consciência de que iria perder Aline e até
o meu fugidio e amado irmão, que talvez não os
veria mais, já que eu teria que voltar para o meu
próprio vinhedo e minha estância no Pampa,
para o meu próprio, e agora desfalcado destino.
Tudo começou a girar e... desfaleci no átrio do
casarão toscano.
116
CAPÍTULO SÉTIMO
A Festa da Vindima
Na estância, no meu Pampa, na minha amada
Santa Gertrudes, um mês depois eu me
preparava para a Festa da Vindima, pois meu
Dario, o marido ideal, durante a minha ausência
cuidara muito bem de nossa herdade, da
colheita e da fabricação do vinho de nossa nova
safra, que parecia de grande qualidade. Eu me
resumia a cuidar da nossa Zoé, que agora
parecia amar mais o pai do que a mim, já que
uma pequena nuvem de solidão parecia pairar
sobre minha cabeça, e ela, como criança
sensível, a captava. Longe iam os dias da
minha Aline, nua e linda posando para mim no
ateliê paulistano, nos Jardins, cujas imagens
começaram a voltar. E depois, o seu
depoimento sucinto e cabal: “EU SOU O SEU
AMOR”, no meu julgamento, palavras que me
levaram às nuvens quando eu já me sentia
perdida.
Me sentindo assim, eu não queria que Zoé
puxasse a mim, tão dependente de amor de
outros, tão insuficiente que eu era, na verdade,
117
somente por não ter me sentido amada pela
Açoriana, minha mãe, conquanto amada de
sobra por meu pai (o Vati) e meu irmão... e por
Lucia, agora eu reconhecia. E Matilde! E
Galdério! – “O que te faltou! Ingrata!”- Eu me
gritava interiormente...
Então veio a Festa da Vindima, de cujos
preparativos pouco me ocupei. Entretanto devo
reconhecer que a festa seria brilhante, mesmo
sem mim, que fui coroada de folhas de parreira,
sem merecer, talvez por tradição, eu sentia, que,
ao contrário, quase estraguei a festa, pois no
momento de pisotear com os pés descalços as
uvas no grande lagar, junto com outras
mulheres jovens, as “prendas” colhedoras de
uvas da estância, eu comecei, como elas,
devagar, mas fui me tomando de tal fúria,
pateando como uma bacante possessa, fazendo
espirrar o sumo nos circundantes assustados,
fazendo com que Dario me tirasse do lagar
quase desfalecida e me colocando como um
fardo debruçado no seu ombro com uma
gargalhada de disfarce salvadora da situação,
como se fosse algo picaresco e combinado. E
seguiu comigo para casa, no ombro, abraçando-
me as coxas, eu de cabeça para baixo, seguidos
de risos e saudações, algumas batendo palmas,
118
como se de um ponto alto da festa, e não
vergonhoso... Meu incrível marido ideal salvara
mais uma vez a minha honra, da mulher fora de
controle que eu estava me tornando por pura
solidão.
Depois disso, fiquei de cama por uma semana
com uma depressão de pura vergonha, se é que
isso existe. Mas Dario, sempre carinhoso, me
levantou mais uma vez, e eu tinha que admitir
que eu tivera muita sorte com meu casamento e
devia isso à minha estranha cunhada, a Quitéria,
a quem eu tinha atribuído alguns papéis
contraditórios, como: a zelosa irmã do meu
marido apaixonado, a inimiga, a amante
obsessiva, a absurda vampira do meu sangue
menstrual e agora uma querida e divertida tia da
minha Zoé, que parecia adorá-la. Eu estava
convencida de que eu estava destinada, pelo
significado arquetípico do meu nome, a viver
todas as dimensões da experiência feminina do
Ser. E resolvi distender o coração e voltar a ser
digna do amor dos que ainda me cercavam,
principalmente Dario e Zoé, mas também meus
fieis Matilde e Galdério, embora abandonada
conforme julgava, por minha Aline, por Rodo e
nosso amado menininho Marco, por quem Zoé
amiúde perguntava.
119
Mas, logo chegariam as férias e meus
sobrinhos, minhas adoradas crianças, agora
adolescentes estariam aqui e meu coração,
precocemente envelhecido, rejuvenesceria.
Quando as crianças chegaram todas na enorme
Van da Lucia, os três meninos me cercaram em
grande algazarra me abraçando, um a um,
somente Patricia, agora uma jovem
esplendorosa, se aproximou lentamente, com
uma dignidade comovida, com lágrimas nos
olhos e me abraçou longamente, eu igualmente
em lágrimas. Minha guria predileta mantinha
ainda a doçura que me encantava. E disse:
- Tia Alma, não sabes como tem sido difícil
ficar quase o ano todo longe de ti. Eu peço
todos dias para a tia Lucia me deixar vir morar
aqui contigo, para te ajudar com os trabalhos
da Vinha, e tudo, mas... ela não deixa. Diz que
tenho que estudar... para ser alguém como tu
mesma, tia. É verdade que estudaste muito, para
ser Poeta?
Eu passei a mão no seu rosto, olhei fundo nos
seus olhos de gazela, que me comoviam e
respondi:
120
-Sim, Patricia, quer dizer... li muito, só isso.
Devorei metade da biblioteca do Vati e isso foi
para mim... estudar. Temos que estudar a
humanidade para ser poetas, mas sobretudo
observar muito, todas as pessoas, e coisas
também. Mas tem um segredo: só funciona se
ninguém nos mandar fazer isso, tem que ser
espontâneo. A espontaneidade, filha da
Liberdade, é a chave da Poesia.
Imediatamente entendi, ao responder assim,
porque Lucia queria afastar as crianças de mim
a maior parte do ano e me relegar só às férias.
Ela queria que as crianças estudassem, e eu só
as entretinha e divertia com estórias e
aventuras, e por isso era fácil me amarem...
Logo ela se preocuparia com Zoé também, que
eu enchesse a cabecinha dela de histórias e
“mitologias”.
Mas, nada disso, na verdade, me preocupava,
porque tinha aprendido com a convivência com
o Vati, um grande músico, embora de formação
científica, um artista, para quem o que era
essencial era somente amar. Eu estava feliz
novamente, rodeada de amor, e cheia de amor
para dar, no melhor sentido.
121
Eu rejuvenescia a olhos vistos e logo parecia
fisicamente uma guria de vinte anos conforme,
espantados, todos me diziam. E eu notava certo
espanto nos olhos dos peões e trabalhadoras da
vinha, que olhavam com admiração e
cochichavam quando eu passava. Eu mesma me
espantei, um dia, quando olhei no espelho e me
vi como uma Dorian Grey às avessas, e tive
receio da minha beleza, que estava, de algum
modo, novamente assustando as pessoas.
Lembrei das palavras do meu pobre inimigo, o
velho Alípio Galdiano, no meu primeiro
julgamento, poucos anos atrás... Por um
momento tive medo de começar a criar novos
inimigos como os que me moveram até uma
guerra verdadeira, como o sabem os que leram
os primeiro e segundo romances da trilogia A
Herança: O Sangue da Terra e A Vinha de
Dioniso.
E isso, realmente, iria acontecer, infelizmente...
________________________________
122
CAPÍTULO OITAVO
Depois da Festa
Patricia me disse, embora com doçura, não
perdoar sua tia por tê-la feito perder a Festa da
Vindima deste ano. Mas eu agradecia,
intimamente à Lucia, por ter poupado minha
guria e as outras crianças da vergonha de verem
sua tia predileta se comportando como se
estivesse bêbada ou louca. E eu comentei que
era uma pena mesma, pois tinha sido uma festa
esplêndida apesar da falta que ela fez porque
certamente seria coroada a princesa da festa,
(título que na verdade, nem havia).
Eu teria, para sempre, vergonha daquele meu
dia, mas na verdade eu sabia que minha fama na
região era ambígua, sempre tivera dois lados, e
muitos consideravam a “guria ruiva do pampa”,
meio doida mesmo, com as minhas cavalgadas
nua no crepúsculo, uma Lady Godiva (de que
eles nem sabiam a história) alucinada e sem
causa, galopante e não a passo, num cavalo
baio, e não branco. E de dia, de vestido branco
até os pés descalços, na campanha, contando
sílabas nos dedos, como uma “louca de
Albano”, para sonetos desconhecidos deles, que
nem sabiam que eu era poeta.
123
Foi então que Aline veio da Itália, com o nosso
Marco, inesperadamente, para as férias neste
vinhedo que também era seu por minha
promessa na nossa primeira luta para salvá-lo.
Minha alegria foi imensa, meu elenco estava
quase completo, faltando apenas o meu irmão o
aventureiro jogador que surpreendentemente
estava se saindo bem como vinhateiro,
compenetrado, empenhado em fazer sua
propriedade toscana voltar a ter o prestígio que
tivera na Renascença, segundo soube. Sempre
um jogador e aventureiro, agora em nova área,
meu irmãozinho, “soldado da fortuna” que de
tão esperto e independente nunca causara
preocupação, como uma força da natureza,
minha admiração da infância e de sempre...
Então convidei, como já o fizera outras vezes,
meu grande amigo, e descobridor e lançador
em São Paulo e no Mundo, meu prefaciador,
capista e ilustrador exclusivo, o Guilherme de
Faria para passar aqui as férias conosco e ele,
apesar de se dizer idoso e não gostar mais de
viajar, aceitou e o esperei com alegria e novos
planos.
E ele, o velho artista, veio, se dizendo
maravilhado de me rever, ele que chorara a
124
minha morte mais que todos, até descobrir que
ela se passara apenas num dos meus universos
paralelos, aquele mesmo de onde deve ter vindo
meu “Duplo”, e ele o soube pelo meu relato no
meu livro de contos da fase paulistana. Foi ele,
Guilherme, que me trouxe a foto do meu
túmulo, que mais o desolara, e que a mim
chocara pelo evidente abandono, sem flores e
maltratado, o que ferira o meu ego, minha
vaidade, essa é que é a verdade.
Fomos, a seu pedido, procurar meu túmulo, a
placa de bronze fundido, na Colina dos Mortos,
mas não a encontramos, claro, pois estava no
universo da minha morte prematura, tão
chorada por ele e por Lucia e que causara
aquele escândalo no portal Recanto das Letras,
com nossa gloriosa expulsão após a publicação
por Lucia, na minha página, da trágica
carta–necrológio escrita comovidamente por
ela, e que causou escândalo e revolta por ter
sido considerada e denunciada pelo Editor
daquele site literário, como uma espécie de
“falsidade ideológica”, já que acreditando eu
ser uma criação do Guilherme, eu não podia ter
morrido de verdade (!!!). Rimos muito,
relembrando meu “succès d’escandale”
ocorrido nos idos de Janeiro de 2007...
125
Naquela temporada, não propriamente um
retorno dos “dias de vinhos e de rosas”, pois
nos queríamos mais sóbrios e maduros, como
exemplo para os três guris, que sendo
adolescentes, estavam inquietos, com a libido à
flor da pele, e temíamos por algumas gurias,
trabalhadoras da vinha.
Guilherme, o velho pintor, não parava de
desenhar, anotando tudo, e eu percebia como
ele me amava, de uma maneira abrangente,
porque não só a mim, mas tudo o que ele
chamava de meu universo e como a ruiva que
ele buscava captar nos seus desenhos a pincel,
com nanquim e ecoline, para isso, botando-me
em espartilhos e ligas como grande fetichista
que ele era. Ele trouxera com ele, na mala, uma
parafernália erótica de lingeries decadentistas,
que me divertiam a mim e à Aline e
horrorizaram minha meiga e recatada sobrinha,
que passando pelo corredor viu, de relance na
porta esquecida entreaberta do ateliê, sua tia
nua, de corpete e ligas, de pernas meio abertas e
de meias pretas, posando para o velho pintor, e
ficou chocada. Tive dificuldade de explicar
aquilo para a sua inocência e ingênuo
romantismo, cândido, quase infantil.
126
A verdade nua e crua é que aqueles acessórios
eróticos estavam na História da Arte associados
às demi-mondaines francesas, isto é, as
prostitutas da belle-époque, do século retrasado.
Essa idiossincrasia do velho pintor iria mesmo
assustar aquele anjinho, como a qualquer
prenda deste nosso Pampa.
Quanto ao Dario, o marido ideal, pairava
olímpico sobre qualquer conjuntura e tolerava
os caprichos de sua mulher, que ele parecia
amar com um desprendimento nunca visto neste
nosso Pampa machista. Basta saber que ele até
simpatizou com o pintor, e tiveram uma longa
conversa amistosa, não sei sobre o quê, e que
fez o velho pintor e poeta me cumprimentar
pela escolha, quando na verdade fui escolhida
sob ameaça de guerra, e aceitando, fui sorteada
como poucas, aqui por este nosso Sul, de botas
e esporas, de “buenas” seguidas de golpes “de
prancha e de talho”...
Naquela temporada, Guilherme, conhecendo
pessoalmente Aline, maravilhou-se com ela, e
fez-nos posar para uma série, nuas, juntas,
enlaçadas, em atitudes de sexo, e como não
somos hipócritas, assim o fizemos, com prazer,
eu diria, com ardor mesmo. Entretanto, para ser
127
coerente, devo contar que as posições e poses
em que o pintor nos colocava não poderiam
deixar de nos excitar, predispostas que já
estávamos com o nosso reencontro, o que
começou a fazer nossas lindas vaginas se
encherem de cristalino fluido e a vazarem
copiosamente sobre o leito onde posávamos,
ensopando-o. O pintor, grande “voyeur”, se
entusiasmou, e permitam-me revelar: encharcou
a mão com o nosso fluido, tocando nossas
vulvas, e esfregando no papel fez um
maravilhoso desenho à aguadas, de nós duas em
pleno sexo, desenho tão erótico, que ele até hoje
o reservou para si, prometendo deixarem exibi-
lo somente depois de sua morte, se eu e Aline
concordarmos.
Quando Aline e eu saímos daquele ateliê
estávamos ainda tão excitadas, que estávamos
“dando bandeira”, como popularmente se diz.
Os gêmeos Hans e Christian, que por duas
vezes alguns anos atrás quando eram
gurizinhos, flagraram a mim e Aline nuas, em
pleno sexo, foram enganados ou belamente
“esclarecidos” com nossas poses de estátuas,
que depois imitariam quando, um ano mais
tarde, me flagraram com Dario, nus debaixo do
piano, desta vez mais surpreendentemente pois,
128
eu, de pernas abertas e meu marido com seu
enorme falo em riste seria mais difícil de nos
tornarmos escultóricos, a não ser nos moldes de
Pompéia.
Dali por diante eu e Aline estávamos
resolvidas a “tirar o atraso e nos agarrávamos a
toda hora e não tardamos a reconstituir o
triângulo que houvera nos bons tempos com o
Dario, que evoluiu depois para aquele
“quatrilho” improvável, com o Rodo, que agora
faltaria.
Foi então, Deus me perdoe, que um elemento
complicador, viria acontecer naquela quente
temporada de férias na Estância. Eu e Aline
estávamos abraçadas numa rede que
instaláramos na varanda, quando vimos uma
figura de pé, a contra-luz, parada nos mirando
a poucos metros de distância, ergui-me com
dificuldade, pois estava enroscada na Aline, e
pondo a mão em aba, sobre os olhos, divisei...
Natalia! Ela voltara, agora uma moça de
verdade, o que pouca diferença fez na sua linda
figura, me olhando, com a mesma adoração de
três anos atrás. E foi dizendo:
-Alma, agora tenho dezenove anos, não podem
mais me buscar, me proibirem de te amar e, de
129
ser amada por ti e de participar do teu mundo.
Essa deve ser Aline, não é? Quero ser dela
também. Não me rejeitarão, confio em meu
coração e no que vejo, nos olhos que me olham
e enxergam minha beleza, e o que ela tem de
doação. Daqui não saio, enquanto não me
tiverem e me amarem.
Ficamos inicialmente perplexas, Aline e eu,
mas, como a própria circunstância demandava,
a cercamos carinhosamente e a fomos levando
para o nosso quarto, livrando-a de sua
indefectível mochila, e despindo-a aos poucos
no caminho.
________________________________
130
CAPÍTULO NONO
O Elenco completo
Para que o meu elenco estivesse completo só
me faltava a minha amada Doutora Jensen, que
tentei contatar por telefone e fui atendida por
uma assistente que me participou a doutora
andar muito concentrada escrevendo suas
Memórias para um livro já combinado com uma
grande Editora. Insisti me identificando, o que
fez a assistente mudar logo de tom, tornando-se
solícita e revelando que eu ocupava um capítulo
inteiro do livro. Foi chamar a Doutora que me
atendeu, radiante mas recebeu hesitante o meu
convite, pois temia se dispersar nos prazeres da
Estância e da minha companhia, mas
argumentei que ela, com sua disciplina sueca
poderia reservar umas horas sagradas para o
seu livro, como eu, para este meu romance em
processo. Vencida pela tentação e, vamos
convir, por seu amor confessado, um dia, por
mim, em plena tempestade, como já contei no
volume anterior, ela assentiu. Ela viria.
131
Eu planejava em segredo uma festa apoteótica
para reunião de todo o meu elenco vital, para
compensar o meu fiasco na Festa da Vindima,
que eu contaria para doutora para, digamos,
exorcizar minha persistente vergonha...
Inspirada pela perspectiva de ver todos os
amigos juntos, finalmente, eu passei uma noite
escrevendo estes “sonetos de amizade”, que me
vieram como sempre vêm os meus sonetos: em
catadupa, nem sempre auspiciosos ou otimistas,
mas como sempre nos surpreende a Poesia..
Tenho que revelá-los aqui:
132
Amigos (de Alma Welt)
Saudar os amigos é preciso
Pois a amizade é mesmo amor,
E o afastamento dá um aviso
Embora em mim talvez seja um pendor.
Mas quanto me divirto com os amigos
Que são um presente de alegria
Quando não voltados pros umbigos
Como eu mesma era e não sabia...
E quando vejo chegarem esses rostos
Sorridentes, levemente picarescos,
Alguns bons talvez pra outros gostos,
Eu me encho de ternura e paciência
E percebo nossos breves parentescos
No coração sábio da inocência...
133
Os amigos voltam (de Alma Welt)
Os amigos, quase todos reunidos,
Congreguei-os depois de tantos anos
Dispersos que estavam e entretidos
Com os seus sonhos, cartadas e arcanos,
Cada um só à procura de seu rosto
Quando já me parecia conhecê-los
E nada lhes faltava pro meu gosto,
Que não lhes fazia falta novos pelos...
Então em meio aos risos e abraços
Em seguida nos brindes com os bons vinhos
Lhes noto nas feições os novos traços.
E procuro aquele toque de candura
Disfarçado nas palavras e risinhos
Onde o cinismo agora se pendura...
134
Velhos amigos (de Alma Welt)
Vejo alguns velhos amigos se acabarem
Derrotados por um sonho que os ilude,
Batendo as teclas até se esfacelarem
Dos equívocos de nossa juventude...
Quanta coisa já não é mais o que era
Ou perdeu o sentido com o vento
Por sua natureza de quimera
E seu canto de sereia longo e lento...
E eu baixo os olhos constrangida
Com imensa pena dos amigos,
Alguns quase reduzidos a mendigos.
Quisera reuni-los, e sem mágoa
(todos demos com os nossos burros n'água)
Combinar com os amigos nova vida...
Os
135
Os amigos se reúnem (de Alma Welt)
Os amigos se reúnem nas clareiras
Entre os sonhos perdidos e o vigente;
Faunos uns, outras ninfas e faceiras,
Assim nos reunimos, somos gente.
No rosto, às vezes, máscara nos pomos,
Não somos de se por no fogo a mão,
Nem por certo que se cheire flores somos,
Mesmo sem rabo amassamos nosso pão.
Amizade é filha do imprevisto
E se do acaso levamos a bandeira
A gratuidade é passe ou visto...
Mas no fundo todos temos um só medo
Que em nós do mesmo modo cheira:
Que a vida seja só engano ledo...
136
Os amigos da Poeta (de Alma Welt)
Onde estarão os amigos mais queridos
Que alegravam a casa nos bons tempos
E reliam meus poemas preferidos
Não apenas como simples passatempos
Mas por certo pra ganhar lugar mais perto
Do puro coração de sua amiga,
Ingênuo sim, ainda que esperto,
Avesso à maldade e à intriga?
Onde estarão? Que foram rareando
Ou, melhor dizendo, se esparzindo
Ou como um tecido, se esgarçando...
Tão esperta... a Poeta acaba só,
Aos novos bons amigos induzindo
A espalhar seus poemas como pó...
137
Ó, meus amigos ( de Alma Welt)
Ó meus amigos, mais um ano com vocês...
Eu que até pensava em ir embora,
Para a vizinha Vila Nova das Mercês
Ou para a mais distante Bora Bora...
E fico, fico sempre até o final...
Sou aquela que fica na estação
A acenar pro trem em comoção
Na plataforma eternizada do real...
Estou cansada, amigos, de ver claro
A ponto de enxergar o trem fantasma
Que me irá levar sem cobrar caro,
Quando meu peito cheio de ar fecundo
Não quererá fechar, se não de asma,
Pelo apego que tenho a este mundo...
138
O Último Baile (de Alma Welt)
Como é bom estar aqui entre vocês,
Amigos meus, reunidos pela face *
Melhor que temos, afinal, a cada vez,
Pra não mostrar somente o que se passe.
Porque se mostro sempre o meu melhor
Para estar entre vocês em plena sala,
Quero dizer que me visto, assim, de gala
Para as nossas reuniões, em tom maior...
Houve um baile, uma vez, na Ilha Fiscal
Onde a Corte reuniu-se em saideira,
Sem nem sequer desconfiar do Marechal...
Amigos, como então naquele Rio,
Dancemos nossa valsa, a derradeira,
Que a Liberdade está apenas por um fio...
139
O Último Banquete (de Alma Welt)
Ó vinde, eu vos espero, amigos meus,
Sabeis que a minha porta é sempre aberta!
Para mim uma visita é como um deus,
Um bom amigo, então, o é na certa.
Hóspedes meus, bem o sabeis, deuses sereis
E vireis todos comigo ao meu pomar
Para um encontro de deuses e de reis
E no banquete aos amigos vou brindar.
Assim sonhei, amigos meus, em solidão,
Relevai-me vós, então, o tom solene,
Que é só o que me resta ao coração,
Pois minha casa ecoa de vazia
E a bela juventude, de perene
Tem a memória em mim, que não havia...
140
Preciosos Amigos (de Alma Welt)
Preciosos amigos de uma vida,
Por alguma razão tão dedicados
Apesar da minha alma dividida
Entre a solidão e os agrados
Daqueles reencontros tão festivos
Com abraços apertados e tapinhas
Nas costas com sinais receptivos
De faces se encontrando com as minhas...
Agora tudo é já passado, recolhida
Prefiro esta memória dos momentos
A que tão prontamente dei guarida.
Mal sabem que os retenho assimilados
No antes da chegada dos tormentos,
Que guardei-os no melhor dos seus passados...
141
Os Amigos estão indo (de Alma Welt)
Os amigos estão indo, eles se vão,
E não nos pedem licença, simplesmente,
Num piscar de olhos, deixam-nos na mão,
Desaparecem, sem mais, na nossa frente.
Abandonam-nos, os amigos tão queridos,
Como se fosse, assim, algo possível,
Sem saberem que guardamos comovidos
A imagem sempre viva, imperecível
De sua passagem adorável e dos dias
Em que fomos tão felizes, ou nem tanto,
Mas rindo à beça ao escapar das frias...
Já os guris se vão, como se afoitos,
Aventureiros, por quê pro mesmo canto?
Deve haver algo lá mais do que biscoitos...
142
Os Amigos (III) (de Alma Welt)
Como nós cantávamos e ríamos
Naquelas jovens tardes e noitadas
Sem saber que em breve iríamos
Nos dispersar assim pelas quebradas!
Amigos, cada um foi ao Destino
Que não se pode mais compartilhar,
Que o nosso espelho cristalino
Iria bem depressa estilhaçar.
E eu pergunto se nos reuniremos
Ainda que precoces decadentes
Para restaurar o que rompemos,
Pois a contar fiquei nesta varanda
As sílabas, estrelas e poentes
Por onde o coração ainda anda...
143
Desde Guria ( de Alma Welt))
Desde guria convivo com os mortos,
Que secretos são os meus amigos
Que foram navegar entre outros portos,
Poetas, uns modernos, uns antigos.
Como lhes tenho muita intimidade
Lhes chamo pelos nomes e apelidos:
Allan Corvino... François dos Tempos Idos, *
Charles, o das flores da maldade... *
Mas, com suas dores também arco:
Eles não desconfiam que são célebres,
E ainda vendem por gatos suas lebres.
Arthur, a vogar bêbado barco
Vogais coloridas, ainda encanta, *
E Walt boa relva cava e planta. *
Nas redes (de Alma Welt)
144
Nas cidades eu falava com as paredes
E tinha muitas saudades da campina, *
E procurava o meu nome nas redes, *
Encontrando até coisa que alucina: *
Vi meu nome entre os maiores deste Sul
Inclusive o do domador do vento *
Que transformava em clarineta, em solo cool, *
Com aquele seu veríssimo talento.
E eu, pobre romântica tardia
Quase à míngua numa era decadente
Só às quintas ao Quintana reverente, *
Cabe a mim restaurar brilhos antigos
Quando a nossa sala manca de poesia, *
Com uma pequena ajuda dos amigos... *
Ah! Meus amigos... ( de Alma Welt)
145
Ah! Meus amigos, tão tolos quão formosos
Na nossa louca juventude ou logo após,
Acreditando-nos de algum modo poderosos,
Como alexandres a cortar mil górdios nós
Que o Destino apresentasse vida afora,
E que tudo estaria ao nosso alcance,
Como se o leão da vida a gente amanse,
E com Androcles nossa fera a ir embora...
Quanto a mim fiel fiei como Penélope
No tear a minha teia de sonetos
A esperar um rei nada a galope...
E se a espada pendurada por um fio,
De novos Dâmocles faz de nós suspeitos,
Já nada temo mais e apenas rio...
146
Os quatro amigos (de Alma Welt)
Fomos todos ao mundo, os quatro amigos,
Cada um a buscar o seu tesouro
Que estava aqui mesmo, sem desdouro
Dos que há pelo mundo sem abrigos.
Nenhum de nós voltou de mãos vazias
Mas um tanto machucados e carentes,
Com as suas palmas bem menos macias
E por certo nunca mais aos seus pertences.
Então nos reunimos numa festa
Para brindar o estarmos todos vivos,
De alegria o mais belo dos motivos...
Rindo disse um de nós, o mais honesto:
"Para nós está aqui tudo o que presta,
Só eu que, para mim, ainda não presto..."
147
Dos amigos que se foram (de Alma Welt)
Dos amigos que se foram, só saudades,
Alguns, para os pagos de além-mar
Uns poucos pelas fúteis veleidades
Outros tantos para nunca mais voltar...
Como éramos felizes sem saber!
Rebeldes inocentes e curiosos,
De muita importância achando ser,
Pobres ingênuos, belos, preciosos...
A vida nos deu grandes bordoadas,
Pelo menos nos melhores, desde então,
E ostentamos nossas almas remendadas.
Mas os únicos que se foram por juízo
Não voltaram trazendo uma canção
Ou um chiste que provoque novo riso...
Perdoem-me, amigos (de Alma Welt)
148
Quantas vezes eu já pensei em desistir...
Perdoem-me, amigos, minha fraqueza,
Num mundo duro e seco fui cair,
Contrário à minha doce natureza...
É verdade que uma dose de ironia
Apimentou meu relacionamento
Com vocês através da minha poesia,
Fiel que sou à deixa do momento:
Perco o amigo mas não perderei a rima
E por isso fui tachada negligente,
Ocupada demais com a auto-estima.
Mas garanto, amigos meus, sou inocente,
Não como uma criança sem maldade,
Mas sim como uma criança de verdade...
149
A Dança das Cadeiras (de Alma Welt)
Ó meus amigos, que saudades tenho eu
Dos tempos de nossas brincadeiras
De salão, como a "dança das cadeiras" :
Quem não sentou, caiu, saiu, perdeu...
Depois, na vida, seguimos com o jogo,
Nunca haveria cadeira para todos
E vi de alguns amigos pranto e rogo
Já que foram dar em chão de lodos...
Há quem diga que injustiça não existe
(meu pai mesmo era desta opinião)
Mormente para quem no erro insiste,
Mas, ai, como me lembro dos caídos,
Quem nem por isso mereciam ser punidos,
Desajeitados para os jogos de salão...
Farelos sobre a mesa (de Alma Welt)
150
Quisera que uma festa a vida fosse
De retorno dos amigos tão dispersos,
Agora em torno e esbanjando versos,
Depois silencio (eu imitando tosse):
"Meus amigos, façamos novo brinde!
Todos os maus enfim foram recolhidos;
Vós, os bons, foram, pois, os escolhidos,
Bebamos, e aos Novos Tempos vinde !"
Eis como penso um reencontro alegre
Com esta tola alma idealista
Que evitava engolir gato por lebre...
Mas olho em torno a mesa desolada,
Com farelos de pão, única pista
De um café da manhã, de abandonada...
___________________________________
Quando finalmente vi todo o meu elenco
juntado, e em harmonia, com aquisição de um
novo membro, a minha Natalia, e mais uma
vintena de amigos antigos e dispersos, que não
nominarei aqui, houve um momento de epifania
em minha alma repleta e eu, diante de todos
reunidos, a pedidos ia discursar, a princípio
151
solenemente, mas logo com a simples alegria
que os amigos juntos despertam, eu comecei:
“Meus amigos, meus amados! Não vou
aborrecê-los com um discurso, por melhor que
fosse, indigno de um momento como este, de
sua própria e latente poesia e plenitude. Vou
saudá-los apenas com este soneto de amizade
que acabo de escrever:
Saudemos a vida, meus amigos,
Não cansemos de a vida celebrar!
Não olhemos demais nossos umbigos,
Olhemos mais pra cima para amar.
Bebamos moderado, se soubermos,
Mas se acaso passarmos do limite
Escrevamos mil vezes nos cadernos:
“Sou um bêbado idiota, não me imite.”
A alegria, meus amigos, é vital,
Não deve nos levar para o buraco;
A vida é o Bem, e a Morte é o Mal.
Tudo que aprendi só me diz isso,
O resumo do saber cabe num saco,
Que não seja o nosso saco do sumiço!
152
Uma gargalhada geral saudou, por sua vez, o
meu discurso.
FIM
153
Notas
*Tal como implorava Lamartine
No seu lago feliz, mas sem discurso - Alma se refere ao famoso e
longo poema de Lamartine , “ Le Lac”, onde o poeta pede ao
Tempo que suspenda o seu curso, para reviver os momentos
felizes com seu amor (depois perdido) às margens dele.,
* Como o soneto famoso de Ronsard * Alma se refere ao célebre
soneto Quand vous serez bien vieille – dos Sonnets pou
Hélène, 1578
Quand vous serez bien vieille
Pierre de Ronsard
Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle,
Assise auprès du feu, dévidant et filant,
Direz, chantant mes vers, en vous émerveillant :
Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.
Lors, vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,
Déjà sous le labeur à demi sommeillant,
Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,
Bénissant votre nom de louange immortelle.
Je serai sous la terre et fantôme sans os :
Par les ombres myrteux je prendrai mon repos :
Vous serez au foyer une vieille accroupie,
Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain :
Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie.
154
Pierre de Ronsard, Sonnets pour Hélène, 1578
Quando fores bem velha (Tradução de Guilherme de
Almeida)
Quando fores bem velha, à noite, á luz da vela
Junto ao fogo do lar, tiritando e fiando,
Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.
E entre as servas então não há de haver aquela
Que, já sob o labor do dia dormitando,
Se o meu nome escutar não vá logo acordando
E abençoando o esplendor que o teu nome revela.
Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso:
E em tua casa irás, velhinha combalida,
Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia que vem;
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.
______________________________
* Fiel ao “quasi modo” meu da infância - Alusão ao
personagem Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame, do
grande romance Notre Dame de Paris de Victor Hugo,
romance que Alma amava na infância.
155
* Allan Corvino - Edgar Allan Poe, o poeta americano
autor do poema O Corvo (e de maravilhosos contos de
terror e de humor)
*François dos Tempos Idos - François Villon, poeta
medieval francês, autor da famosa "Balada das Damas dos
Tempos Idos" ( Où son les neiges d'antan?)
*Charles, o das flores da maldade - O grande Charles
Baudelaire, autor do célebre livro de poemas Les Fleurs
Du Mal ( As Flores do Mal)
*Arthur, a vogar bêbado barco /Vogais coloridas - Arthur
Rimbaud, o grande poeta adolescente francês, que
escreveu aos dezessete anos o maravilhoso poema longo
Le Bateau Ivre (O Barco Bêbado) e La Couleur des
Voyelles (A Cor das Vogais)
* E Walt boa relva cava e planta - Walt Whitman, grande
poeta americano do século XIX, autor do monumental
livro de poemas Leaves of Grass (Folhas de Relva).
*E tinha muitas saudades da campina- Alma assim alude
ao Pampa de sua criação.
* E procurava o meu nome nas redes / encontrando até
coisa que alucina - Alma alude às redes sociais e ao
Google, onde descobriu, com surpresa, um site que coloca
o seu nome entre os grandes poetas do Rio Grande do Sul,
ao lado de Érico Veríssimo e Mario Quintana, o que ela
achou alucinante...
156
.* Inclusive o do domador do vento - alusão ao grande
Érico Veríssimo, autor de O Tempo e Vento.
* Que transformava em clarineta, em solo cool - Alusão ao
famoso livro de Memórias, de Érico Veríssimo, em três
volumes, que se intitula "Solo de Clarineta".
* Quase à míngua numa era decadente/ Só às quintas ao
Quintana reverente - referência da Alma ao grande poeta
gaúcho Mario Quintana.
* Quando a nossa sala manca de poesia, - alusão à lenda
"A Salamanca do Jarau", a mais famosa lenda gaúcha...
* Com uma pequena ajuda dos amigos - alusão à famosa
canção dos Beatles: With a Little Help of my Friends..
*Como alexandres a cortar mil górdios nós - alusão ao
episódio mítico da vida de Alexandre da Macedônia, que
instado a desatar o intrincado "Nó Górdio", da corda que
atava o varal de uma carro de guerra a uma coluna de um
templo (o oráculo predizia que quem o fizesse seria o rei
daquela terra), sacou de sua espada e de um só golpe
cortou o nó.
*E com Androcles nossa fera a ir embora - Alusão à
fábula popular cristã de Androcles e o Leão, em que o
personagem, um andarilho grego cristão encontrou na
estrada um leão que sofria desesperadamente com um
espinho na pata. Compassivo, Androcles se aproximou
corajosamente da fera, que por instinto o deixou retirar o
157
espinho, aliviando-o da dor. Anos mais tarde Andrócles,
capturado pelos soldados romanos do imperador Nero, foi
jogado na arena do Coliseu para ser devorado por um leão.
Por coincidência era o próprio leão tratado pelo cristão, e
que dele agora se lembrou e veio deitar-se ao seus pés,
lambendo-os em sinal de gratidão. A multidão em êxtase
pediu a César o perdão do condenado.
*Quanto a mim fiel fiei como Penélope- Todos conhecem
a história contada na Odisséia de Homero, da fiel esposa
de Odisseu, a rainha Penélope, que esperou por vinte anos
a volta de seu marido da guerra de Tróia (dez anos de
guerra e dez anos perdido em aventuras em seu retorno).
Pressionada por príncipes estrangeiros pretendentes à sua
mão e ao seu trono, que acreditavam Odisseu morto na
guerra, Penélope sempre confiante no regresso de seu
marido, para ganhar tempo empregou um estratagema:
prometeu que escolheria um dos pretendentes mas
somente quando terminasse de tecer uma teia que
celebrava em imagens a façanhas lendárias que o povo
contava sobre o bravo Odisseu. Ela tecia de dia no tear e
de noite destecia os pontos para nunca terminar.
* De novos Damocles faz de nós suspeitos - alusão ao
episódio de Damocles, rei que dormia com uma espada
suspensa por um fio de cabelo sobre sua cabeça. Este mito
é interpretado como uma alegoria da coragem ou aceitação
do nosso destino humano.
158
Sobre o EX LIBRIS de Alma Welt
O Ex-libris da Alma Welt foi feito em litografia por
Guilherme de Faria, a pedido da autora quando se
conheceram. O mote latino AD AUGUSTA PER
ANGUSTA significa "Chegar a resultados magníficos por
vias estreitas." O curioso é que permite uma tradução
muito legítima ao pé da letra: "à Augusta pela angústia",
sugerindo o estado de espírito da poetisa no seu auto-
exílio paulistano numa transversal bem próxima da rua
Augusta, logo após a morte do seu pai (o Vati),em sua
estância no Rio Grande do Sul.
27/08/2001
DEPOIS DA PAZ Romance de Alma Welt ___________ Quinto volume da Saga A HERANÇA 2 3 4 Aos meus amados, que são tantos... 5 A cada pessoa cabe uma vida única, pessoal e intransferível. Apenas aos artistas, atores, escritores e poetas cabe viver múltiplas vidas através de seus vívidos personagens. Ah! A alguns psicóticos também... (Alma Welt) 6 Eu e os Piratas ( de Alma Welt) Meu irmãozinho construiu embarcação Toda de caixotes, pouco destra, Com um cabo de vassoura e armação Que pretendia ser a vela mestra. E a arrastamos juntos ao laguinho Da cascata, pra com ela navegarmos Como piratas, eu com bigodinho, Ele com a venda e os sarcasmos. Mas eis que me vi numa enrascada, Pois borrando meu bigode com o dedo Ele disse: “ Descobri o teu segredo!” “Já que és mulher és cobiçada E vais ficar pelada e com medo, Pois serás de toda a marujada!” 20/12/2006 7 ÍNDICE Prefácio................................................................ Primeiro Capítulo A Dívida.......................
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