A IDADE DA ALMA Romance e sonetos integrados de ALMA WELT 2 3 Quase (de Alma Welt) Alguns de nós ficamos quase ricos, Alguns, quase felizes, mas nem tanto; Outros restamos quase invictos, E houve um que quase virou santo. De nós, de nosso grupo quase unido, Quatro quase que “bateram o Catolé” E um de nós, que foi mais atrevido, Quase foi pra Sibéria andando a pé. Mas todos, quase todos, nos perdemos De nossos sonhos perfeitos, de guri, Que quase alguns de nós ainda temos. Somente eu, que quase me cumpri, Estou firme, quase, nesta estância, Fiel ao “quasi modo” meu, da Infância... 4 Àqueles que, na amizade, resistiram ao Tempo 5 Prefácio (Por Guilherme de Faria) Existem coisas curiosas na Literatura clássica, quase idiossincrasias, como a de Os Três Mosqueteiros (de Alexandre Dumas) que eram quatro (!): Athos, Porthos, Aramis, e... D’ Artagnan. Assim também a Trilogia A HERANÇA, de Alma Welt: O Sangue da Terra; Vinha de Dioniso, A Ara dos Pampas, comportaria perfeitamente este quarto volume, A Idade da Alma, que é uma nítida e digna continuação da saga de família da autora protagonista no seu Pampa real e Mítico, como ela mesma, na sua dimensão arquetípica, que confere tanta beleza e profundidade à sua linguagem expressiva, que se, situa, às vezes, numa fronteira tênue entre o coloquial e o lírico, ou entre a prosa e a poesia. Também ela aborda, com propriedade, simbólica e com legitimidade, sem abuso, com moderação, momentos de “realismo fantástico” sul americano, como (com algum “spoiler”) cito a sua sobrevivência muito natural e contínua, em 6 uma dimensão quântica paralela, após a trágica e chocante descrição de sua própria morte assassinada. Mas, neste romance realista, nada de fantasmagoria espectral como, por exemplo, o encontro finalmente em espírito de Cathy Earnshaw e Heathcliff. após a morte de ambos, vagando na charneca amada no Morro dos Ventos Uivantes, a obra prima de Emily Brontë, romance que percebemos que Alma Welt tanto ama, como ama a sua campanha gaúcha, das coxilhas e também de um uivante vento Minuano. A continuação plácida e, insisto: realista, após a descrição tão chocante de violência brutal de seu assassinato, confere uma originalidade magistral ao sentido geral deste novo romance da gaúcha. O realismo de sua descrição dos acontecimentos, segue sempre um encadeamento lógico que guia a narrativa, sempre com um sabor, não de fantasia, mas de memória e confissão, que é a característica peculiar, geral, de seus textos, em todas as suas obras. No entanto, literariamente, ela não se assemelha ao naturalismo de um Zola, mas ao realismo lírico de um Flaubert, que ela parece amar. Nesta obra, ainda fazendo parte da saga familiar A Herança, vemos ainda um original 7 atrativo: a autora apresenta uma extraordinária inovação no gênero romance: duas grandes coleções temáticas de sonetos integrados aos enredos desenvolvidos: sobre o Tempo e sobre Amigos. São sonetos belíssimos que exibem a riqueza e a profundidade de suas variações sobre os temas. Eu diria que Alma Welt é especialmente magistral neste gênero poético nascido na Idade Média e que ela cultiva de maneira idiossincrática a ponto de ter produzido incríveis 5.000 sonetos dodecassílabos originais, e quase sempre confessionais . Como vêm, eu saúdo esta escritora gaúcha, excepcional, que tive o privilégio, em 2001 de descobrir em seu “auto-exílio” paulistano, e lançar seu primeiro livro de contos em 2004, os Contos da Alma, de Alma Welt, uma coletânea de obras primas do gênero, a maioria de contos urbanos de sua experiência existencial na capital paulista, ela que veio do meio rural gaúcho, tão diferente da “Paulicéia desvairada” do nosso Mario de Andrade. Sim, eu diria que esta Alma carrega consigo o seu Pampa, como aquela inglesa rural carrega até os nossos dias a sua charneca. Ambas nos encantam de maneira semelhante e nostálgica, num mesmo “realismo romântico”, que 8 preservam e perpetuam gloriosamente, numa época de realismo sórdido como o destes nossos tempos. Guilherme de Faria 10/10/2025 Nota Ainda a respeito desse peculiar universo “weltiano”, como já me permito denominar, considerei oportuno expor aqui o poema de timbre romântico inglês brontëano, ou mesmo alemão, goetheano, que a fiel Lucia Welt, irmã da Alma, escreveu em memória da grande poetisa, algum tempo depois da sua morte, e me enviou por carta, escrito à mão, e que conservo como um tesouro adicional: Manhã orvalhada (de Lucia Welt para a amada Alma) Nesta manhã orvalhada caminhei pela campina como outrora quando tudo parecia mais autêntico e vivo pois a Alma estava entre nós e eu podia segurar a sua mão ao caminhar. 9 Ainda ouvi sua respiração arfante não tanto pelo andadura como pelas emoções de seu olhar sobre detalhes da paisagem, da relva e do céu que me passavam despercebidos. Senti novamente seu perfume de mulher jovem inconcebivelmente linda que só por isso já nos comovia tanto quanto aos peões que ao vê-la caminhando paravam seu trabalho e tiravam o chapéu ao seu riso cristalino. Ah! Doce irmã das pradarias, tu eras a alma que agora nos falta! Tu, o elo de ligação entre este pampa e nossas vidas entre a paisagem e nosso alento que todavia persiste sem teu respiro mais amplo em teu voo a um tempo gracioso e sobranceiro, de branca garça pampiana, guria de cabelos flamejantes, de pele alva de paraísos suspeitados, ah! cobiçados mesmo... Esta foi, além de teus poemas tua prenda maior mas tua desgraça, pois também os maus te viram e cobiçaram... Mas não quero pensar senão em ti, na tua caminhada, 10 quando rindo de alegria te afastavas de súbito virando-te para mim para logo me estenderes as duas mãos para rodopiarmos na campina por puro prazer de viver. Ah! Como eras preciosa, meu amor, minha irmã! Que poema posso eu te escrever senão evocar-te tal qual eras em tua beleza cheia de secretos encantos que no entanto prodigalizavas? Quanto te desnudavas em tua generosidade, pois bem sabias que o olhar do povo, deslumbrado te vigiava, respeitoso contudo, como não seria com nenhuma outra prenda! Quem, entre os mortais que te viram nua (e talvez alguns deuses) não sonhou secretamente ter-te nos braços para sugar-te o hálito divino e fruir de tua pele de seda de impossível brancura sob este sol do Pampa, ou mais amiúde sob a lua e as estrelas peregrinas do teu negrinho padroeiro? (Ai! Na grande cidade também foste amada, mas também violada em tua comovente vulnerabilidade, 11 criatura exótica perdida no caos.) Ah! Não poder nunca defender-te, preservar-te do mal e dos maus, cobrir teu corpo de ninfa com meu corpo maternal e nunca mais deixar-te ir-se!... Caminhei esta manhã na pradaria orvalhada e por um segundo tu, Alma, tocaste a minha mão, senti teu beijo em meus lábios, o hálito fresco da pradaria e soube que continuas por aqui. E chorei consolada... 28/05/2008 12 Índice PRÓLOGO........................................................ Capítulo Primeiro Encontro na Coxilha....................................... Capítulo Segundo Tempestade à vista.......................................... Capítulo Terceiro O Resgate....................................................... Capítulo Quarto O Processo...................................................... Capítulo Quinto Este corpo que habito..................................... Capítulo Sexto A Festa da Vindima........................................ Capitulo Sétimo Depois da Festa................................................ 13 Capítulo Oitavo O Elenco completo........................................... Notas................................................................ 14 A IDADE DA ALMA Romance e sonetos integrados de ALMA WELT 15 PRÓLOGO Eu, Alma Welt, com meus 35 anos, sou, portanto, muito jovem, e me diverte a idéia de que seria considerada uma “balzaquiana” com essa idade na primeira metade do século XX , quando ainda se lia o grande Honoré de Balzac. Sim, muito jovem ainda, mas carregando a bagagem anímica de uma grande luta pela minha herança e minhas terras. Sim, luta que venci com a ajuda de meus amados e amigos, e que narrei nos três volumes de meu romance- trilogia A HERANÇA,cujo primeiro tomo publicado na sua versão para o inglês THE HERITAGE:The Blood of The Earth, pelo Guilherme de Faria, me tornou conhecida em grande parte do Mundo, justificando, finalmente o significado do meu nome. Após tantas lutas, a vida aqui na nossa estância vinhateira (a Santa Gertrudes) caiu por um tempo numa pasmaceira, com o encerramento dos conflitos e até batalhas verdadeiras que narrei, sem falseá-las nem poupar-me da confissão desabrida de minhas fraquezas e 16 eventuais ridículos. Meus leitores, portanto, me conhecem bem, e sabem que não minto nem aumento. Assim, o que teria eu para contar, ou revelar, ainda? Bah! Meus amigos... a paz duradoura não me estava destinada nesta vida, e devo confessar, por minha própria culpa. Minha psicanalista, a querida Doutora Jensen, interrompera a minha análise, depois de se envolver comigo amorosamente, como contei aos meus leitores, sem peias ou pudores, mas tendo me feito atingir a consciência plena do cerne da minha SOLIDÃO, deu-se o sagrado direito de me abandonar, antes que se perdesse como profissional respeitada e idônea, essa é que é a verdade... Eu continuava com meus passeios solitários pelas manhãs bem cedo, ou ao crepúsculo, muitas vezes, devaneando ou meditando sobre este novo “romance” que meus leitores esperavam de mim, segundo mensagens que eu recebia nas “redes sociais”, e que me faziam sentir devedora para com meus amigos virtuais, agora uma legião. Ah! Muitos leitores me perguntavam sobre meus amores, meu marido Dario; sobre a Aline, nosso pimpolho Marco, sobre Rodo, meu 17 irmão, e meus sobrinhos, principalmente a doce Patrícia (Pati), os gêmeos, e até sobre os queridos Galdério e Matilde, meus humildes, fiéis e amados servidores... Todos continuavam à minha volta, menos o Rodo, que perambulava pelo mundo de cassino em cassino, como sempre. Então começo aqui com os acontecimentos dos tumultuados tempos de paz que se seguiram às verdadeiras batalhas que experimentei pra conservar a minha HERANÇA. 18 CAPÍTULO PRIMEIRO Encontro na Coxilha Foi então, que numa manhã, durante meu passeio, romanticamente colhendo flores silvestres, avistei uma jovem e bela mulher de mochila nas costas e na mão um inútil cajado de peregrina, que, por sua vez, ao avistar-me, se encaminhou na minha direção, que a esperei, parada, com meio buquê na mão. Ela se aproximou a dois metros de distância e, mirando-me nos olhos, disse: - Alma Welt... Não és? Assenti que sim, e por minha vez, perguntei: - E tu, quem és? - Sou Natália, de Florianópolis (respondeu com lindo sotaque açoriano), e sou tua amiga no facebook, mas com outro nome de perfil, e li todos os teus livros, e todos os teus poemas e sonetos, tudo, tudo... tantos, que ocuparam maravilhosamente meus últimos cinco anos. Resolvi procurar-te, mesmo sem avisar, para não correr o risco de não ser recebida, pois sei 19 que os fãs são quase sempre incômodos. Sou formada em Letras e estou escrevendo um TCC, meu trabalho de Conclusão de Curso sobre a tua literatura, e arrisquei vir assim ao teu encontro. Só não esperava encontrar-te em plena campanha gaúcha, a colher flores, como tantas vezes imaginei ao ler teus versos e romances, e nos quadros em que apareces, assim de branco, vagando, ou diante de portentosas árvores, que pareces adorar. Já me sinto recompensada, só de ver-te aqui, assim. Mas, poderás me receber e ser entrevistada por mim, que nada fiz de grandioso por mim mesma, além de devorar teus textos e admirá-la desde que eu era adolescente, para desgosto dos meus pais, que fiscalizando minhas leituras, se escandalizaram com a franqueza e liberdade de tuas confissões, Alma? -Natália (respondi)... És minha hóspede desde já. Com a tua singela e franca apresentação, já me sinto disposta a responder quaisquer perguntas, e até a abrir meu coração em nichos que estão ainda trancados. Venha, venha, sinto que poderei confiar em ti, pela limpidez dos teus olhos, que observei. Venha comigo à 20 minha casa, o casarão assombrado, que deves conhecer bem pelos meus contos e romances... Retornei ao casarão trazendo a peregrina comigo, cheias de animação e esperanças de uma nova amizade auspiciosa, que certamente renderia frutos, já que eu estava disposta a me abrir, confiante na minha intuição quanto ao caráter das pessoas, antes de conviver ou não com elas. Entrando pela varanda e logo na nossa grande sala, levei-a à biblioteca e a convidei a sentar- se, oferecendo uma bebida qualquer, água, vinho ou um suco, ou mesmo um chimarrão hospitaleiro. Para minha surpresa ela aceitou uma taça de nosso melhor vinho, que pedi para a Matilde, que com seu olhar de eternas suspeitas, trouxe em duas taças. E bebeu um tanto avidamente, comentando: - Delicioso o teu vinho, Alma. Deve ser o Ara dos Pampas, não? Natalia estava me ganhando a cada fala sua, que me fazia perceber o quanto acompanhara minhas aventuras e mesmo as amara, pelo brilho dos seus olhos, que estavam já a marejar, 21 enquanto rodava o olhar conferindo tudo ao seu redor, como um cenário conhecido ou longamente imaginado... Então, subitamente, enquanto eu a olhava mais atentamente para captar suas gratificantes emoções de reconhecimento, eu... percebi! Sim, eu notei algo que de algum modo estava camuflado: não se tratava de uma mulher feita, mas de uma adolescente! Imediatamente senti um odor agridoce, velho conhecido meu: o de problema à vista. Imediatamente, num tom um pouco mais alto, que não pude evitar, perguntei-lhe: -Natália, que idade tens? Não mintas para mim... A moça tremeu, seus olhos marejados se derramaram e ela, num soluço, balbuciou: -Tenho dezesseis para dezessete... em dois meses... mas não me rejeites, Alma, ou morrerei se me expulsares, agora que cheguei até a ti, depois de tanto sonho... Ai! Eis que já eu sentia o sabor de encrenca, que fatalmente já se armava. Questionei-a: 22 -Natália, tu fugiste de casa? Teus pais sabem onde estás? Tu tens a mesma idade da minha sobrinha Patricia, que sabes certamente quem é. Não posso nem imaginar a Pati fazendo um dia o que estás fazendo... Vou ligar já para os seus pais, me dê teu celular. - Não! Não! Alma! Não faça isto! Não posso voltar! Não me rejeites! Deixa-me ser tua amiga, eu te imploro! Não te arrependerás! Eu juro! De mãos postas, caiu de joelhos, tão dolorosamente que, impressionada, até condoída, me detive e a ergui pelas mãos, o que e ela no mesmo impulso, aproveitou para me abraçar dramaticamente, agarrando se a mim, trêmula. Fiquei, sem ação, comovida. Báh! Ai de mim! Seria o começo de um desencadeamento de circunstâncias perigosas e dramáticas que me roubariam a paz, eu imediatamente pressenti. Mas lentamente devolvi o abraço, e apertei aquela adolescente em meus braços. 23 Após o lanche que lhe servi, e ela, faminta, devorou, conduzi-a ao meu leito, despi-a como a uma menininha e a vesti com uma camisola minha, a cobri, e fazendo, não sei por quê, um shhhhhh com um dedo em meus lábios, me retirei do quarto, sentindo ainda o seu olhar súplice me seguindo... e fechei a porta. Na sala peguei na sua mochila o seu celular e procurei seus dados, encontrei-os, mas, por alguma obscura razão do meu inconsciente, ou da alma mesma, não fui adiante. Desliguei o aparelho, suspirei, e recoloquei o aparelho na mochila. Lembrei-me da frase de Nietzsche: “Não me preocupar, eis a providência que preside o meu Destino”. Entretanto fui procurar a Matilde, para que minha “shakespeariana”, e antiga babá, não se alarmasse ao encontrar a adolescente no meu leito. ______________________________________ Matilde, minha fiel “bá”, já há duas décadas nossa cozinheira, é uma mistura de conselheira, 24 bobo e corifeu desta nossa pequena tragi- comédia familiar. Morreram já a Açoriana (minha Mutti), o Vati (meu pai), Solange, minha irmã mais velha e, Alberto, seu marido bêbado, meu querido e fiel cunhado. Rodo (Rudolf) meu amado irmão jogador de pôquer, anda pelos cassinos do mundo e quase não pára por aqui. Na solidão desta estância e seu vinhedo decadente, só amainada pela presença de Matilde e do fiel Galdério, seu irmão e nosso "factotum", eu me consumo em meus pensamentos, crônicas e sonetos e me esforço para não enlouquecer, já que converso com espectros e vago nas noites como uma sonâmbula pelo jardim e pela coxilha em torno do casarão. Somente a Internet prorroga minha lucidez, paradoxalmente dando-me a ilusão da comunicação, de ser compreendida e até mesmo de ser amada. Escolhi o meu destino? Tudo é encadeamento de circunstâncias, não cuspirei no prato do meu talento mesmo que ele me leve à solidão e à morte. Tudo é Destino... Com isso tudo, está visto que a solidão já assola este meu mundo, e constrange gradativamente a minha alma, que eu queria universal para abarcar o mundo e até ser um alento para os meus leitores... Entretanto (ai de mim!) agarro- 25 me a qualquer criatura que vier ao meu encontro, como uma bóia salva-vidas. Meus sobrinhos, Patricia e Pedrinho, e os gêmeos Hans e Christian, estão com minha irmã Lucia em Alegrete e cada vez mais ocupados com os estudos, sómente vêm para as férias. Aline, minha amada, e nosso filho Marco, estão em viagem com Rodo, que resolveu assumir seu filho natural e o está carregando para o seu errante mundo, com sua mãe, minha ex amante. Dario, meu marido, está em viagem de negócios ao exterior, me deixou sozinha aqui na estância por tempo indefinido. Todos os meus esquemas de felicidade (um tanto manipulativos, na verdade) estão se voltando contra mim. Então, não se passou meia hora sem que eu voltasse ao quarto para observar a minha jovem hóspede em seu sono. Sim, exausta pelas emoções de sua aventura e de nosso encontro, ela estava profundamente adormecida, com o semblante relaxado, plácido como o de uma criança no berço. E eu fiquei longamente contemplando-a. 26 “Como é bela!” eu pensei. “Como vou te amar! Sim, com cuidado, para não te machucar... Para não te machucares ao também me amares...” Enquanto esperava a adolescente acordar, o que me pareceu um longo tempo, me senti inspirada e pus-me a escrever estes sonetos sobre o tema do Tempo, que me vieram todos assim, encadeados: O Tempo Suspenso (de Alma Welt) Quisera suspender do Tempo o curso Tal como implorava Lamartine * No seu lago feliz, mas sem discurso,* Que tempo não há que não termine. Mas enquanto ele corre, que agonia! Passa o tempo e nele a juventude E com ela o próprio sonho que me guia E que acalentei enquanto pude. Mas se velha eu ficar, do que duvido, Possa alguém, um poeta, dedicar A esta Alma um poema nunca lido Mas feito para mim em minha velhice Como o soneto famoso de Ronsard * Às rosas e ao Tempo, e que este ouvisse... _______________________________ 27 O tempo presente (de Alma Welt) O Tempo que nos cabe é o presente, Fugidio como peixe ensaboado Que escapa-nos dos dedos de repente E ficamos para ele no passado. Ele deixa-nos pra trás sem mais delongas Sonhando com o tempo do Afonsinho De gregárias calendas de milongas Num qualquer saudoso Bar do Minho Onde um luso de bigodes como um muro Servindo pinga e não água corrente A nossa boemia fomentava... E como éramos felizes no presente Daquele tempo repleto de futuro, A sonhar com quase tudo que calhava! 28 As orelhas do Tempo (de Alma Welt) As orelhas são fixas no Tempo * E crescemos entre elas, diz a lenda, Desde que não haja contratempo E enviemos uma de encomenda * Para as terras de Gog e de Magog * Onde nascem os pintores e poetas Que antes escolhem as suas metas Pra ser feliz depois, como Van Gogh. * Bah! Todo o nosso criar é surreal Já que nada leva a crer tanta loucura De morrer por "um pedaço de pintura"...* Mas só quem pinta sabe do que falo E, numa tela, persegue o ideal Seja em grossa pasta ou meio ralo... * . 29 Oração ao Tempo (de Alma Welt) Que meu tempo não seja só a espera De conclusões ainda que felizes, Nem o da caçada de uma fera, Sem a fera, ou só levante de perdizes... Que não seja mero jogo, desfastios, Muito menos o de mil cartas marcadas, Ou daqueles que ficaram a ver navios E do ônibus a espera nas calçadas. Que meu tempo não tenha sido em vão Ou somente aperitivo pra Saturno Enquanto o deus aguarda o seu filão. Mas que seja eu mesma a iguaria Enquanto avança Cronos por seu turno, Pra devorar a mim e à minha Poesia... 30 Meu pequeno relógio (de Alma Welt) Um reloginho ganhei quando guria De ouro, um mimo, com ponteiros Que me fascinavam, de certeiros, Mas o tempo, neles não corria... Como eram lentos os ponteirinhos! Como o tempo era longo, e a vida, enfim... Era difícil maturar aqueles vinhos Nas garrafas reservadas para mim. Então eu disse ao pai: "Me deste o Tempo Ele agora me poupa à revelia, Preciso que me dês um contratempo". Rindo, meu pai, então, seu mimo retirou: "És impaciente, e eu não sabia, Mas foi a vida que até hoje te poupou..." 31 A Senhora do Tempo (de Alma Welt) Meus amores finalmente hão de voltar Mesmo a terra estando pobre, devastada, Se eu não tiver senão minha morada: Esta casa, o jardim e o meu pomar... Sou a senhora do tempo que foi meu Pois que o dominei com minhas palavras Em noites claras e outras como breu, Em versos, minhas verdadeiras lavras. O vinhedo? Esse foi-se com os ventos Após tantas vindimas de alegria Deixando agora gestos bem mais lentos... Mas não lamento nada, que amei tanto E plantei minha semente de poesia No lugar das uvas secas e do pranto... 32 Mais Palavras ao Vento (de Alma Welt) Vento, há muito tempo não te imploro Que me leves daqui para os teus pagos Pois o Tempo já não ouve quando choro E a ele não seduzem meus afagos. Então ponho-me nua ante os espelhos E peço que me dêem mais uns anos Ao menos pelos meus pêlos vermelhos, * Que a estes não pertencem meus enganos...* Ó Tempo, ó espelhos, ó meu Vento! Revelai-me a essência do momento Num acordo que o meu destino sele, Que nada mais almejo, só mais prazo, Já que a cada rima mais me atraso Para o Verso fatal que me revele... 33 Tempo e coração (de Alma Welt) Ó Tempo, desfila em minha varanda Mas não me transforma o coração Que permanece de guria e pouco anda Me mantendo sentadinha na estação A esperar o trem das novidades Como se o mundo só mudasse alhures E eu, aqui, na espera e nas saudades, Que dessa nem espero que me cures... Mas, coração, passageiro ensimesmado, Liberta os olhos de passadas águas, Que não passas d'um narciso debruçado, E deixa-me ir ao léu com o trenzinho Às terras onde nem existem mágoas, Nem é mais verde o pasto do vizinho... 34 Encontro com o Tempo (de Alma Welt) Na coxilha com o Tempo me encontrei, Muito velho a andar com firme passo E com tanto domínio de sua lei Que não me atrevi a dar-lhe o braço. A barba branca até o tornozelo Lhe dava um tal aspecto bizarro (mas não de sujeira ou desmazelo, que nessa bizarria não me amarro)... Mas, confesso, um tanto temerosa Saudei o velho andarilho com respeito Sem saber se o fiz em verso ou prosa. “Tão gulosa tua quota devoraste”- Disse o velho com o dedo no meu peito- “Que a ti mesma para trás deixaste...” 35 Pequena Ode ao Tempo (de Alma Welt) Tenhamos reverência pelo Tempo Já que ele respeita o nosso passo Tão desigual em meio a contratempo, Infortúnio ou só mudança de compasso. Ele é o Senhor, é o Maestro autoritário Todavia mesmo às vezes paternal, Conquanto passível de humor vário E quase sempre inflexível no final.. . Sabei, senhores: o Tempo é mesmo Deus Que o Verbo conjugou, nos complicando, Ao criar a Nostalgia e o Adeus. Mas o Presente é Seu fluxo visível, O Futuro imprevisível retardando E tornando o Amor, mesmo, possível... 36 Na viagem de minha vida (de Alma Welt) Na viagem de minha vida solitária Tenho todo o tempo pra sonhar, Mas sento-me à janela, que, contrária, Busca distrair o meu olhar. Assim vejo a mim mesma contra o fundo De um cenário mutável e veloz Que é o retrato dinâmico do mundo Transformado em filme como nós Que custamos a entender as tramas várias, Confundidos com o nosso personagem Em tomadas assim fragmentárias Que é preciso editar para entender O sentido linear e a mensagem Que somente o Diretor logra saber... 37 Outrora caminhei de Alma Welt) Outrora caminhei sobre um jardim De flores densamente alcatifado, Em que cores e perfumes, para mim, Eram meu próprio corpo projetado. Pois criança, estendia meus limites, Já que as doces coisas tão queridas Me cercavam lançando seus convites Confundindo-me à suas próprias vidas. Crescer foi um processo, para mim, Doloroso, do cortar de mil gavinhas Como orquídea transplantada de xaxim. E me vejo exilada do jardim Qual de um mágico buquê dessas florinhas, Como ervas são podadas, se daninhas. 38 Volto ao pomar (de Alma Welt) Volto ao pomar da minha infância Lembrada qual se fosse a Grande Era, Comovida com os ecos à distância Que a própria memória reverbera. Caminho ao redor da macieira Como outrora, com a mesma sensação De ouvir mais claro o sopro e o coração, Junto às raízes em que estou inteira. E confiro junto ao tronco e suas folhas, Do meu destino o preço e a missão, Pedindo só ao Tempo: “Não me tolhas,” “Me deixa completar a minha sina Seguindo do meu ser a inclinação Como a semente ao fruto se destina!” 39 Sob o cone de luz (de Alma Welt) Sob o cone de luz, que me deslumbra, Cercada do bailar dos filamentos, Dissipo no Tempo meus momentos E sinto a alma sair de sua penumbra. E vejo-me a mim, melhor, me sinto Neste turbilhão tão silencioso Cintilante, como em tela às vezes pinto O espaço ideal, com tanto gozo. E é claro, para mim, esse sentido Do surgir, e após o brilho pressentido Mergulhar no Nada, novamente, Numa eterna dança coruscante, Que consola meu corpo e minha mente Com ser eterna, e bela, num instante. 40 Quando chegar ( de Alma Welt) Quando chegar o meu momento Quero olhar a vida num relance E vê-la inteira, sem tormento, Polida, completa, ao meu alcance Como em mármore, escultura acabada, Obra-prima que por ser assim perfeita Merece a atenção, que nela deita, E repousa na beleza, apaziguada. Pois que Vida e arte, uma só Visão, tarefa, obra, sai da alma E dura como se não fosse pó. Assim ludibriamos nossa morte E sentimos como a vida então se acalma Por um tempo bem maior que a nossa sorte. 41 As horas voam (de Alma Welt) As horas voam, é o que elas fazem, Ou então cavalgam os cometas, Não param, e no tempo se desfazem Não antes de pedir que não te metas. São senhoras sérias e apressadas Talvez por serem filhas de um atleta, O Tempo de larguíssimas passadas Só tem tempo para a sua predileta, A temporã, que te vê e se emociona, A única que ainda se debruça E ouve teus lamentos de chorona. E então vês que a vida é fictícia E já não tens teu ursinho de pelúcia, Não tens mais as horas de delícia... 42 Ananke (de Alma Welt) Eu vi o grande fuso do Destino Atravessando o céu e a terra num cilindro De luz, bobinando lento e lindo Das três Parcas aquele fio tão fino. Passado, Presente e Futuro Eu vi de uma só vez nesse momento E com o mesmo olhar ainda perduro Perplexa, com o mesmo sentimento, Pois tive do Mistério a vertigem Por fração do Tempo eternizada E vi do Edifício a fachada, Embora o alicerce ou sua origem Permaneça na alma ainda virgem E a razão de tudo, intocada. 43 Nightmare (de Alma Welt) Acordo nesta cama em que estou, Assustada, em plena madrugada, E logo me dou conta, espantada, Que um silêncio fundo me acordou. Nem um latido ao longe, nem um galo Nem o cri-cri dos grilos que são gratos Quando anunciam chuva, nem os sapos, Tampouco o Tempo escoando pelo ralo. E esse silêncio atroz me desespera Pois deve ser o mesmo dentro a tampa Fechada do caixão que nos espera E corro ao espelho, apavorada, Por um segundo antevendo minha campa Sobre minha bela face descorada. 44 Sinopse (de Alma Welt) Os poentes me devolvem a guria Reverente e humilde finalmente, E preciso contemplá-los todo dia Para ter um parâmetro na mente. Testemunho de Deus em ato puro Para nós se agraciados pela fé, Para outros é o sol atrás do muro Do horizonte como onda de maré. Mas para mim é o ciclo eterno, Ou da vida abreviada trajetória De sua primavera ao seu inverno: Se morro todo dia também nasço, Como uma sinopse da estória Cujo tema é só o Tempo-Espaço... 45 A Jornada ( de Alma Welt) A quem agradecer tanta beleza? A Deus, ao Cosmo, à Mãe Natura, Ou ao Tempo que a todos nos matura Pra ceifar-nos logo, com crueza? Acabamos de aprender alguma cousa, E depois de tantos erros e erratas Estamos aptos a escrever na lousa, Que afinal será um nome e duas datas. Mas se a vida foi bem desfrutada E co’a sabedoria estamos quites Pelo menos já fruímos a jornada Que terá sido tão bela de se ver... E a verdade é a beleza, disse Keats, * Era tudo o que havia pra saber. 46 O Eterno Retorno (de Alma Welt) Às vezes ser mais simples eu quisera, E viver sem questionar o tempo e o ser, A razão de se viver e essa quimera Que nos exige trabalhar para viver, E buscar ser feliz a todo custo, Mesmo contra a nossa própria mente A recordar a dor, o medo e o susto De ver tudo perdido de repente... Mas perdido o quê, além da vida, Que pelo que se espera lá no fim Infelizmente já é coisa resolvida? Talvez viver seja somente procurar Voltar ao par que fomos no jardim, Bem antes deste mundo começar... 47 Confusão (de Alma Welt) De muito longe no tempo vem minh’alma, Assim como as mais puras dentre vós Que recordamos a raíz do nosso trauma Co’a confusão lingüística da voz... Mas Deus alternativa oferecia Além do aprendizado desses códigos: O dom maior da Música e Poesia E da boa acolhida aos filhos pródigos. Desculpai-me a confusão, por minha vez, Que muitos acham só insensatez Eu assim misturar temas e conceitos. Mas creio estar tudo interligado, E o Retorno ao Paraíso, programado, A charrua abandonando e nossos eitos. 48 Alma Frankenstein (de Alma Welt) Que posso eu, vã poeta deste Pampa Fazer em relação ao triste Mundo, Que é o lado sombrio que destampa A caixa de Pandora que é, no fundo? O Olimpo éramos nós, ou Paraíso, Num tempo que perdemos por maldade; O abismo que cavamos, mal juízo Que fizemos de nossa deidade... Querer mais... da humanidade a maldição, Fagulha a nós legada por aquele Prometeu, de quem somos a metade. Qual Frankenstein, somos filhos da Razão Que nos deu a solidão, a mesma dele, Desterrado de toda sociedade... 49 Alef (de Alma Welt) E me vi num espaço de alforria Onde antes corria aquele vento Ou rio do meu próprio pensamento, Que há tempos a Morte perseguia. E eis que o Tempo cessa por encanto E me sinto de repente em plenitude No cenário da minha juventude, E dessa memória guardo o espanto. Quão belo é o hiato que me acalma E faz ver o equilíbrio delicado A que o homem precisa dar a palma! Essa zona de silêncio em meio ao prado É um Alef sublime, e tudo é uno: A alma e seu amor, o fogo e o fumo... 50 O Poeta e o levante (de Alma Welt) Através dos milênios à porfia, Carrega o poeta a sua tocha, E o tão sagrado fogo da Poesia Pesado vai ficando, como rocha. A solidão aumenta a cada século, Que, nós, milênios dentro carregamos, Que ser poeta é ser como um espéculo Da espécie que o saber e dor herdamos. Que importa se o tempo nos compreende! A missão é passar o fogo adiante, Um poeta com outro só se entende Desde o nadir do ser, de trás pra diante, Como esgarçada malha que se estende, A esperar de nós nosso levante... 51 O rio (de Alma Welt) Atirados na corrente sempre fomos Em que nos debatemos e bradamos; O rio em que nascendo mergulhamos Ainda é o mesmo desde Cronos, E não como o Heráclito dizia Que nunca é o mesmo para nós; O Tempo para o homem não sorria Na aurora e tampouco logo após, E ínclito, impávido, inclemente Como rio real, e não da mente, Passa sem levar-nos em questão, Pois o que é uma folha que navega Ou um pequeno galho que se entrega Se levados vamos todos de roldão?... 52 O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt) Não digo adeus às coisas tão amadas Que me acompanharam nesta vida, Como o canto das aves nas ramadas Ou as cores que me põem embevecida Dos poentes que me fazem ver o além E descortinam a glória que teremos, Quando não diremos mais “amém”, Mas seremos já o que nós vemos, Integrados no Mundo e no Devir, Sóis, espaço-tempo, eternidade, Ou só um cometa em sua saudade Na viagem solitária, extrema em si, Durante a longa jornada a se esvair, Para voltar ao lar, que é mesmo aqui... 53 Antípodas (de Alma Welt) Para ser a Alma mesma que me cabe Devo cantar somente ou versejar Acordar em ser e êxtase de amar Para viver como se nada nunca acabe. Todavia aquele espectro soturno Teima em me seguir e acompanhar Mesmo quando é dia e não seu turno, Que é da noite seu tempo e seu lugar. Mas eu sei que os polos se entrelaçam E para um deles ser, o outro oponho, Que sozinhos ambos doem e ameaçam. E o mistério de viver nisto consiste: Estar no mundo e saber que tudo é sonho, O mundo é belo, e de verdade... nem existe. 54 Dúbios domingos (de Alma Welt) Tenho com os domingos dúbia liga Pois embora ensolarados em essência Me fazem ver do Tempo a vã carência E a tal fugacidade, ó minha amiga. A contagem domingueira se revela Ultimamente regressiva e voraz Embora eu seja jovem, viva e bela, Já me vejo saudosa a olhar pra trás. Eis que me sinto assim contemplativa, Que nunca fui alguém que muito chore, E me ponho a vagar como uma diva A colher florzitas como a Core No seio claro desta natureza viva Antes que o escuro solo me devore. 55 O passatempo das horas (de Alma Welt) Para escapar às tentações do tédio Não aceito nenhum jogo de baralho, Nenhum de tabuleiro ou o borralho Dos sentimentos e do raciocínio médio. Em matéria de cartas só respeito As da cigana com seu pacto astral Ou aquelas que exigem muito peito Como as do Rôdo em seu pôquer marginal. Mas servil, vejo o passar das horas Como um mordomo que exige as atenções A elas porque são grandes senhoras Que preferem o soprano da poesia Que lhes é apresentada nos salões Onde o próprio Tempo se enfastia. 56 CAPÍTULO SEGUNDO Tempestade à vista Procurei Matilde no seu quarto de paredes recobertas de santos, crucifixos, e altarezinhos improvisados. E velas, muitas velas permanentemente acesas, e aquele cheiro característico de sacristia. Ela interrompeu um terço que desfiava e interrogou-me com os olhos, antes de perguntar: -A guria já foi embora? Galdério já a levou à estação, como o mandei preparar a charrete? -Não, Má, ela está dormindo em minha cama, mas assim que acordar chamarei o Galdo, não te preocupes... Eu disse isso esperando que a guria dormisse muito, muitas horas... (que sei eu?). Por quê? Para quê Para esquentar os meus lençóis e deixar o seu aroma, seu perfume? Eu me desentendia... estava na fronteira de sensações desencontradas. 57 Fui para o escritório, para a grande biblioteca do meu Vati e sentei ao seu piano, seu grande Steinway negro e toquei, depois de muito tempo que não o fazia, um prelúdio de Chopin, quase esquecido por mim, o da “Gota d’Água”, e senti que o gotejar das notas era o do destino me preparando para algo, para o desconhecido... de mim mesma. ______________________________________ Naturalmente, ou não, Natalia foi ficando, sob o pretexto de me entrevistar para um tcc de sua Faculdade, que na verdade não batia com a sua idade confessada, mas ao que fiz vista grossa, como se fosse possível ela estar concluindo uma faculdade. Na verdade, se a guria mentia, eu já era sua cúmplice, em minha fraqueza diante da tentação que ela representava ao meu espírito, ou ao meu coração. Ou ao meu corpo mesmo... Sim, eu passeava com ela todas as manhãs, pelo jardim, pelo bosque e pelo pomar em que a apresentei à Ara dos Pampas, minha macieira sagrada da infância, que ela me pediu ver, logo no primeiro dia. Ela estendeu o braço e tateou emocionadamente o coração cicatrizado no 58 tronco com as iniciais de minha tríade: ARA (Alma, Rodo, Aline), que ela parecia já longamente cultuar. Não, eu não mais a deixei voltar ao meu leito nem para dormir sozinha como fiz no primeiro dia, e a fiz ocupar o quarto de hóspedes. Eu apenas fruía, inocentemente ou não, de sua companhia e da contemplação de sua juventude e beleza. Com isso vários dias se passaram deliciosamente para nós, dando tempo para, longe daqui, se formar a tempestade. Em Florianópolis, os pais de Natália, alarmados, desesperados mesmo, com o sumiço da filha, sem pistas, pois os amigos e colegas de primeiro ano de faculdade de Natália, por incrível que pareça, também não as tinham, resolveram contratar um detetive particular, que foi logo dizendo que, na falta do celular, que a guria levara consigo, era preciso entrar no notebook dela. E com a permissão dos pais, e uma habilidosa descoberta da senha, foi muito fácil rastrear os caminhos, as navegações pelos blogs de uma certa escritora e poetisa chamada Alma Welt e depois o perfil falso no facebook com que Natalia acompanhava e comentava com entusiasmo e admiração de fã 59 incondicional, as minhas postagens, há mais de um ano. O detetive, também descobriu meio escondidos no quarto de Natália, todos os meus livros publicados até então, alguns com anotações e pontos de exclamação a lápis. Logo fez um relatório com a conclusão correta de que a garota fugira de casa para encontrar a escritora de sua admiração, e imediatamente começou uma pesquisa sobre a minha vida, que como vocês podem imaginar, estarreceria aqueles pais moralmente ultra-conservadores. Na verdade os dados mais abundantes e verdadeiros eles descobriram no meu romance autobiográfico e confessional, totalmente verdadeiro, a saga-trilogia A Herança, onde desnudei corpo e alma como poucos escritores já o fizeram na História. O detetive e a mãe de Natália leram meus livros pela rama e em diagonal, mas se detiveram, em particular, no capítulo do meu julgamento em tribunal de Juri, e não tardaram a concluir que, na lista de meus “crimes” agora não faltaria o de transvio de inocentes e de “pedofilia”. E os pais se preparam para resgatar sua filha das garras de uma escritora talentosa, mas “diabólica”... 60 Como eu já mencionei, Natália queria que eu lhe mostrasse todos os pontos e recantos da propriedade e eu já até apresentara a ela o mais sagrado para mim, a macieira, a Ara, do meu pomar, mas eu estava evitando levá-la ao meu “Poço da cascata”, onde sempre me banhei, invariavelmente nua, mais um hábito de sensualidade e liberdade, do que um ritual. Justamente por isso eu não a tinha levado até aquele dia, em que ela insistiu tanto que a levasse a conhecer o decantado pequeno lago cristalino, cujas águas estranhamente plácidas, a uma certa distância da cascatinha não escondiam a nudez. Tanto Natalia insistiu, rogou e me prometeu obedecer qualquer comando, que eu, finalmente cedi e a levei lá para “reconhecer” ou conferir com o imaginário das suas devotadas leituras. Ali chegando, ela imediatamente me pediu que me despisse e me banhasse nua junto com ela como eu fizera com a minha Doutora Jensen e contara no meu último romance. Mas eu resisti em parte e não caí na sua perigosa armadilha: me desnudei em sua frente e entrei na água, mas proibindo que ela me imitasse, e ordenei que 61 entrasse de calcinha e soutien, o que na verdade me foi estranho exigir pois me senti um tanto hipócrita e até covarde. Ela me obedeceu, mas devo mencionar que seus olhos se arregalaram diante da minha nudez branca e desmesurada, que ela mais tarde descreveu como “deslumbrante”. Sim, eu, de certa forma, caíra na armadilha, dando margem a que futuramente me acusassem de sedução e aliciamento... Após banhar-me nadando um pouco e mergulhando como uma sereia ou mais apropriadamente, uma iara, tive que sair e dirigir-me às minhas roupas que ela, saída primeiro, travessamente colheu no chão e escondeu atrás de si, se afastando para mais tempo me ver nua, me devorando com os olhos, a ponto de eu ter um pequeno movimento de súbito pudor cobrindo minha vagina levemente rosada com a mão direita enquanto o braço esquerdo tentava cobrir os meus seios, de bicos igualmente rosados. Sim, pela primeira vez na minha vida eu tentei cobrir minha nudez... e pior: não por vergonha, mas por medo. Depois de ter que persegui-la um pouco na praiazinha de cascalho, e lutar nua pelas minhas roupas, o que me deixou quase furiosa, meu 62 semblante fechado a intimidou e ela as entregou e se limitou a observar-me, enigmaticamente, a vestir-me às pressas, como para apagar alguma coisa escusa... pela primeira vez em minha vida. Quanto à sua radiosa beleza adolescente, percebida por mim, mesmo semi-vestida de absurdos calcinha e soutien ”obrigatórios” por alguma suposta lei, eu tentava obliterar da minha mente em conflito... essa é que era a verdade! __________________________________ Voltamos para casa em silêncio, e eu, um tanto zangada e confusa, ainda antes de chegarmos, lhe disse: -Natália, chega de passeios e visitas, turísticas ou de peregrinação, seja lá do que forem. Chega! Tu disseste que veio me entrevistar como a escritora escolhida para o teu TCC. Vamos começar a fazer isso agora mesmo ou nunca mais, e te despacho com o Galdério, no automóvel até a estação, para ser mais depressa do que com a charrete. 63 Natália fez que sim com um movimento triplo e rápido com a cabeça, que me pareceu levemente cínico, ou ainda “travesso”. Aquela guria iria me dar trabalho, eu pressenti... De volta no casarão eu a levei direto ao escritório e biblioteca e a fiz sentar-se numa cadeira simples enquanto eu me sentava na cadeira de meu pai na sua mesa de trabalho. E comandei: -Natália, faça as tuas perguntas. Comece! Ela retirou um caderninho (e uma caneta bic) de sua mochila, e fingindo consultá-lo, perguntou: - Alma, quantos amantes tu já tiveste na tua vida até hoje, além de Aline e Rodo, teu irmão? Eu fiquei perplexa, e logo furiosa: - O quê? Essa é uma pergunta que se faça para um TCC? Estás brincando comigo? Aonde queres chegar, guria atrevida? Não vieste saber como nasce minha literatura, suas 64 características, suas fontes e segredos, etc? Queres perpetuar intrigas mundanas, é isso que queres? Eu disse isso furiosa, mas mais comigo mesma, pois aquela garota estava expondo uma espécie de hipocrisia que até então eu desconhecia em mim. Tanto mais que, perguntas assim seriam legítimas, pois meus amores e amantes de uma vida, todos, eram o manancial mesmo da minha literatura, da minha poesia. Aquela guria era sagaz e, nada inocente... Eu estava perdida. ________________________________ 65 CAPÍTULO TERCEIRO O Resgate Como seria de se esperar, os pais de Natália, Doutor Ciro e sua esposa Dona Cíntia, chegaram de carro na minha Santa Gertrudes, acompanhados por seu advogado, os três com feições sérias e até fechadas, e os recebi na varanda. Convidei-os a entrar e se sentarem na Biblioteca-escritório de meu Vati e, hospitaleiramente, ofereci bebidas a eles, que recusaram friamente. Logo expuseram sua indignação, perguntando por sua filha, e por sua integridade. Dona Cíntia foi a primeira a falar: - Dona Alma, és casada, pois não? Posso saber onde está o teu marido, e por quê minha filha, menor de idade, se encontra em tua casa, aqui tão longe de tudo. Onde está ela? Queremos vê- la imediatamente! 66 Antes que eu pudesse responder, o advogado, Doutor Jair, irrompeu, dizendo: -Dona Alma, a senhora, pessoa culta que é, e adulta, embora pareça surpreendentemente jovem, sabe que está cometendo um crime acolhendo uma menor de idade fugitiva de casa, sem ter comunicado imediatamente a polícia e a família, não sabe? Meus olhos marejaram, mas eu tentei continuar ostentando serenidade e firmeza. Na verdade eu estava envergonhada da minha fraqueza e imaturidade. Respondi: -Sim, doutor, eu sei, não tenho desculpas quanto a isso, a não ser que a guria me enrolou ou eu me deixei enrolar, por vaidade, talvez... Ela é muito inteligente e encantadora e parece conhecer a minha vida inteira, além da minha obra. E me surpreendeu. Mas não tenho desculpa por tê-la acolhido e não ter comunicado a sua família imediatamente. Vou chamá-la, por favor, aguardem aqui. 67 Minha franqueza e naturalidade diante das circunstâncias parece tê-los desconcertado um pouco, mas permaneceram ali enquanto fui procurar Natália. Ela estava em seu quarto, sentada no chão encolhida, tremendo. E irrompeu em lágrimas. Não sei se de vergonha ou raiva. Eu segurei sua mão, a fiz levantar-se e a conduzi pelo pulso até a biblioteca, onde sua mãe, que já a esperava de pé, a abraçou fortemente, em alvoroço e lágrimas, como a uma seqüestrada recém libertada. Ela exclamava: -Minha filha, estás bem? Não te fizeram mal? Ela não te tocou? (e segurava entre as mãos, convulsivamente, o rosto de Natalia). Então (ai de mim!), Natália a afastou firme mente e proclamou; - Mãe, eu me tornei amante da Alma. Estou apaixonada, ela me ama, e eu a ela. Nós somos felizes e durmo com ela. Vejam a nossa beleza juntas! 68 Natália estendia, a todos, um vídeo de seu celular ligado, mostrando-me nua, frontal (não sei como não percebi) e de costas, no poço da cascata, e ao seu “selfie” de seios desnudos enquanto eu mergulhava. Ela me enganara!Traíra os meus fracos escrúpulos e minha hipocrisia! Ela me atirava aos lobos!... A vista se me escureceu... e, desmaiei. ________________________________ 69 PÍTULO QUARTO O Processo Eu soube, no dia seguinte, quando me restabeleci do choque de realidade, que os pais de Natália e o advogado explicaram a ela a gravidade de minha situação criminal e jurídica, e a convenceram a abandonar-me para regressar com eles à sua casa em Florianópolis. Em seguida instauraram um processo contra mim, por sedução, aliciamento de menor e pedofilia (!!!). Por minha vez, eu estava chocada com a reação de Natalia, que na sua imaturidade, pensava não ter mentido e me traído, mas sim afirmado valentemente o seu amor (ou paixão), obsessão adolescente, na verdade das mais perigosas. Eu ia me tornar a protagonista de mais um escândalo, e desta vez pensava em meu marido, o Dario e meus sobrinhos que já eram também quase adolescentes, e sobretudo na Patricia, já uma mocinha, mas que continuava um anjo de 70 candura. Eu temia chocá-la, desencantá-la de mim e do seu mundo ideal. Ultimamente, quem vem pela estrada, numa elevação da coxilha, ao pé das Colina dos Mortos, nosso cemitério particular, avista a Casa dos Welt, o “casarão dos boches” (nas más línguas), e aponta o dedo como a grande toca de uma bela feiticeira ruiva, sem idade, eternamente jovem que a habita desde o tempos farroupilhas, quando a casa hospedou Anita e Giuseppe Garibaldi que foram seduzidos pela feiticeira e formaram um triângulo amoroso que não se desfez mais. Os fantasmas do casal de heróis ainda vagam pelo casarão (dizem eles) e são invocados pela poetisa feiticeira que seduz homens e mulheres que, por alguma razão, de beleza, talento, ou coragem, são atraídos por aquela casa. Eu me divertiria com estes Mitos, que na verdade contribuí para serem criados, se não 71 fossem os perigos que eu agora percebia, se acumulando, de conspirações e calúnias, de inveja e maledicências, de cobiça e desejos lúbricos ocultos. Quando meus amados voltaram, sem ainda nada saberem dos últimos acontecimentos por aqui, me encontraram como um fantasma, vagando descabelada, de camisola, falando sozinha, ensaiando alto minha defesa diante de um invisível juiz, que se confundia com um padre ou o Deus-Pai mesmo. Pensaram imediatamente em me internar, pois eu não conseguia explicar coerentemente a encrenca em que me metera. Passaram-se muitos dias ou meses, não sei, enquanto o meu fiel advogado, mais uma vez deliciado com o que ele chamava “meus processos de beleza”, estudava a minha defesa, que na verdade estava difícil pela ausência de testemunhas, tendo apenas a minha palavra a meu favor, como inocente da acusação de aliciamento e pedofilia, contra a da suposta vítima que eu temia fosse arrolada como 72 depoente, que certamente, por orgulho juvenil, confirmaria em juízo o seu falso testemunho para constar na História como uma jubilosa última amante da Poetisa do Pampa. Deus me perdoe!... Naqueles dias estava muito difícil disfarçar a minha preocupação. Eu percebia o risco que eu corria, com a minha fama de “Casanova de saias”, como me tachou o promotor do meu primeiro julgamento como ré no caso do suposto seqüestro dos meus sobrinhos, caso que nada tinha a ver com minha vida amorosa, e que narrei no meu primeiro romance autobiográfico, A HERANÇA: O Sangue da Terra, publicado em 2022, e depois sucesso mundial, na sua versão em inglês, THE HERITAGE: The Blood of the Earth, publicado em 2024. Finalmente, foi marcado o dia do meu julgamento e meu advogado, o Dr.Loredano, estava animadíssimo, como se fosse uma festa. Eu, insegura, como se estivesse andando no fio de uma navalha, já mirando o abismo. Afinal, minha liberdade e felicidade estavam em jogo, 73 pois minha insegurança tinha fundo real no fato de que eu, na verdade me sentia culpada, pois fantasiara por momentos quase ocultos de mim mesma, uma relação amorosa e, por que não confessar: sexual, no meu leito, com a ninfeta, a Lolita da minha desgraça... ___________________________________ Quando eu era guria, havia uma vizinha estancieira velha que explorava os seus empregados. Falecidos os meus avós, meu pai passou a pagar melhores salários aos nossos "gáltchos", acima dos praticados nas estâncias vizinhas, o que provocou uma corrida ao nosso casarão. Alguns peões abandonavam seus velhos patrões ou vinham escondidos sondar a possibilidade de novo emprego com meu pai, que freqüentemente os dissuadia, por não dar conta de absorvê-los. Então, aquela velha estancieira montada a cavalo veio até diante de nossa varanda, ataviada como um “gáltcho”, de bombachas, botas, esporas e faixa com punhal de prata na cintura, chapéu de barbicacho, aba dobrada na testa. Sem apear-se, com um relho na mão (a outra na cintura) apontou-o para o 74 meu pai (este imponente, nunca me esquecerei, de pé na varanda) e disse-lhe alto: -"Senhor "boche", o senhor está inflacionando os salários e roubando-nos nossos empregados. Isso é contra a lei, pare com isso ou vou à polícia, vou ao governo do Estado se preciso. O senhor está avisado!" Olhei para o meu pai, esperando sua resposta, mas ele, impassível, nada disse. Para meu espanto tocou apenas o chapéu como um cumprimento e ficou vendo a velha se afastar arrogantemente. Eu era pequena e apesar de minha curiosidade, nunca soube o que aconteceu depois, já que meu pai não perdeu nem uma noite de sono, isso eu percebi. Como contornou ele a delicada a situação? Muitos anos mais tarde perguntei diretamente a ele, que tomou um ar distante e disse lentamente: - "Báh! Filha, aqueles foram tempos difíceis, de batalhas e escaramuças... muito sangue correu, mas estabelecemos nosso reino de cidadãos felizes." E piscando-me um olho sorriu para mim, aquele sorriso maravilhoso. 75 Eu agora me lembrava dessa história para colher alento na sabedoria e dignidade de meu pai em momentos difíceis, que segundo me disse um dia, “se rearranjam por si mesmos”, se não perdermos a serenidade. Ah! Lembrava-me também que quando guria eu vivia em lágrimas pela beleza de quase tudo. Uma irmã me chamava de “manteiga derretida”, a outra me abraçava ternamente, condoída. Nenhuma das duas podia realmente me compreender. Minha mãe, a bela Açoriana, abanava a cabeça. Meu pai, o Vati, me observava calado, eu não precisava me preocupar, ele me conhecia... Então, diante dessas lembranças, eu me retomei em brios, resolvida a enfrentar meu julgamento próximo com uma postura inusitada, que era “a da beleza contida em tudo isso”. Essa era a chave: havia beleza em ser julgada por um crime que só cometi em fantasia íntima. “Não há, a rigor, verdadeira injustiça no mundo” disse uma vez um filósofo antigo, e eu iria confessar em público o meu pecado de fantasia amorosa e de renúncia ao amor... por AMOR! Naturalmente eu não revelei a minha decisão a ninguém, muito menos ao meu defensor, o Dr 76 Loredano, fosse lá qual fosse o seu plano de defesa, que ele também sempre me escondia até o desfecho. Com todos os meus amados, de volta, por aqui, eu procurei levar os dias que restavam até o dia do meu julgamento como se nada estivesse acontecendo, mas foi difícil, pois Dario lia jornais na Internet, e as notícias do novo escândalo Alma Welt estavam já em toda parte, inclusive na boca de youtubers, e influenciadores gaúchos, alguns maliciosos e maledicentes, desses que querem botar fogo no circo. Fotos minhas, algumas falsas, apareciam tendo sido colhidas não sei onde, pois meu único retratista autorizado sempre foi o Guilherme de Faria, pintor e poeta paulistano, idoso, que me descobriu em 2001, no meu exílio paulistano e me lançou no mercado editorial brasileiro. Quando afinal chegou o dia do meu julgamento em Tribunal do Juri, em Rosário do Sul, a cidade mais próxima da minha estância, fiquei sabendo que o promotor público designado tinha fama de feroz e impiedoso. Era 77 eu, a ovelha, diziam alguns, que ia para o matadouro. Na véspera do julgamento, fui com Dario e Lucia para Rosário do Sul e nos instalamos no Hotel Areias Brancas, em que havíamos reservado dois quartos. Passei uma noite de cão, com pesadelos estranhos, se não agourentos. Por volta das nove horas eu dava entrada no tribunal com pequena multidão, que já se adensava na calçada, com jornalistas e fotógrafos, verdadeiros “paparazzi” em versão gaúcha, ávidos por escândalos e fotografias da poetisa que já ganhava fama também por escândalos (ai de mim!). O jornal da cidade e seu canal de televisão, já fizera intensa e escandalosa cobertura do novo caso da poetisa estancieira, já famosa, no mínimo por meu julgamento anterior em Novo Hamburgo, alguns anos antes, em que fui absolvida e até aclamada. Agora, ali, se repetia o tumulto, e no empurra- empurra, me separaram de Dario e de Lucia, na ânsia de tocar-me, e no meio de gritos controversos ouvi uma moça gritar: “Alma, me aprisione com você!”, coisa que na hora eu não entendi, mas me perturbou. 78 Na sala do Tribunal o Juiz, togado, já martelava bravamente com seu martelinho de madeira, gritando por silêncio, tal o burburinho que ocorreu à minha entrada. -Silêncio na Sala! (proclamou ele) Vamos proceder ao julgamento da acusada Alma Morgado Welt, por crime de “aliciamento de menor, cárcere privado e pedofilia”. Queira a ré se apresentar. Com a palavra o promotor! Após alguns segundos de perplexidade diante da acusação de “cárcere privado”, que por essa eu não esperava, me dirigi no meu melhor passo, com altivez e dignidade, ao banco dos réus, e olhei em volta toda sala onde se fez um denso silêncio. Meus olhos se encontraram com os de Natália, ali me olhando fixa e enigmaticamente, e senti um calafrio. A guria iria reafirmar sua irresponsável e mentirosa versão perante toda aquela platéia, e ao mundo? ______________________________ Quando eu tinha uns quinze anos, veio passar férias na nossa estância uma prima minha, lá do Vale de Itajaí, da parte da família de minha mãe, Isolda, guria bela e desenvolta, cuja fala cantada, de belíssimo sotaque açoriano, me 79 encantou de saída. Por sua vez, ela se encantou comigo, e assim que nos vimos, na sala, ali diante dos adultos, nos demos as mãos e, saí com ela correndo, para estarmos a sós no jardim e no pomar, e até para lá da porteira, na coxilha, para eu a coroar de flores silvestres, no “ritual de recepção” de meus eleitos. Eu já estava disposta a me apaixonar por minha prima, adolescente como eu, e com a qual faria um pacto de sangue... menstrual, que, pensava eu, duraria para sempre. Estou contando isso, para me lembrar da minha propensão para os extremos da amizade e do amor, que sempre caracterizaram meu temperamento apaixonado, que certamente me levaria na vida a situações extremas e inusitadas. Talvez, mais adiante, eu conte o que ocorreu naquelas férias entre mim e minha prima, o segundo escândalo de minha vida, depois do escândalo primordial muitos anos antes, com meu irmão sob a minha macieira, que tanto me marcou... ______________________________________ 80 No banco dos réus, logo após fazer o juramento solene de dizer “toda a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade” O Juiz perguntou, de praxe: Alma Morgado Welt, conhecida como Alma Welt diante das acusações como te declaras, inocente ou culpada das acusações que lhe estão sendo feitas neste processo. Eu respondi: -Meritíssimo, sinceramente, não sei ainda. O juiz, meio desconcertado, por incrível que pareça, resolveu aceitar a minha resposta inusitada e passou a palavra ao promotor, que imediatamente começou a me inquirir com agressividade contida: -Alma Morgado Welt, pintora, escritora e poeta, de 35 anos de idade, bastante reconhecida, eu diria famosa mesmo, esse é o teu nome? E és casada? - Sim, me chamo Alma Welt, e assim assino minhas obras, agora conhecidas também no exterior. E sou casada. 81 -E a senhora não acrescentou, no plano jurídico, pelo menos, o sobrenome de seu marido, o Sr Dario Dalencastro, por quê? Mais um exercício de liberdade, que a senhora tanto proclama nos seus escritos, sempre memoriais, e, convenhamos, despudorados ? -Protesto! (exclamou meu advogado, Dr. Loredano) - O promotor extrapolou a sua pergunta, e fez ilações arbitrárias à conduta artística de minha cliente. - Protesto concedido! (replicou o juiz). - Senhor Promotor, evite julgamentos sobre a conduta artística da ré, não pertinentes neste julgamento. - Senhorita Alma (continuou o promotor), irei direto ao ponto: Onde estava seu marido, quando a senhora, encontrando a senhorita Natália, de quinze anos apenas, de mochila, em plena campanha gaúcha, a levou para sua casa na estância Santa Gertrudes, sem telefonar imediatamente para os pais dela, cujo endereço e telefone constavam no celular da menor? - Dario, meu marido estava em Porto Alegre, a negócios, onde permaneceu duas semanas. (respondi eu) 82 - E a senhora não comunicou a ele por telefone, ou sequer por e.mail, a presença da menor na casa de vocês. Não é verdade? Por quê? - Nnn... não sei (eu quase balbuciei). Talvez porque me sentisse culpada... (burburinho na platéia) - Culpada de quê? Explique-se, senhora Alma. (o promotor, fechava o cerco com essa pergunta incriminatória, da qual, ele esperava, se seguiria uma confissão de culpa que ele exploraria com contornos escabrosos, certamente. (Eu demorei para responder, pondo a platéia em suspense, mas o promotor aproveitou a brecha e completou, agora num tom enfático e cruel: - Não seria porque a senhora, com sua beleza, dons poéticos e tendência à luxúria lésbica, seduziu e levou a menor direto para o seu leito conjugal, vago no momento, que deveria respeitar, abusando da inocência e da admiração ingênua de uma adolescente, na idade propensa à tietagem artística que a fez ir tão longe casa e da qual a senhora, criminosamente, se aproveitou? 83 (O burburinho aumentou, e ouviram-se até alguns gritos ambíguos. O juiz martelou furiosamente e exclamando: “Silêncio na platéia ou mando esvaziar a sala! Silêncio!” - Protesto ! (gritava o Doutor Loredano,) Antes que eu pudesse responder, o promotor, com um gesto teatral, completou: - Não precisa responder. Os fatos falam por si. Meritíssimo, permita-me conclamar a vítima, menor de idade, mas que, com o consentimento dos pais, predispôs-se a depor. O Juiz disse: - Sim, prossiga! Natália, mais linda que nunca, mas vestida com recato, e com um olhar tímido se levantou de onde estava ao lado dos seus pais, caminhou sob murmúrios da platéia e sentou de olhos baixos no banco das testemunhas. Mas logo ergueu os olhos e encarou a platéia com um ligeiro ar de desafio, me pareceu. -Senhorita Natália, a senhorita tem apenas dezesseis anos de idade, não é mesmo? 84 Natália fez que sim com a cabeça e o promotor prosseguiu: – Como consta dos autos, a senhorita declarou no momento do seu “resgate” por seus pais, na estância mesma, da ré, local do crime, que senhorita foi levada ao leito da criminosa onde foi abusada por uma semana, sem que seus pais desesperados, soubessem onde se encontrava, e tiveram que contratar um detetive particular que habilmente, através de sua página de perfil falso no facebook e nos próprios livros da acusada, localizou, permitindo o seu salvamento, o seu resgate mesmo, pois se tratava de uma espécie de seqüestro, uma retenção falsamente consensual, visto que a senhorita é menor de idade. (O promotor, na sua ânsia condenatória cercava maliciosamente as evidências por todos os lados). - Protesto! (gritou o meu advogado, Doutor Loredano) O promotor não fez uma pergunta e está pondo conclusões na boca de sua testemunha, antes mesmo dela responder. 85 -Protesto concedido (disse o Juiz), Promotor, faça perguntas, não pré-julgamentos, nem induções à depoente. - Sim, desculpe a minha indignação, Meritíssimo...(respondeu o promotor e prosseguiu): -Senhorita Natália, a Senhora Alma levou a senhorita para o seu leito no dia mesmo em que a introduziu na sua casa e vocês dormiram juntas? Fizeram sexo, de algum modo? Foi então, que o inusitado começou a se instalar naquele julgamento. Natália, surpreendentemente, respondeu: - “Não, senhor promotor, ela me encontrou na coxilha, não longe de sua casa para onde eu caminhava em peregrinação de meu amor, de minha devoção à mulher e poetisa maravilhosa que ela é, que cultuei por mais de um ano antes de ter coragem de ir ao seu encontro. E ela me conduziu ao seu próprio leito, pois eu estava exausta de caminhar e de tanta emoção de encontrá-la. Mas ela não se deitou comigo, cobriu-me com uma manta, como uma mãe, fazendo schhhhh com o dedo nos lábios, saiu, fechou a porta e... adormeci. No dia seguinte, 86 me serviu um excelente café da manhã e me instalou no quarto de hóspedes que ela equipou com travesseiros, lençóis e mantas e tudo mais, carinhosamente, e fomos visitar os locais sagrados de suas memórias, romances e poemas... E eu mais a amava, como uma deusa que ela é para mim. Não, ela nunca se deitou comigo, para minha única decepção... Eu queria ser sua amante, sonhei com isso mais de um ano. Não posso traí-la. Estou profundamente arrependida da minha bravata, de desafio aos meus pais, que sei que não poderão compreender e aceitar meu amor pela Alma”. Foi um reboliço na platéia! O promotor não esperava por isso, por uma declaração que praticamente desmontava quase todo o processo, ou invalidava, pelo menos em grande parte, a acusação, sobrando somente o fato da minha irresponsabilidade em não dar parte imediata à família e à polícia, do paradeiro da guria em minha casa. Quanto aos pais de Natália, a suposta vítima, esses estavam perplexos, indignados. A mãe de Natália, a senhora Cíntia, teve até um ligeiro desfalecimento nos braços do marido. 87 Então, aproveitando a reação da platéia, o Doutor Loredano, com seu oportunismo coreográfico, se posso dizer assim, me chamou como testemunha de minha própria defesa, coisa perigosa, mas que por ter dado certo no meu julgamento anterior, arriscou. E eu haveria de pasmar ainda mais, a todos, com o que eu decidira fazer, por minha vez, para não trair minha própria alma. -Alma –inquiriu o doutor Loredano - Como te declaras diante de tudo isso, sim, do testemunho de tua inocência, vindo da própria suposta vítima, de um crime que, na verdade, nunca ocorreu? Que tens a dizer para encerrarmos esse bizarro enredo e mal entendido, provocados pelo amor de uma jovem por seu ídolo, reflexo de sua própria feminilidade imatura, refletida nos encantos da Arte literária de uma grande escritora e poeta a caminho de uma consagração mundial? Eu fiz uns segundos de silêncio antes de responder: - EU ME DECLARO CULPADA! 88 O Tribunal, a platéia, tudo pareceu vir abaixo. Uma perplexidade geral que se transformou rapidamente em tumulto, tomou aquela sala. ______________________________________ Como já me referi àquele episódio dos meus próprios quinze anos com minha prima catarinense, da mesma idade, e nosso pacto menstrual de “irmãs de sangue”, devo esclarecer do que se tratava esse pacto adolescente que inventei a partir da minha menarca, que tanto me impressionou. Naquelas férias, eu convenci minha linda prima, a “açorianinha” como afetuosamente a chamaria anos mais tarde, a realizar um pacto, não como o faziam certas pessoas extremadas, com um corte nas mãos que depois se apertavam trocando sangue numa promessa de amizade e fidelidade eternas, mas entre duas gurias com o sangue das suas menstruações, quando providencialmente reveladas em relativa sincronia, com as mãos passadas nas pequenas vaginas virginais e depois juntadas, num aperto de mão e um toque de dedo de sangue trocado, nos lábios e na testa de cada uma, acompanhados de um juramento solene, quase macabro: “Com esse sangue de nossas 89 entranhas, firmamos o pacto de nossa aliança fraternal eterna. E que a maldição do sangue recaia sobre aquela que primeiro trair este pacto sagrado.” Agora, lembrando-me daquele episódio da minha adolescência, não tive mais vontade de rir, mas de chorar, no meio das circunstâncias dramáticas a que meu temperamento mítico e romântico acabara me conduzindo na vida. Devo também dizer que minha priminha açoriana não tardou a se rebelar e a reagir, tardiamente, com asco, àquele ritual inventado por mim, e nunca mais quis encontrar-me de novo e passar férias na estância da “bela alemãzinha ruiva e porca”. Então ali, naquele Tribunal, diante da minha espantosa confissão de culpa, todos esperavam uma explicação, já que contradizia a confissão de perjúrio inicial da falsa e suposta vítima. E eu me expliquei, comovidamente, em lágrimas: Meritíssimo, senhores advogados, senhoras e senhores presentes... sim, sou culpada porque 90 me apaixonei por Natália, por sua beleza e aparente candura, e intimamente a desejei, sim desejei estar com ela no meu leito, mas não o fiz, mais por covardia do que por escrúpulo. Eu não a toquei, mas desejei ter tocado, e fantasiei intimamente, em devaneios secretos, uma relação íntima e apaixonada. Sou culpada porque sabia que deveria ter telefonado imediatamente para seus pais sobre meu acolhimento, que se tornou suspeito passada a primeira hora. Sim, sou culpada porque a amei, não maternalmente como fiz transparecer, mas mais apaixonadamente como um reencontro da minha própria adolescência carente de amor materno, embora me sobrasse, de sobejo, o amor de meu Vati. Sim, sim, sou culpada de amar, como sempre, desmedidamente, e mais que tudo, de me fazer amar por alguns seres de minha eleição anímica, sem medir as conseqüências de meu desastrado poder de sedução, involuntário no mais das vezes, quase como uma maldição... Deus me perdoe! Caí em lágrimas verdadeiras, tão copiosamente que muitas pessoas naquele recinto, naquela platéia... também caíram em lágrimas. Eu chorava, não de auto-piedade, juro, mas de comoção verdadeira, legítima, comigo mesma e 91 meu Destino excepcional, de artista, de poeta amorosa e de mulher eternamente carente, insaciável de amor para dar e receber, e de beleza, sim da Beleza que, entretanto, nunca me faltara... Natália soluçava, eu percebi, de repente... a mãe, Dona Cíntia chorava, e o pai dela (nunca lembro o nome) cujo olhos também marejavam. E o Promotor, que me olhava desolado, se sentindo derrotado, talvez pela primeira vez na sua vida. E que, por honra do ofício, arrematou: -Senhoras e senhores jurados, diante dessas novas revelações, peço que esqueçam a acusação mais grave, agora desqualificada, e concentrem-se então na irretorquível responsabilidade de acolhimento ilegal de menor fugitiva e da ausência deliberada de comunicação aos pais ou à polícia, que a ré, como adulta não poderia deixar de fazer, deixando os pais, parentes e uma comunidade inteira em desespero por dias, pensando no pior Aconselho que sejam severos com tão grave falta, e prejuízos emocionais de tantos cidadãos. 92 O juiz encerrou os debates e fez um intervalo para esperar o veredicto do Juri, quando todos deixaram a sala e se reuniram no saguão em animado debate, segundo eu soube, alguns ainda enxugando os olhos e suspirando e balançando a mão. Quanto a mim, me sentia esvaziada, mas começando a pensar como a minha vida estava destruída por um erro, uma infantilidade cometida por mim, e a imaginar se poderia viver numa prisão mais de uma noite, como a que eu tinha vivido antes do meu primeiro julgamento, anos atrás. Quando a campainha soou, voltaram todo à sala de julgamento onde eu já me encontrava ao lado do dr Loredano, Lucia e Dario, esperando, dignamente, o veredicto e a sentença que me caberia. -Silêncio no Tribunal! Conclamou alto o Juiz, e enquanto os jurados entravam e sentavam-se, perguntou: - O corpo de jurados chegou a um veredicto? O líder entregou ao oficial o bilhete dobrado em quatro, que o entregou ao Juiz. Este abriu, 93 olhou rapidamente e fez o indefectível suspense de alguns intermináveis segundos, e disse: - A ré levante-se para ouvir o veredicto... Alma Welt, a senhora foi declarada... INOCENTE! Foi uma explosão de abraços e risos, exclamações e suspiros de alívio no tribunal, mas o juiz martelava pedindo silêncio. Quando conseguiu, declarou: -Entretanto, atenção: o júri recomenda uma pena de trabalhos comunitários de noventa dias e uma multa, que estipulo, devido à condição abastada da ré, em um milhão de reais, indo metade aos pais da menor e a outra metade destinada a uma instituição de caridade, à escolha, aqui da nossa Rosário do Sul. O julgamento está encerrado e não cabe recurso devido às grandes atenuantes dispensadas à ré, absolvida da mais grave acusação. Vão todos para casa e que Deus os acompanhe, E deu uma última pequena martelada. ______________________ 94 CAPÍTULO QUINTO A Reação de Dario Após o desfecho inusitado do meu julgamento, Dario, meu marido ideal, ficou muito silencioso e temi que algo tivesse quebrado dentro dele. Preocupada com o perigo de perdê-lo, questionei-o, mas ele me abraçou carinhosamente, dizendo: - “Não, Alma, não estou decepcionado contigo. Creio que te compreendo bem, e foste coerente com o teu coração, como sempre. Eu, é que estive, e estou ainda com medo de estar te perdendo, pois fizeste uma declaração de amor tão profunda por uma adolescente desconhecida, que me perturbou e demorei a perceber que era, na verdade dirigida a um reflexo de tua própria adolescência tardia, de que estás te despedindo. Estás te tornando uma mulher adulta, mas ainda inconformada com isso, e em conflito. Cometeste um erro grave, que fez muita gente sofrer, quiseste pagar por esse erro, e mais uma vez foste perdoada. Mas a mulher que surgir disso tudo, ainda me amará? 95 Porque a Alma que conquistei era ainda aquela do balanço no pomar, que não coube ao meu pobre irmão, que adorava impulsioná-la no ar, porque dizia que era um anjo..”. Ouvindo isso, aninhei-me em lágrimas no peito de meu marido, e agradeci a Deus por não tê-lo perdido com meus desvarios, com minha loucura mansa, com meu tresloucado coração. Não me deterei sobre os noventa dias de trabalho comunitário nos arredores de Rosário do Sul, que tirei de letra, e o pagamento da multa que foi paga generosamente por Rodo, que para isso vendeu sua Ferrari, piscando um olho para mim, me abraçando carinhosamente, e dizendo que queria mesmo trocá-la por uma Lamborghini que cobiçava há muito tempo. Surpreendi-me com a dinheirama que meu amado irmãozinho parecia continuar ganhando com o jogo, e murmurei como a velha mãe de Napoleão quando, lá na sua casinha modesta na Córcega lhe deram a notícia de que seu filho tinha sido coroado imperador da França, disse somente: “Contanto que isso dure...” 96 Depois disso eu resolvi sossegar meu coração e concentrar-me nos trabalhos da vinha, e na qualidade do nosso vinho para que mantivesse a qualidade da safra herdada do nosso avô, a do Ara dos Pampas, cuja fortuna resultante estava se acabando. Resolvi dar um filho nosso mesmo para o meu Dario que queria isso desde sempre, e para isso, depois do sexo eu ficava de cabeça para baixo e bumbum para cima para ajudar seu esperma a descer, e não subir, o que ele achava “engraçadinho”, e dava uma palmadinha nas minhas brancas nádegas que ele amava mais que tudo. Finalmente, depois de um mês, a minha gravidez se confirmou e tomei minha última taça de vinho, compenetrada com a saúde do bebê. A felicidade voltava a reinar na casa dos Welt, e Aline, que voltou de São Paulo com Marco, festejou generosamente minha barriga crescente, aparentemente sem ciúme... minha amada esposinha, mãe de meu primeiro filho, o pequeno Marco, cada dia mais lindo e feliz. Ah! Mas, parafraseando Camões nos Luzíadas: “Estavas, linda Alma, posta em sossego/ De teus anos colhendo doce fruto/ Naquele engano de alma, ledo e cego/ Que a Fortuna não deixa durar muito/ Nos saudosos campos do seu 97 Pampa/ De teus formosos olhos nunca enxuto/ Aos campos ensinando e às coxilhas/ O nome que no peito escrito tinhas...” Mesmo em começo de gravidez eu continuava com meu habito de banhar-me nua no meu “poço da cascata”, desde guria, com meu Rodo ou sozinha. Dario estava novamente em Porto Alegre a negócios e eu naquele dia fatídico estava me despindo na praiazinha de cascalhos quando já nua, ouvi uma risada grosseira e senti uma sombra atrás de mim. Fui agarrada por mãos poderosas e ásperas que me dominaram por mais que eu me debatesse e lutasse, fui colocada de bruços e no solo e penetrada por trás em minha vagina, com violência, sem que sequer eu pudesse ver meu agressor que me mantinha no chão com a munheca em minha nuca. Resfolegando e dizendo obscenidades estuprou-me longamente até meu sangue escorrer. Então passou uma corda pelo meu pescoço e enforcou-me atirando meu copo nu com a ponta do laço amarrada a uma grande pedra, no centro do poço onde água era mais funda. Foi assim que fui morta e achada submersa, horas depois por meus amados Rodo e Galdério. 98 Transcrevo aqui a carta que Lucia escreveu e enviou ao nosso amigo Guilherme de Faria, que me apadrinhara como escritora em São Paulo, durante meu auto-exílio paulistano por conta da morte de meu Vati: “Guilherme A tragédia abateu-se sobre a nossa casa. Alma está morta. Minha pobre irmã matou-se por volta do meio dia de hoje. Esperaram-na para o almoço, e como ela não chegava de suas andanças todos começaram a ficar inquietos, pois ela andava esquisita, novamente, nos últimos dias. Rodo, a doutora Jensen, e Matilde, saíram para procurá-la e percorreram os lugares preferidos dela, o quiosque do jardim, o pomar, o bosque, e até a pradaria em torno da casa. Afinal foram até a cascata. Ali, encontraram o seu vestido branco, sobre a alta margem de pedra do poço, ou piscina da cascata. Ali, pode- se ver de cima a superfície cristalina da piscina natural formada pelas águas que caem na cabeceira do poço, único ponto mais tumultuado. Rodo num ponto mais alto avistou o corpo nu muito branco, de minha irmã, a poucos metros do fundo. E mergulhando retirou uma corda que a prendia a uma pesada pedra, 99 pelo pescoço, para que não subisse. Ele a retirou das águas, gritando, gritando seu nome, em desespero. Ele a colocou na margem e tentou fazer uma respiração boca a boca, mas que era mais um beijo trágico, pois ele desmaiou de dor sobre ela. Ao voltar a si, estava como louco, e está assim até agora, num tal sofrimento, que tememos pela sua vida. Galdério, quase catatônico, de maneira automática e instintiva, paternalmente como costumava fazer quando Alma era pequena ao tirá-la adormecida de sua charrete, pegou seu corpo como estava e veio com ela nua nos seus braços andando pela pradaria em direção ao casarão enquanto a noticia corria, até entrar no salão e depositá-la sobre a grande mesa de jantar. Tudo isso me foi contado por Matilde ao telefone, em meio a um choro convulsivo. Deixei as crianças aos cuidados de Alícia, sem contar a elas o que e estava acontecendo, peguei o carro e dirigi em disparada até a estância. Aqui encontrei minha irmã posta ainda nua sobre a grande mesa da sala. Seu corpo tão branco estava mais lívido ainda, o que fazia com que se parecesse com uma estátua do mais puro mármore de Carrara, tal a beleza que ainda conservava. Tinha somente uma marca circular, 100 avermelhada, ao redor do seu longo pescoço de bailarina. As pessoas da estância, até os peões e suas mulheres já tinham invadido a sala e velavam com enorme reverência seu corpo nu deslumbrante. Nem mesmo a doutora Jensen, arrasada, pediu que a vestissem. Era como se todos sentíssemos que sua nudez era sagrada. Foi então que Matilde suspendeu tal desvario, irrompendo na sala com uma grande toalha de mesa de renda branca na mão, gritando: “Afastem-se da minha guria, seus ímpios! Afastem-se todos, cubram a minha guria!” E lançou a toalha sobre seu branco corpo, amortalhando-a. Começaram então as velas acesas, as novenas e o pranto coletivo. Agora o corpo de minha irmãzinha será levado até Santana do Livramento onde será cremado, como ela queria, para que suas cinzas sejam trazidas de volta e espalhadas ao vento, pelos locais da estância que ela mais amava: as flores do jardim, o pomar, o bosque, a campina ao redor do casarão e o vinhedo. Seu amado pampa será sua morada para sempre. Nossa estância, nossa terra, nunca mais será a mesma. Não sei sequer se sobreviveremos à perda de nossa Alma amada, que era tão bela por dentro quanto por fora. Jamais haverá alguém como 101 ela. Sentimo-nos perdidos, Guilherme, nosso amigo, que a descobriu e amou aí em São Paulo, e que tudo fez para que tivesse um livro seu publicado, e que tanto parece conhecer a alma e o coração precioso de minha irmã. O que mais temo agora é a reação de meus filhos e sobrinhos quando souberem do acontecido. Ai! Não sei o que será deles, que a amam tanto! Reze por nós, meu amigo, pois esta família precisa de orações, pois lágrimas já temos demais! Lucia” A seguir três dias depois Lucia enviou esta nova mensagem para o nosso amigo em São Paulo Guilherme Fiquei estarrecida quando encontrei este soneto. E tive que chorar novamente. Ele evidencia como Alma sabia de sua morte próxima, no dia 20/01/2007, e das circunstâncias de seu velório sobre a mesa de nossa sala, com a vela acesa e os convivas, os trinta e cinco anos fecundos de sua vida. 102 Envio a ti o soneto de premonição, datado do dia 03/01/2007, sobre o inaudito e espantoso velório nu da Alma. (Lucia Welt) Visão (de Alma Welt) Ser a musa eternizada do meu pampa! Cantar, celebrar e endoidecer De tanto amar até saltar a tampa Do coração e da mente, e então morrer! Nua, estranhamente, sobre a mesa Estendida me vejo, uma manhã: Um desfile silencioso me corteja De peões, peonas e algum fã. Mas olho o meu corpo de alabastro, Absurdo e belo ali, e não à toa Eu noto algo nele que destoa: Sobre a alvura do pescoço bailarino Uma faixa vermelha como um rastro Da corda que selou o meu destino... 03/01/2007 103 __________________________________ Então me vi em seguida neste universo paralelo, se posso dizer assim, onde me lembro de tudo e onde retomei a minha vida no ponto em que estava. Apenas não espalharam completamente minhas cinzas, não sei porquê, e colocaram metade delas numa urna enterrada na Colina dos Mortos, o cemitério da nossa família, que mandou fundir uma placa de bronze com meu nome e as duas datas em relevo, 1972-2007, muito gastas, não se sabe por quê, um túmulo que se encontra agora muito abandonado, pois meus amados continuam convivendo comigo nesta dimensão, como se nada tivesse acontecido. Na verdade, não consigo explicar muito bem o que aconteceu, mas coloco aqui a fotografia real do meu túmulo, que salvei um dia ao descobri-lo e que agora nem eu mesma consigo encontrar de novo para cuidar, limpar o mato, as ervas daninhas e deixar minhas flores silvestres prediletas. Eis aqui a foto do meu túmulo, estranhamente maltratado, para quem foi tão amada como eu ainda sou: 104 105 CAPÍTULO SEXTO Este corpo que habito Após nove meses, dei a luz a minha filha com Dario, e meu parto foi meio selvagem, mas belo, pois foi natural, em plena coxilha pampiana, como eu mesma nasci na relva de um acostamento de estrada como já contei algumas vezes. Eu estava sozinha, e pari sem ajuda, sem muito esforço e em seguida carreguei meu bebê junto ao seio por uma centena de metros, após ter cortado o cordão umbilical com os dentes, deixando minha placenta sendo devorada por um lobo-guará faminto, meu conhecido, que eu visitava há anos para alimentar. Cheguei à cozinha do casarão tão coberta de sangue, inclusive na boca, que a Matilde começou a gritar de susto chamando todo mundo, o que resultou num escândalo, pois me tiraram minha bebê por instantes, enquanto eu gritava por ela estendendo os braços, desesperada, e me fizeram deitar sem que eu precisasse, me examinando inteira, à força, inclusive minha vagina muito aberta. Fiquei furiosa por dois 106 dias com a Matilde e com a Lucia que estragaram a beleza selvagem do meu parto, e assustaram muito minha querida Patrícia, adolescente, que, traumatizada com a cena, chegou a dizer que jamais teria um bebê se o parto era uma coisa assim... A verdade é que desmaiei depois disso, deixando todos mais preocupados ainda, mas acordei com a minha bebê, a que dei o nome Zoe, e logo o povo diria Zoé, sugando meu seio farto, cheio de leite, o que me enterneceu, e me deslumbrou, como um “satori” do zen samurai, que me fez entender numa fração de segundo, tudo do mundo e da vida ao mesmo tempo, ou como o “alef” do Borges, de minha memória livresca. Estava tudo certo. Depois de tantas paixões, que agora me pareciam provisórias, eu me sentia completa como mulher, e pronta para defender minha cria como uma leoa, se fosse preciso. Rodo, impressionado, me disse que eu jamais parecera tão linda quanto naquele primeiro ano de minha maternidade, apesar de ter engordado uns quilos e estar com os seios fartos e não pequenos e virginais como pareciam antes, quando eu “dava mais que chuchu na cerca” como dizia picarescamente, “no popular”. 107 Assim transcorreram dois anos no meu universo paralelo em que sobrevivi, e continuei escrevendo sobre a minha vida, que me pareceu sempre a mais interessante de todas as vidas, pois eu me sentia “todas as mulheres do mundo”, porque sobrevivera a muitos atentados ao meu sexo, e até à minha morte por assassinato, após mais um brutal estupro. ___________________________________ Agora, podíamos, eu acreditava, viver um “novo tempo de vinhos e de rosas”, todos pacificados, acalmados nas suas paixões e rivalidades, até mesmo minha cunhada Quitéria, que eu chegara a acreditar ser uma “vampira”, pois na sua paradoxal paixão por mim bebera o meu sangue menstrual, no episódio que contei, sem pudores, no meu romance memorial anterior, publicado, A Ara dos Pampas. Zoé brincava com o seu irmãozinho maior, o Marco, no gramado do jardim, lindinha, com seus cachos loiros e olhos verdes, enquanto Marco com seus lindos cabelos negros e olhos azuis, de sua mãe, fingia fugir dela em giros graciosos. Eu os mirava, felizes, e pensava: “como é belo o ser humano”... Juro que pensava 108 isso, malgrado os percalços e brutalidades por que passara. Mas eis que, nesse momento singelo e pacífico, uma ave voou com estrépito de asas, assustada, e estremeci. Coloquei a mão em aba sobre os olhos e avistei um cavaleiro que se aproximava a passo, mas não um peão gaúcho de bombachas, mas um citadino, de terno e gravata, insólito assim montado, eu diria deslocado mesmo, que de óculos e sem chapéu tocou dois dedos na testa em cumprimento à minha pessoa que, me ergui, rodeada das crianças que pararam com suas brincadeiras e curiosas e inseguras, seguravam minha saia. - Buenas!- disse o cavaleiro, à moda gaúcha, nas sem o nosso sotaque e inflexão, o que soou artificial. Via-se que não era um “gáutcho”, mas um forasteiro, logo identifiquei um paulista, um paulistano de sotaque ligeiramente italianado, que após meu gesto imitativo irônico, de dois dedos na testa disse: -Você é Alma, não? _ Sim, “por supuesto” (brinquei), e tu, quem és? 109 -Sou Rogério, advogado, primo da Aline, e vim a mando da minha tia Maria, para ver como se encontra minha prima, que afirma por carta à sua mãe estar casada e esperando mais um filho de seu marido. Dona Maria me pediu que viesse vê-la e ao seu marido, sem preveni-los, me desculpe... Você poderia me levar até à minha prima, para eu poder cumprir esta missão de apaziguamento das preocupações legítimas de uma mãe em relação à sua filha e aos seus netos? Fiquei imediatamente um tanto perturbada, percebendo que Aline não contara a verdade para sua mãe, por ser impossível explicar para uma senhora italiana tão conservadora e católica, o seu suposto casamento com uma mulher (que era eu) e suas produções independentes, providenciadas com o meu irmão, por mais belos que essas crianças nasciam e eram felizes naquele nosso paraíso estranho, e ao seu ver, totalmente à margem das regras sociais rígidas em que ela baseava a sua visão de mundo. Além disso, eu tomava consciência naquele momento que Aline devia ter mentido em parte 110 à sua mãe, na sua última visita a ela em São Paulo, para pacificá-la, que agora estava casada com o verdadeiro pai de seu filho, Rudolf Welt, o Rodo, homem rico, meu irmão, do qual estava esperando um novo filho. Eu percebi que tinha que aliciar aquele homem jovem, para que sustentasse as nossas meias verdades, embora podendo não ser fácil, pois embora jovem e primo de Aline, ele estava ali como advogado constituído, certamente à procura de provas, como uma certidão de casamento em cartório, e a de filiação do nosso Marco. Conduzi-o, a passo, andando na frente com as crianças, ele desmontado, por cortesia, puxando sua montaria pela rédea, até o casarão onde ele se encontraria com sua prima, mas não com seu suposto marido, o Rodo, que estava na Europa na sua ronda dos cassinos, como sempre, e sua profissão, afinal... Aline não esperava esse primo, e o encontro foi festivo pela surpresa e antiga amizade de infância, e eu estava curiosa do que adviria de tudo aquilo. Eu não tinha motivos para estar preocupada, porque Dona Maria não me parecia ser uma senhora rica, e portanto não representava perigo caso se sentisse enganada. 111 Mas eu achava que poderíamos contornar a situação dizendo simplesmente a verdade à dona Maria, mesmo que lhe doesse, sim, porque estávamos no século XXI e nada da situação ali representava um crime. Resumindo: hoje em dia, as crianças são sempre todas legítimas, e, a meu ver, sagradas. E ninguém, no nosso Ocidente pode ser obrigado a casar. Rogerio e Aline se abraçaram e rodopiaram em festa, rindo, como amigos íntimos que não se viam há anos. Instada por Aline, ele chegou a botar a mão na barriga dela, para sentir o novo bebê. Tudo levava a crer que seria fácil, contornar a situação com a mãe de Aline. Ah! Mas logo saberíamos que a italiana tinha um trunfo, um elemento de pressão, para exigir provas de casamento legítimo de sua filha. Além do grande sobrado do Bom Retiro, em São Paulo, havia uma grande herdade de família na Itália, na Toscana, com um vinhedo, cuja proprietária, sua irmã, viúva, acabara de morrer e o único filho também tinha morrido muitos anos antes, sendo a dona Maria a herdeira, que prometia passar essa herança para sua filha única dependendo da legitimidade legal de seu casamento com “esse tal senhor Rudolf Welt”, o alegado pai de seus netos. 112 Informados disso pelo visitante, após a recepção calorosa de sua prima, sentados todos numa roda de chimarrão, eu me senti aliviada, e até divertida com a situação inusitada, pois me parecia auspiciosa, dependendo somente da anuência de Rodo, que era um homem prático e perceberia imediatamente a inesperada virada de destino que um casamento assim representaria para um aventureiro como ele. Naquela noite depois de muitas conversas e muito vinho, eu, recolhida ao meu quarto me senti inspirada pelas perspectivas afortunadas do dia, e escrevi este soneto: Fortuna Imperatrix Mundi (de Alma Welt) Atirados neste mundo de perigos Todos temos nossa nau em tempestade E enfrentamos os deuses da Vontade E até os nossos Eus quando inimigos. De quê, ó Alma, assim, falas sem peias? Teremos o destino que escolhermos E procelas são os nossos próprios termos, Como também a calmaria das sereias. Mas estamos a falar da mesma cousa E as escolhas não mudam portulanos Somente a rota do nosso giz na lousa.. "A Sorte é a Imperatriz do Mundo" Era como formulavam os romanos, E jamais disseram algo mais profundo... 113 Quanto à Aline, essa ficou pensativa o resto da noite, e não quis fazer sexo comigo, coisa rara, na verdade, como se compenetrando de sua futura condição de casada, eu depreendi... Afinal, quem não se deixaria comprar por um vinhedo na Toscana? Sinceramente, a essa altura, tudo me divertia, afinal, mesmo me confessando culpada eu já escapara duas vezes da prisão, e tendo morrido continuava viva nesta dimensão paralela que me foi oferecida, talvez pela minha arquetípica condição de Artista... sim, provavelmente, ou simplesmente de mulher que por alguma razão, resumia, em mim, todas as mulheres em sua vulnerabilidade invencível através dos séculos. Sim, provavelmente, por isso... Dando um salto nesta narrativa, para resumir: dentro de um mês estávamos, Aline, Marco, eu e Zoé ainda de colo, com os nossos passaportes e nossas duplas cidadanias, eu, alemã e Aline, italiana, voando para a Europa para um encontro combinado com o Rodo. Ele e Aline se casaram em Mônaco, num cartório, comigo e 114 um desconhecido como testemunhas e entre uma mão e outra de pôquer, por assim dizer. Devo esclarecer que meu irmão aceitou a proposta de Aline por várias razões, ou ainda pelo útil e agradável que ela era. E ele já fantasiava se tornar, finalmente, um vinhateiro, já que a paisagem maravilhosa da Toscana, perto de suas rotas de carteado na Europa, o convenceram de saída. Não teve festa nem convidados, mas naturalmente eles cobraram, um ao outro, a noite de núpcias, uma lua de mel rápida, no hotel enquanto o nosso Marco dormia inocentemente e feliz, ao lado da sua irmãzinha Zoé, no meu quarto, ao lado do deles. Bem que eu ouvi por boa parte da noite os suspiros apaixonados de Aline, e uns urros lúbricos de Rodo, ambos unindo o útil ao agradável. No dia seguinte, depois do café da manhã, fizemos o checkout, e no carro alugado por Rodo, já que o seu Lamborghini não comportava os quatro, pegamos alegremente a estrada para Firenze. Não farei disso um relato turístico nem me deterei na descrição das maravilhas de Florença, da qual não sairíamos sem visitar por 115 muitas horas o museu dos Ufizzi e seus Boticcelli, e rodear por muito tempo, na praça, o Davi de Michelangelo. Quando afinal, retomada a estrada, depois de muitas horas e alguns percalços, encontramos a herdade e seu vinhedo, nos entreolhamos deslumbrados, a paisagem, a região toda, a Vila, casarão toscano típico entre os pinheiros, o vinhedo circundando uma colina, tudo era tão antigo e maravilhoso, que tive por um momento uma sensação de irrealidade, como se estivesse num sonho mas soubesse disso. Seríamos felizes com aquilo? Recebidos por uma fiel caseira e velhos empregados já prevenidos da nossa chegada, Aline e Rodo olhavam tudo e davam gargalhadas, felizes, se abraçando em rodopios. De repente, enxerguei: eles tinham sido seduzidos, sim, comprados! Tomei súbita e tardia consciência de que iria perder Aline e até o meu fugidio e amado irmão, que talvez não os veria mais, já que eu teria que voltar para o meu próprio vinhedo e minha estância no Pampa, para o meu próprio, e agora desfalcado destino. Tudo começou a girar e... desfaleci no átrio do casarão toscano. 116 CAPÍTULO SÉTIMO A Festa da Vindima Na estância, no meu Pampa, na minha amada Santa Gertrudes, um mês depois eu me preparava para a Festa da Vindima, pois meu Dario, o marido ideal, durante a minha ausência cuidara muito bem de nossa herdade, da colheita e da fabricação do vinho de nossa nova safra, que parecia de grande qualidade. Eu me resumia a cuidar da nossa Zoé, que agora parecia amar mais o pai do que a mim, já que uma pequena nuvem de solidão parecia pairar sobre minha cabeça, e ela, como criança sensível, a captava. Longe iam os dias da minha Aline, nua e linda posando para mim no ateliê paulistano, nos Jardins, cujas imagens começaram a voltar. E depois, o seu depoimento sucinto e cabal: “EU SOU O SEU AMOR”, no meu julgamento, palavras que me levaram às nuvens quando eu já me sentia perdida. Me sentindo assim, eu não queria que Zoé puxasse a mim, tão dependente de amor de outros, tão insuficiente que eu era, na verdade, 117 somente por não ter me sentido amada pela Açoriana, minha mãe, conquanto amada de sobra por meu pai (o Vati) e meu irmão... e por Lucia, agora eu reconhecia. E Matilde! E Galdério! – “O que te faltou! Ingrata!”- Eu me gritava interiormente... Então veio a Festa da Vindima, de cujos preparativos pouco me ocupei. Entretanto devo reconhecer que a festa seria brilhante, mesmo sem mim, que fui coroada de folhas de parreira, sem merecer, talvez por tradição, eu sentia, que, ao contrário, quase estraguei a festa, pois no momento de pisotear com os pés descalços as uvas no grande lagar, junto com outras mulheres jovens, as “prendas” colhedoras de uvas da estância, eu comecei, como elas, devagar, mas fui me tomando de tal fúria, pateando como uma bacante possessa, fazendo espirrar o sumo nos circundantes assustados, fazendo com que Dario me tirasse do lagar quase desfalecida e me colocando como um fardo debruçado no seu ombro com uma gargalhada de disfarce salvadora da situação, como se fosse algo picaresco e combinado. E seguiu comigo para casa, no ombro, abraçando- me as coxas, eu de cabeça para baixo, seguidos de risos e saudações, algumas batendo palmas, 118 como se de um ponto alto da festa, e não vergonhoso... Meu incrível marido ideal salvara mais uma vez a minha honra, da mulher fora de controle que eu estava me tornando por pura solidão. Depois disso, fiquei de cama por uma semana com uma depressão de pura vergonha, se é que isso existe. Mas Dario, sempre carinhoso, me levantou mais uma vez, e eu tinha que admitir que eu tivera muita sorte com meu casamento e devia isso à minha estranha cunhada, a Quitéria, a quem eu tinha atribuído alguns papéis contraditórios, como: a zelosa irmã do meu marido apaixonado, a inimiga, a amante obsessiva, a absurda vampira do meu sangue menstrual e agora uma querida e divertida tia da minha Zoé, que parecia adorá-la. Eu estava convencida de que eu estava destinada, pelo significado arquetípico do meu nome, a viver todas as dimensões da experiência feminina do Ser. E resolvi distender o coração e voltar a ser digna do amor dos que ainda me cercavam, principalmente Dario e Zoé, mas também meus fieis Matilde e Galdério, embora abandonada conforme julgava, por minha Aline, por Rodo e nosso amado menininho Marco, por quem Zoé amiúde perguntava. 119 Mas, logo chegariam as férias e meus sobrinhos, minhas adoradas crianças, agora adolescentes estariam aqui e meu coração, precocemente envelhecido, rejuvenesceria. Quando as crianças chegaram todas na enorme Van da Lucia, os três meninos me cercaram em grande algazarra me abraçando, um a um, somente Patricia, agora uma jovem esplendorosa, se aproximou lentamente, com uma dignidade comovida, com lágrimas nos olhos e me abraçou longamente, eu igualmente em lágrimas. Minha guria predileta mantinha ainda a doçura que me encantava. E disse: - Tia Alma, não sabes como tem sido difícil ficar quase o ano todo longe de ti. Eu peço todos dias para a tia Lucia me deixar vir morar aqui contigo, para te ajudar com os trabalhos da Vinha, e tudo, mas... ela não deixa. Diz que tenho que estudar... para ser alguém como tu mesma, tia. É verdade que estudaste muito, para ser Poeta? Eu passei a mão no seu rosto, olhei fundo nos seus olhos de gazela, que me comoviam e respondi: 120 -Sim, Patricia, quer dizer... li muito, só isso. Devorei metade da biblioteca do Vati e isso foi para mim... estudar. Temos que estudar a humanidade para ser poetas, mas sobretudo observar muito, todas as pessoas, e coisas também. Mas tem um segredo: só funciona se ninguém nos mandar fazer isso, tem que ser espontâneo. A espontaneidade, filha da Liberdade, é a chave da Poesia. Imediatamente entendi, ao responder assim, porque Lucia queria afastar as crianças de mim a maior parte do ano e me relegar só às férias. Ela queria que as crianças estudassem, e eu só as entretinha e divertia com estórias e aventuras, e por isso era fácil me amarem... Logo ela se preocuparia com Zoé também, que eu enchesse a cabecinha dela de histórias e “mitologias”. Mas, nada disso, na verdade, me preocupava, porque tinha aprendido com a convivência com o Vati, um grande músico, embora de formação científica, um artista, para quem o que era essencial era somente amar. Eu estava feliz novamente, rodeada de amor, e cheia de amor para dar, no melhor sentido. 121 Eu rejuvenescia a olhos vistos e logo parecia fisicamente uma guria de vinte anos conforme, espantados, todos me diziam. E eu notava certo espanto nos olhos dos peões e trabalhadoras da vinha, que olhavam com admiração e cochichavam quando eu passava. Eu mesma me espantei, um dia, quando olhei no espelho e me vi como uma Dorian Grey às avessas, e tive receio da minha beleza, que estava, de algum modo, novamente assustando as pessoas. Lembrei das palavras do meu pobre inimigo, o velho Alípio Galdiano, no meu primeiro julgamento, poucos anos atrás... Por um momento tive medo de começar a criar novos inimigos como os que me moveram até uma guerra verdadeira, como o sabem os que leram os primeiro e segundo romances da trilogia A Herança: O Sangue da Terra e A Vinha de Dioniso. E isso, realmente, iria acontecer, infelizmente... ________________________________ 122 CAPÍTULO OITAVO Depois da Festa Patricia me disse, embora com doçura, não perdoar sua tia por tê-la feito perder a Festa da Vindima deste ano. Mas eu agradecia, intimamente à Lucia, por ter poupado minha guria e as outras crianças da vergonha de verem sua tia predileta se comportando como se estivesse bêbada ou louca. E eu comentei que era uma pena mesma, pois tinha sido uma festa esplêndida apesar da falta que ela fez porque certamente seria coroada a princesa da festa, (título que na verdade, nem havia). Eu teria, para sempre, vergonha daquele meu dia, mas na verdade eu sabia que minha fama na região era ambígua, sempre tivera dois lados, e muitos consideravam a “guria ruiva do pampa”, meio doida mesmo, com as minhas cavalgadas nua no crepúsculo, uma Lady Godiva (de que eles nem sabiam a história) alucinada e sem causa, galopante e não a passo, num cavalo baio, e não branco. E de dia, de vestido branco até os pés descalços, na campanha, contando sílabas nos dedos, como uma “louca de Albano”, para sonetos desconhecidos deles, que nem sabiam que eu era poeta. 123 Foi então que Aline veio da Itália, com o nosso Marco, inesperadamente, para as férias neste vinhedo que também era seu por minha promessa na nossa primeira luta para salvá-lo. Minha alegria foi imensa, meu elenco estava quase completo, faltando apenas o meu irmão o aventureiro jogador que surpreendentemente estava se saindo bem como vinhateiro, compenetrado, empenhado em fazer sua propriedade toscana voltar a ter o prestígio que tivera na Renascença, segundo soube. Sempre um jogador e aventureiro, agora em nova área, meu irmãozinho, “soldado da fortuna” que de tão esperto e independente nunca causara preocupação, como uma força da natureza, minha admiração da infância e de sempre... Então convidei, como já o fizera outras vezes, meu grande amigo, e descobridor e lançador em São Paulo e no Mundo, meu prefaciador, capista e ilustrador exclusivo, o Guilherme de Faria para passar aqui as férias conosco e ele, apesar de se dizer idoso e não gostar mais de viajar, aceitou e o esperei com alegria e novos planos. E ele, o velho artista, veio, se dizendo maravilhado de me rever, ele que chorara a 124 minha morte mais que todos, até descobrir que ela se passara apenas num dos meus universos paralelos, aquele mesmo de onde deve ter vindo meu “Duplo”, e ele o soube pelo meu relato no meu livro de contos da fase paulistana. Foi ele, Guilherme, que me trouxe a foto do meu túmulo, que mais o desolara, e que a mim chocara pelo evidente abandono, sem flores e maltratado, o que ferira o meu ego, minha vaidade, essa é que é a verdade. Fomos, a seu pedido, procurar meu túmulo, a placa de bronze fundido, na Colina dos Mortos, mas não a encontramos, claro, pois estava no universo da minha morte prematura, tão chorada por ele e por Lucia e que causara aquele escândalo no portal Recanto das Letras, com nossa gloriosa expulsão após a publicação por Lucia, na minha página, da trágica carta–necrológio escrita comovidamente por ela, e que causou escândalo e revolta por ter sido considerada e denunciada pelo Editor daquele site literário, como uma espécie de “falsidade ideológica”, já que acreditando eu ser uma criação do Guilherme, eu não podia ter morrido de verdade (!!!). Rimos muito, relembrando meu “succès d’escandale” ocorrido nos idos de Janeiro de 2007... 125 Naquela temporada, não propriamente um retorno dos “dias de vinhos e de rosas”, pois nos queríamos mais sóbrios e maduros, como exemplo para os três guris, que sendo adolescentes, estavam inquietos, com a libido à flor da pele, e temíamos por algumas gurias, trabalhadoras da vinha. Guilherme, o velho pintor, não parava de desenhar, anotando tudo, e eu percebia como ele me amava, de uma maneira abrangente, porque não só a mim, mas tudo o que ele chamava de meu universo e como a ruiva que ele buscava captar nos seus desenhos a pincel, com nanquim e ecoline, para isso, botando-me em espartilhos e ligas como grande fetichista que ele era. Ele trouxera com ele, na mala, uma parafernália erótica de lingeries decadentistas, que me divertiam a mim e à Aline e horrorizaram minha meiga e recatada sobrinha, que passando pelo corredor viu, de relance na porta esquecida entreaberta do ateliê, sua tia nua, de corpete e ligas, de pernas meio abertas e de meias pretas, posando para o velho pintor, e ficou chocada. Tive dificuldade de explicar aquilo para a sua inocência e ingênuo romantismo, cândido, quase infantil. 126 A verdade nua e crua é que aqueles acessórios eróticos estavam na História da Arte associados às demi-mondaines francesas, isto é, as prostitutas da belle-époque, do século retrasado. Essa idiossincrasia do velho pintor iria mesmo assustar aquele anjinho, como a qualquer prenda deste nosso Pampa. Quanto ao Dario, o marido ideal, pairava olímpico sobre qualquer conjuntura e tolerava os caprichos de sua mulher, que ele parecia amar com um desprendimento nunca visto neste nosso Pampa machista. Basta saber que ele até simpatizou com o pintor, e tiveram uma longa conversa amistosa, não sei sobre o quê, e que fez o velho pintor e poeta me cumprimentar pela escolha, quando na verdade fui escolhida sob ameaça de guerra, e aceitando, fui sorteada como poucas, aqui por este nosso Sul, de botas e esporas, de “buenas” seguidas de golpes “de prancha e de talho”... Naquela temporada, Guilherme, conhecendo pessoalmente Aline, maravilhou-se com ela, e fez-nos posar para uma série, nuas, juntas, enlaçadas, em atitudes de sexo, e como não somos hipócritas, assim o fizemos, com prazer, eu diria, com ardor mesmo. Entretanto, para ser 127 coerente, devo contar que as posições e poses em que o pintor nos colocava não poderiam deixar de nos excitar, predispostas que já estávamos com o nosso reencontro, o que começou a fazer nossas lindas vaginas se encherem de cristalino fluido e a vazarem copiosamente sobre o leito onde posávamos, ensopando-o. O pintor, grande “voyeur”, se entusiasmou, e permitam-me revelar: encharcou a mão com o nosso fluido, tocando nossas vulvas, e esfregando no papel fez um maravilhoso desenho à aguadas, de nós duas em pleno sexo, desenho tão erótico, que ele até hoje o reservou para si, prometendo deixarem exibi- lo somente depois de sua morte, se eu e Aline concordarmos. Quando Aline e eu saímos daquele ateliê estávamos ainda tão excitadas, que estávamos “dando bandeira”, como popularmente se diz. Os gêmeos Hans e Christian, que por duas vezes alguns anos atrás quando eram gurizinhos, flagraram a mim e Aline nuas, em pleno sexo, foram enganados ou belamente “esclarecidos” com nossas poses de estátuas, que depois imitariam quando, um ano mais tarde, me flagraram com Dario, nus debaixo do piano, desta vez mais surpreendentemente pois, 128 eu, de pernas abertas e meu marido com seu enorme falo em riste seria mais difícil de nos tornarmos escultóricos, a não ser nos moldes de Pompéia. Dali por diante eu e Aline estávamos resolvidas a “tirar o atraso e nos agarrávamos a toda hora e não tardamos a reconstituir o triângulo que houvera nos bons tempos com o Dario, que evoluiu depois para aquele “quatrilho” improvável, com o Rodo, que agora faltaria. Foi então, Deus me perdoe, que um elemento complicador, viria acontecer naquela quente temporada de férias na Estância. Eu e Aline estávamos abraçadas numa rede que instaláramos na varanda, quando vimos uma figura de pé, a contra-luz, parada nos mirando a poucos metros de distância, ergui-me com dificuldade, pois estava enroscada na Aline, e pondo a mão em aba, sobre os olhos, divisei... Natalia! Ela voltara, agora uma moça de verdade, o que pouca diferença fez na sua linda figura, me olhando, com a mesma adoração de três anos atrás. E foi dizendo: -Alma, agora tenho dezenove anos, não podem mais me buscar, me proibirem de te amar e, de 129 ser amada por ti e de participar do teu mundo. Essa deve ser Aline, não é? Quero ser dela também. Não me rejeitarão, confio em meu coração e no que vejo, nos olhos que me olham e enxergam minha beleza, e o que ela tem de doação. Daqui não saio, enquanto não me tiverem e me amarem. Ficamos inicialmente perplexas, Aline e eu, mas, como a própria circunstância demandava, a cercamos carinhosamente e a fomos levando para o nosso quarto, livrando-a de sua indefectível mochila, e despindo-a aos poucos no caminho. ________________________________ 130 CAPÍTULO NONO O Elenco completo Para que o meu elenco estivesse completo só me faltava a minha amada Doutora Jensen, que tentei contatar por telefone e fui atendida por uma assistente que me participou a doutora andar muito concentrada escrevendo suas Memórias para um livro já combinado com uma grande Editora. Insisti me identificando, o que fez a assistente mudar logo de tom, tornando-se solícita e revelando que eu ocupava um capítulo inteiro do livro. Foi chamar a Doutora que me atendeu, radiante mas recebeu hesitante o meu convite, pois temia se dispersar nos prazeres da Estância e da minha companhia, mas argumentei que ela, com sua disciplina sueca poderia reservar umas horas sagradas para o seu livro, como eu, para este meu romance em processo. Vencida pela tentação e, vamos convir, por seu amor confessado, um dia, por mim, em plena tempestade, como já contei no volume anterior, ela assentiu. Ela viria. 131 Eu planejava em segredo uma festa apoteótica para reunião de todo o meu elenco vital, para compensar o meu fiasco na Festa da Vindima, que eu contaria para doutora para, digamos, exorcizar minha persistente vergonha... Inspirada pela perspectiva de ver todos os amigos juntos, finalmente, eu passei uma noite escrevendo estes “sonetos de amizade”, que me vieram como sempre vêm os meus sonetos: em catadupa, nem sempre auspiciosos ou otimistas, mas como sempre nos surpreende a Poesia.. Tenho que revelá-los aqui: 132 Amigos (de Alma Welt) Saudar os amigos é preciso Pois a amizade é mesmo amor, E o afastamento dá um aviso Embora em mim talvez seja um pendor. Mas quanto me divirto com os amigos Que são um presente de alegria Quando não voltados pros umbigos Como eu mesma era e não sabia... E quando vejo chegarem esses rostos Sorridentes, levemente picarescos, Alguns bons talvez pra outros gostos, Eu me encho de ternura e paciência E percebo nossos breves parentescos No coração sábio da inocência... 133 Os amigos voltam (de Alma Welt) Os amigos, quase todos reunidos, Congreguei-os depois de tantos anos Dispersos que estavam e entretidos Com os seus sonhos, cartadas e arcanos, Cada um só à procura de seu rosto Quando já me parecia conhecê-los E nada lhes faltava pro meu gosto, Que não lhes fazia falta novos pelos... Então em meio aos risos e abraços Em seguida nos brindes com os bons vinhos Lhes noto nas feições os novos traços. E procuro aquele toque de candura Disfarçado nas palavras e risinhos Onde o cinismo agora se pendura...  134 Velhos amigos (de Alma Welt) Vejo alguns velhos amigos se acabarem Derrotados por um sonho que os ilude, Batendo as teclas até se esfacelarem Dos equívocos de nossa juventude... Quanta coisa já não é mais o que era Ou perdeu o sentido com o vento Por sua natureza de quimera E seu canto de sereia longo e lento... E eu baixo os olhos constrangida Com imensa pena dos amigos, Alguns quase reduzidos a mendigos. Quisera reuni-los, e sem mágoa (todos demos com os nossos burros n'água) Combinar com os amigos nova vida... Os 135  Os amigos se reúnem (de Alma Welt) Os amigos se reúnem nas clareiras Entre os sonhos perdidos e o vigente; Faunos uns, outras ninfas e faceiras, Assim nos reunimos, somos gente. No rosto, às vezes, máscara nos pomos, Não somos de se por no fogo a mão, Nem por certo que se cheire flores somos, Mesmo sem rabo amassamos nosso pão. Amizade é filha do imprevisto E se do acaso levamos a bandeira A gratuidade é passe ou visto... Mas no fundo todos temos um só medo Que em nós do mesmo modo cheira: Que a vida seja só engano ledo... 136 Os amigos da Poeta (de Alma Welt) Onde estarão os amigos mais queridos Que alegravam a casa nos bons tempos E reliam meus poemas preferidos Não apenas como simples passatempos Mas por certo pra ganhar lugar mais perto Do puro coração de sua amiga, Ingênuo sim, ainda que esperto, Avesso à maldade e à intriga? Onde estarão? Que foram rareando Ou, melhor dizendo, se esparzindo Ou como um tecido, se esgarçando... Tão esperta... a Poeta acaba só, Aos novos bons amigos induzindo A espalhar seus poemas como pó... 137 Ó, meus amigos ( de Alma Welt)   Ó meus amigos, mais um ano com vocês... Eu que até pensava em ir embora, Para a vizinha Vila Nova das Mercês Ou para a mais distante Bora Bora... E fico, fico sempre até o final... Sou aquela que fica na estação A acenar pro trem em comoção Na plataforma eternizada do real... Estou cansada, amigos, de ver claro A ponto de enxergar o trem fantasma Que me irá levar sem cobrar caro, Quando meu peito cheio de ar fecundo Não quererá fechar, se não de asma, Pelo apego que tenho a este mundo... 138 O Último Baile (de Alma Welt) Como é bom estar aqui entre vocês, Amigos meus, reunidos pela face * Melhor que temos, afinal, a cada vez, Pra não mostrar somente o que se passe. Porque se mostro sempre o meu melhor Para estar entre vocês em plena sala, Quero dizer que me visto, assim, de gala Para as nossas reuniões, em tom maior... Houve um baile, uma vez, na Ilha Fiscal Onde a Corte reuniu-se em saideira, Sem nem sequer desconfiar do Marechal... Amigos, como então naquele Rio, Dancemos nossa valsa, a derradeira, Que a Liberdade está apenas por um fio... 139   O Último Banquete (de Alma Welt) Ó vinde, eu vos espero, amigos meus, Sabeis que a minha porta é sempre aberta! Para mim uma visita é como um deus, Um bom amigo, então, o é na certa. Hóspedes meus, bem o sabeis, deuses sereis E vireis todos comigo ao meu pomar Para um encontro de deuses e de reis E no banquete aos amigos vou brindar. Assim sonhei, amigos meus, em solidão, Relevai-me vós, então, o tom solene, Que é só o que me resta ao coração, Pois minha casa ecoa de vazia E a bela juventude, de perene Tem a memória em mim, que não havia...     140 Preciosos Amigos (de Alma Welt) Preciosos amigos de uma vida, Por alguma razão tão dedicados Apesar da minha alma dividida Entre a solidão e os agrados Daqueles reencontros tão festivos Com abraços apertados e tapinhas Nas costas com sinais receptivos De faces se encontrando com as minhas... Agora tudo é já passado, recolhida Prefiro esta memória dos momentos A que tão prontamente dei guarida. Mal sabem que os retenho assimilados No antes da chegada dos tormentos, Que guardei-os no melhor dos seus passados... 141 Os Amigos estão indo (de Alma Welt) Os amigos estão indo, eles se vão, E não nos pedem licença, simplesmente, Num piscar de olhos, deixam-nos na mão, Desaparecem, sem mais, na nossa frente. Abandonam-nos, os amigos tão queridos, Como se fosse, assim, algo possível, Sem saberem que guardamos comovidos A imagem sempre viva, imperecível De sua passagem adorável e dos dias Em que fomos tão felizes, ou nem tanto, Mas rindo à beça ao escapar das frias... Já os guris se vão, como se afoitos, Aventureiros, por quê pro mesmo canto? Deve haver algo lá mais do que biscoitos... 142 Os Amigos (III) (de Alma Welt) Como nós cantávamos e ríamos Naquelas jovens tardes e noitadas Sem saber que em breve iríamos Nos dispersar assim pelas quebradas! Amigos, cada um foi ao Destino Que não se pode mais compartilhar, Que o nosso espelho cristalino Iria bem depressa estilhaçar. E eu pergunto se nos reuniremos Ainda que precoces decadentes Para restaurar o que rompemos, Pois a contar fiquei nesta varanda As sílabas, estrelas e poentes Por onde o coração ainda anda... 143 Desde Guria ( de Alma Welt)) Desde guria convivo com os mortos, Que secretos são os meus amigos Que foram navegar entre outros portos, Poetas, uns modernos, uns antigos. Como lhes tenho muita intimidade Lhes chamo pelos nomes e apelidos: Allan Corvino... François dos Tempos Idos, * Charles, o das flores da maldade... * Mas, com suas dores também arco: Eles não desconfiam que são célebres, E ainda vendem por gatos suas lebres. Arthur, a vogar bêbado barco Vogais coloridas, ainda encanta, * E Walt boa relva cava e planta. * Nas redes (de Alma Welt) 144 Nas cidades eu falava com as paredes E tinha muitas saudades da campina, * E procurava o meu nome nas redes, * Encontrando até coisa que alucina: * Vi meu nome entre os maiores deste Sul Inclusive o do domador do vento * Que transformava em clarineta, em solo cool, * Com aquele seu veríssimo talento. E eu, pobre romântica tardia Quase à míngua numa era decadente Só às quintas ao Quintana reverente, * Cabe a mim restaurar brilhos antigos Quando a nossa sala manca de poesia, * Com uma pequena ajuda dos amigos... * Ah! Meus amigos... ( de Alma Welt) 145 Ah! Meus amigos, tão tolos quão formosos Na nossa louca juventude ou logo após, Acreditando-nos de algum modo poderosos, Como alexandres a cortar mil górdios nós Que o Destino apresentasse vida afora, E que tudo estaria ao nosso alcance, Como se o leão da vida a gente amanse, E com Androcles nossa fera a ir embora... Quanto a mim fiel fiei como Penélope No tear a minha teia de sonetos A esperar um rei nada a galope... E se a espada pendurada por um fio, De novos Dâmocles faz de nós suspeitos, Já nada temo mais e apenas rio... 146 Os quatro amigos (de Alma Welt) Fomos todos ao mundo, os quatro amigos, Cada um a buscar o seu tesouro Que estava aqui mesmo, sem desdouro Dos que há pelo mundo sem abrigos. Nenhum de nós voltou de mãos vazias Mas um tanto machucados e carentes, Com as suas palmas bem menos macias E por certo nunca mais aos seus pertences. Então nos reunimos numa festa Para brindar o estarmos todos vivos, De alegria o mais belo dos motivos... Rindo disse um de nós, o mais honesto: "Para nós está aqui tudo o que presta, Só eu que, para mim, ainda não presto..." 147 Dos amigos que se foram (de Alma Welt) Dos amigos que se foram, só saudades, Alguns, para os pagos de além-mar Uns poucos pelas fúteis veleidades Outros tantos para nunca mais voltar... Como éramos felizes sem saber! Rebeldes inocentes e curiosos, De muita importância achando ser, Pobres ingênuos, belos, preciosos... A vida nos deu grandes bordoadas, Pelo menos nos melhores, desde então, E ostentamos nossas almas remendadas. Mas os únicos que se foram por juízo Não voltaram trazendo uma canção Ou um chiste que provoque novo riso... Perdoem-me, amigos (de Alma Welt) 148 Quantas vezes eu já pensei em desistir... Perdoem-me, amigos, minha fraqueza, Num mundo duro e seco fui cair, Contrário à minha doce natureza... É verdade que uma dose de ironia Apimentou meu relacionamento Com vocês através da minha poesia, Fiel que sou à deixa do momento: Perco o amigo mas não perderei a rima E por isso fui tachada negligente, Ocupada demais com a auto-estima. Mas garanto, amigos meus, sou inocente, Não como uma criança sem maldade, Mas sim como uma criança de verdade... 149 A Dança das Cadeiras (de Alma Welt) Ó meus amigos, que saudades tenho eu Dos tempos de nossas brincadeiras De salão, como a "dança das cadeiras" : Quem não sentou, caiu, saiu, perdeu... Depois, na vida, seguimos com o jogo, Nunca haveria cadeira para todos E vi de alguns amigos pranto e rogo Já que foram dar em chão de lodos... Há quem diga que injustiça não existe (meu pai mesmo era desta opinião) Mormente para quem no erro insiste, Mas, ai, como me lembro dos caídos, Quem nem por isso mereciam ser punidos, Desajeitados para os jogos de salão... Farelos sobre a mesa (de Alma Welt) 150 Quisera que uma festa a vida fosse De retorno dos amigos tão dispersos, Agora em torno e esbanjando versos, Depois silencio (eu imitando tosse): "Meus amigos, façamos novo brinde! Todos os maus enfim foram recolhidos; Vós, os bons, foram, pois, os escolhidos, Bebamos, e aos Novos Tempos vinde !" Eis como penso um reencontro alegre Com esta tola alma idealista Que evitava engolir gato por lebre... Mas olho em torno a mesa desolada, Com farelos de pão, única pista De um café da manhã, de abandonada... ___________________________________ Quando finalmente vi todo o meu elenco juntado, e em harmonia, com aquisição de um novo membro, a minha Natalia, e mais uma vintena de amigos antigos e dispersos, que não nominarei aqui, houve um momento de epifania em minha alma repleta e eu, diante de todos reunidos, a pedidos ia discursar, a princípio 151 solenemente, mas logo com a simples alegria que os amigos juntos despertam, eu comecei: “Meus amigos, meus amados! Não vou aborrecê-los com um discurso, por melhor que fosse, indigno de um momento como este, de sua própria e latente poesia e plenitude. Vou saudá-los apenas com este soneto de amizade que acabo de escrever: Saudemos a vida, meus amigos, Não cansemos de a vida celebrar! Não olhemos demais nossos umbigos, Olhemos mais pra cima para amar. Bebamos moderado, se soubermos, Mas se acaso passarmos do limite Escrevamos mil vezes nos cadernos: “Sou um bêbado idiota, não me imite.” A alegria, meus amigos, é vital, Não deve nos levar para o buraco; A vida é o Bem, e a Morte é o Mal. Tudo que aprendi só me diz isso, O resumo do saber cabe num saco, Que não seja o nosso saco do sumiço! 152 Uma gargalhada geral saudou, por sua vez, o meu discurso. FIM 153 Notas *Tal como implorava Lamartine No seu lago feliz, mas sem discurso - Alma se refere ao famoso e longo poema de Lamartine , “ Le Lac”, onde o poeta pede ao Tempo que suspenda o seu curso, para reviver os momentos felizes com seu amor (depois perdido) às margens dele., * Como o soneto famoso de Ronsard * Alma se refere ao célebre soneto Quand vous serez bien vieille – dos Sonnets pou Hélène, 1578 Quand vous serez bien vieille Pierre de Ronsard Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle, Assise auprès du feu, dévidant et filant, Direz, chantant mes vers, en vous émerveillant : Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle. Lors, vous n’aurez servante oyant telle nouvelle, Déjà sous le labeur à demi sommeillant, Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant, Bénissant votre nom de louange immortelle. Je serai sous la terre et fantôme sans os : Par les ombres myrteux je prendrai mon repos : Vous serez au foyer une vieille accroupie, Regrettant mon amour et votre fier dédain. Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain : Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie. 154 Pierre de Ronsard, Sonnets pour Hélène, 1578 Quando fores bem velha (Tradução de Guilherme de Almeida) Quando fores bem velha, à noite, á luz da vela Junto ao fogo do lar, tiritando e fiando, Dirás, ao recitar meus versos e pasmando: Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela. E entre as servas então não há de haver aquela Que, já sob o labor do dia dormitando, Se o meu nome escutar não vá logo acordando E abençoando o esplendor que o teu nome revela. Sob a terra eu irei, fantasma silencioso, Entre as sombras sem fim procurando repouso: E em tua casa irás, velhinha combalida, Chorando o meu amor e o teu cruel desdém. Vive sem esperar pelo dia que vem; Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida. ______________________________ * Fiel ao “quasi modo” meu da infância - Alusão ao personagem Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame, do grande romance Notre Dame de Paris de Victor Hugo, romance que Alma amava na infância. 155 * Allan Corvino - Edgar Allan Poe, o poeta americano autor do poema O Corvo (e de maravilhosos contos de terror e de humor) *François dos Tempos Idos - François Villon, poeta medieval francês, autor da famosa "Balada das Damas dos Tempos Idos" ( Où son les neiges d'antan?) *Charles, o das flores da maldade - O grande Charles Baudelaire, autor do célebre livro de poemas Les Fleurs Du Mal ( As Flores do Mal) *Arthur, a vogar bêbado barco /Vogais coloridas - Arthur Rimbaud, o grande poeta adolescente francês, que escreveu aos dezessete anos o maravilhoso poema longo Le Bateau Ivre (O Barco Bêbado) e La Couleur des Voyelles (A Cor das Vogais) * E Walt boa relva cava e planta - Walt Whitman, grande poeta americano do século XIX, autor do monumental livro de poemas Leaves of Grass (Folhas de Relva). *E tinha muitas saudades da campina- Alma assim alude ao Pampa de sua criação. * E procurava o meu nome nas redes / encontrando até coisa que alucina - Alma alude às redes sociais e ao Google, onde descobriu, com surpresa, um site que coloca o seu nome entre os grandes poetas do Rio Grande do Sul, ao lado de Érico Veríssimo e Mario Quintana, o que ela achou alucinante... 156 .* Inclusive o do domador do vento - alusão ao grande Érico Veríssimo, autor de O Tempo e Vento. * Que transformava em clarineta, em solo cool - Alusão ao famoso livro de Memórias, de Érico Veríssimo, em três volumes, que se intitula "Solo de Clarineta". * Quase à míngua numa era decadente/ Só às quintas ao Quintana reverente - referência da Alma ao grande poeta gaúcho Mario Quintana. * Quando a nossa sala manca de poesia, - alusão à lenda "A Salamanca do Jarau", a mais famosa lenda gaúcha... * Com uma pequena ajuda dos amigos - alusão à famosa canção dos Beatles: With a Little Help of my Friends.. *Como alexandres a cortar mil górdios nós - alusão ao episódio mítico da vida de Alexandre da Macedônia, que instado a desatar o intrincado "Nó Górdio", da corda que atava o varal de uma carro de guerra a uma coluna de um templo (o oráculo predizia que quem o fizesse seria o rei daquela terra), sacou de sua espada e de um só golpe cortou o nó. *E com Androcles nossa fera a ir embora - Alusão à fábula popular cristã de Androcles e o Leão, em que o personagem, um andarilho grego cristão encontrou na estrada um leão que sofria desesperadamente com um espinho na pata. Compassivo, Androcles se aproximou corajosamente da fera, que por instinto o deixou retirar o 157 espinho, aliviando-o da dor. Anos mais tarde Andrócles, capturado pelos soldados romanos do imperador Nero, foi jogado na arena do Coliseu para ser devorado por um leão. Por coincidência era o próprio leão tratado pelo cristão, e que dele agora se lembrou e veio deitar-se ao seus pés, lambendo-os em sinal de gratidão. A multidão em êxtase pediu a César o perdão do condenado. *Quanto a mim fiel fiei como Penélope- Todos conhecem a história contada na Odisséia de Homero, da fiel esposa de Odisseu, a rainha Penélope, que esperou por vinte anos a volta de seu marido da guerra de Tróia (dez anos de guerra e dez anos perdido em aventuras em seu retorno). Pressionada por príncipes estrangeiros pretendentes à sua mão e ao seu trono, que acreditavam Odisseu morto na guerra, Penélope sempre confiante no regresso de seu marido, para ganhar tempo empregou um estratagema: prometeu que escolheria um dos pretendentes mas somente quando terminasse de tecer uma teia que celebrava em imagens a façanhas lendárias que o povo contava sobre o bravo Odisseu. Ela tecia de dia no tear e de noite destecia os pontos para nunca terminar. * De novos Damocles faz de nós suspeitos  - alusão ao episódio de Damocles, rei que dormia com uma espada suspensa por um fio de cabelo sobre sua cabeça. Este mito é interpretado como uma alegoria da coragem ou aceitação do nosso destino humano. 158 Sobre o EX LIBRIS de Alma Welt    O Ex-libris da Alma Welt foi  feito em litografia por Guilherme de Faria, a pedido da autora quando se conheceram. O mote latino AD AUGUSTA PER ANGUSTA significa "Chegar a resultados magníficos por vias estreitas." O curioso é que permite uma tradução muito legítima ao pé da letra: "à Augusta pela angústia", sugerindo o estado de espírito da poetisa no seu auto- exílio paulistano numa transversal bem próxima da rua Augusta, logo após a morte do seu pai (o Vati),em sua estância no Rio Grande do Sul. 27/08/2001

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