DEPOIS DA PAZ
Romance de Alma Welt
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Quinto volume da Saga A HERANÇA
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Aos meus amados, que são tantos...
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A cada pessoa cabe uma vida única, pessoal e intransferível.
Apenas aos artistas, atores, escritores e poetas cabe viver
múltiplas vidas através de seus vívidos personagens. Ah! A
alguns psicóticos também...
(Alma Welt)
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Eu e os Piratas ( de Alma Welt)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “ Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
20/12/2006
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ÍNDICE
Prefácio................................................................
Primeiro Capítulo
A Dívida.................................................................
Segundo Capítulo
O Cavalo de Tróia...............................................
Terceiro Capítulo
A Rainha..............................................................
Quarto Capítulo
O Natal dos Welt................................................
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PREFÁCIO
Neste quinto tomo de A HERANÇA, que ela intitulou
Depois da Paz, a autora como sempre nos alicía ou
‘fisga” logo de saída, num Primeiro Capítulo
instigante, cheio de perigos e quase comovente pelo
patético de uma situação nada honrosa, envolvendo o
reaparecido e um tanto patético, Bruno, o escritor e
mau jogador de pôquer, o meio-irmão da Alma. Mas
notável é que a autora, em nome do realismo que
sempre caracteriza as suas memórias, preferiu
sacrificar o thriller que já se anunciava, com um
corajoso anticlímax em nome da boa literatura, pois
estávamos somente num inicio de romance,
pavimentando algo mais profundo. Sim, Alma é uma
escritora basicamente psicológica, de natureza
junguiana, e nunca falsearia seu memorialismo para
cativar leitores apressados e superficiais. Antes de tudo
é uma viagem anímica, o que ela vem narrando.
Percebemos, também, que Alma Welt é basicamente
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uma poetisa em sua visão de mundo, quando escreve
sua fluente prosa de narradora realista, de memórias.
Com esta escritora gaúcha temos sempre a impressão
de que tudo o que ela conta, aconteceu mesmo, são
memórias fidedignas, e não ficção.
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DEPOIS DA PAZ
Primeiro Capítulo
A DÍVIDA
Um novo e auspicioso período de paz se anunciava em
nossa vida aqui na nossa Estância Santa Gertrudes
após a turbulência do meu processo no caso Natália
Fontes, que descrevi no volume anterior, e a
surpreendente herança de uma Vila e um vinhedo na
Toscana, com que a minha Aline e Rodo foram
contemplados pelo destino, afastando-os (e ao
pequeno Marco, meu filhinho com eles), do meu
convívio diário. Zoé, minha filha pequena,
especialmente sofria a falta do seu irmãozinho maior,
que só vinha com os pais, meus amados Aline Rodo,
para as festas do fim do ano aqui na estância. Então eu
desfrutava de uma paz melancólica, propícia apenas
para a composição de meus sonetos, pois através deles
eu evocava as passagens da minha infância com Rodo,
que oscilavam entre a nostalgia e a comicidade, pois
Rodo sempre fora um pândego irreverente,
característica que prenunciava sua propensão para o
jogo de pôquer que haveria de afastá-lo de nós todos,
em longas temporadas pelos cassinos do Mundo. Eu
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haveria de escrever um blog inteiro de sonetos de
pôquer, que intitularia SONETOS DO RODO, que
expressam meus estados de espírito em relação à falta
de meu irmão, meu amor por ele as longas esperas que
fizeram de mim uma “Penélope do Pano Verde”,
como me descrevia naquela época.
Exemplificarei sobejamente, como é do meu feitio,
aquela fase, reproduzindo aqui alguns daqueles
sugestivos, e talvez belos sonetos
A Queixosa
Ando muito só e triste, Deus me cuide...
Foram-se todos os que me eram caros,
E daqueles bons amigos, muito raros,
Vi pequenas traições, mas amiúde.
Ora, Alma- digo então para mim mesma-
Estás aí a te queixares, que vergonha!
Agora és para ti tua abantesma,
Em vez de só molhares a tua fronha.
Mas Rodo, meu irmão que é meu esteio,
Meu coração perdido de si mesmo,
Caiu no mundo a jogar dados a esmo...
Mas Alma! - a resposta a mim me veio...
Não há dados novos, te dás conta?
Tua vida é tão rica... e nasceu pronta.
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A Abelha e a Vespa
De repente estava fora do meu meio,
Perdera o meu encaixe original
E achando agora quase tudo feio,
Até mesmo este meu torrão natal...
Meu irmão então me disse: Vem comigo
Vou te mostrar o mundo verdadeiro,
Que está muito mais para um vespeiro
Que a colméia que crês que é teu abrigo.
Carregou-me com ele mundo afora,
Mas no circuito de criaturas vis
Onde a dúbia emoção do jogo mora.
E eu disse: Estou de novo sem encaixe
E cobiçada demais para ser feliz:
Antes abelha que à vespa me rebaixe.
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O coração da vida (de Alma Welt)
Não te vás, ó Rodo, eu te suplico!
Devolvo a chave, sei, fui atrevida.
Falo demais, talvez, complico,
Mas estamos no coração da Vida,
O mundo está aqui como lá fora.
Ou o vejo daqui, por isso fico.
Por quê tens, irmão, que ir embora
Só porque só sei jogar o mico?
Coração sempre tiveste destemido,
Sou tola e pegajosa, que sei eu?
Anseias o teu pôquer de bandido...
Não tens mais paciência com a guria.
Onde, pois, a aventureira se meteu?
Que escreve, chora e se angustia...
Relendo esses meus “sonetos do Rodo”, eu, por
momentos me envergonhava de minha dependência e
obsessão por meu irmão, causadas pelo meu trauma
do flagrante sob a macieira em minha infância,
episódio que já mencionei por diversas vezes e a que
minha doutora Jensen atribui uma evidente conotação
arquetípica.
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Agora, nestes tempos de paz, eu me via revisitando
aqueles tempos com uma mistura de pudor e nostalgia,
e não estando preparada para nenhuma interferência
externa em minhas divagações, recebi uma carta de
Bruno, meu meio irmão a que me referi em episódio
de A ARA DOS PAMPAS, um volume anterior de
minhas memórias. Reproduzo aqui a carta de Bruno:
Alma, querida irmã
Retornando de uma longa temporada de carteados em cassinos
da Europa, na companhia de meu novo mentor no âmbito do
pôquer, nosso irmão Rodo, fiquei sabendo de sua visita à
Letícia, minha mulher e mãe de meu filho, a quem jamais
abandonei, como ela chegou a pensar. Assim que comecei a
ganhar dinheiro com o jogo (graças às lições do incrível Rodo),
enviei uma grande soma a eles. Entretanto, Letícia se sentia
abandonada, acumulou ressentimentos... e me deixou. Partiu
com meu filho, com uma mulher mais velha (!!!) que a seduziu.
Voltei para uma casa vazia e estou muito abalado. Venho,
pois, pedir-te que me recebas para uma temporada de
recuperação na tua estância, que visitei brevemente há muitos
anos quando nosso pai estava vivo, e o fiz a pretexto de colher o
seu autógrafo em seu livro, na verdade para conhecê-lo, a ele, que
nem sabia de minha existência. Naquele curto episódio, conheci
a ti, minha irmã, que era uma adolescente linda, a quem só
pude tocar o queixo e partir, mas sem nunca mais poder
esquecer-te. Agora, me sentindo extremamente só, eu te pergunto:
me receberás por um período, para que ao menos eu recupere a
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auto-estima, e possa conhecer a ti e à tua filhinha Zoé ? Que o
lindo Marco eu já conheci na Toscana, com o Rodo e Aline...
Aguardando ansiosamente a tua resposta
Teu irmão
Bruno Alvarez Welt
Lendo esta carta de meu meio-irmão, me pus
imediatamente eufórica, fazendo planos, como a
adolescente que eu era quando o conheci. Respondi a
ele, igualmente por carta de papel, em plena era do
e.mail, e para enviá-la, incurável romântica, fiz questão
de ir com o Galdério na charrete até o correio na Es-
taçãozinha da nossa Maria Fumaça em vias de
extinção:
Bruno, meu querido irmão!
Tu não imaginas a alegria de receber uma carta tua carta e da
perspectiva de receber-te nesta casa que também é tua. Percebo
que não estás bem, e eu prometo que eu e Dario, meu marido, te
receberemos de braços abertos e cuidaremos bem de ti. Zoé
certamente vai adorar conhecer mais um novo tio.
“Venha, querida grande alma, nós te amamos, nós te
receberemos.”
Tua irmã
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Alma
Notem que, eu, incorrigível livresca, terminei minha
carta parafraseando a mensagem de resposta de
Verlaine a Rimbaud, quando este anunciou por carta
aos seus amigos poetas, a sua intenção de fugir de casa
e encontrar-se com eles em Paris.
Passada uma semana, recebi uma mensagem de Bruno
por celular, esperando por mim na estaçãozinha, e
fomos, Galdério, Dario e eu, buscá-lo de automóvel, e
o encontramos sentado num banco da plataforma com
sua mala ao lado. Reconheci o belo rapaz fortuito e
fugidio de muitos anos atrás em visita ao nosso pai,
quando então me revelou o seu segredo, mas,
impressionou-me agora o seu estado, visivelmente
abatido, e grisalhando o cabelo e barba curta. Dario,
já devidamente esclarecido por mim sobre este
inesperado cunhado, estendeu cordialmente a mão
para cumprimentá-lo num cordial e mesmo fraterno
movimento de recepção.
Quanto a mim, comovida, abracei-o apertado pela
primeira vez nas nossas vidas.
Desde guria sou fascinada pela arte dos mágicos
prestidigitadores. Desde o dia em que presenciei o
show de um deles numa festa de fim de ano da escola
primária em Novo Hamburgo, em que me emocionei
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com a pomba tirada de uma cartola. Daí por diante,
emocionalmente pelo menos, eu veria todos chapéus
como esconderijos potenciais de pombas, patos e
coelhos, e portanto, o verdadeiro refúgio da ternura
dos seus portadores. As imagens do mundo, que
forjamos na infância, nos acompanharão pra sempre
intactas, no terreno afetivo. Mas eu sei que isso é
verdade somente para aqueles que se mantêm fiéis à
sua infância e seus ocultos pactos com o mundo, com
a vida.
Havia na nossa estância um velho peão, o mais antigo,
que era o preferido de meu pai, que o considerava um
venerável exemplo de sabedoria popular. Meu pai, que
além de extremamente culto, erudito, tinha também,
ele próprio enorme sabedoria, a ponto de reconhecê-la
num simples peão semi-analfabeto, por seu apreço
pelo velho boiadeiro me fez também perceber e
aproximar-me daquele homem de barbas e cabelos
brancos bem menos tratados. Um dia, no inverno,
guria ainda, fui visitá-lo sozinha, e encontrei-o na
varanda de seu chalé de madeira, onde aposentado,
ficava horas, mirando o horizonte e fumando o seu
cachimbo. Levei-lhe um poema meu, como único
presente que me ocorreu oferecer-lhe como prova de
meu afeto e respeito. O velho peão recebeu a folha de
papel, e depois de retirar uma espécie de touca de lã
que eu tinha na cabeça, colocada por minha mãe,
passou a mão rapidamente no alto e em seguida
abrindo a folha em suas mãos grossas e calosas, me fez
ver uma borboleta pousada sobre meus versos, em que
ele mal deitara os olhos. Então, ele pegou a borboleta,
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que me pareceu trêmula, e com uma delicadeza
insuspeitada, pela ponta das asas a colocou no meu
ombro, olhando-me profundamente, com seus olhos
gastos azulados, com um sorriso que percebi sob os
imensos bigodes brancos caídos. Aquilo me pareceu
mágico, e ao mesmo tempo uma espécie de recado
cifrado, vago, que eu não saberia decifrar naquele
momento. Alguns dias depois aquele homem estaria
morto, e eu recebi a notícia com extrema emoção. Fui
vê-lo em seu caixão, cercado de peões e algumas
mulheres, peonas velhas e jovens, além da nossa
chorosa Matilde, na pequena sala de sua “querência”,
como ele dizia. E ali, cercada de lágrimas e alguns
sorrisos, depositei, com toda a minha inocência, sobre
o seu peito, acima de suas mãos cruzadas, um novo
poeminha meu, para que ele o transformasse numa
borboleta que o acompanharia em sua nova jornada
no pampa longínquo do horizonte que o aguardava.
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SEGUNDO CAPÍTULO
O Cavalo de Tróia
Aqui na estância, depois de alguns dias, Bruno pareceu
adquirir vida novamente, desabrochar mesmo, como o
homem belo que era e um escritor de mão cheia.
Passávamos horas conversando sobre literatura,
principalmente as nossas, e apesar da minha
curiosidade sobre o seu convívio com Rodo, ele,
misteriosamente, parecia querer esquecer aquela fase
de sua vida, e eu logo iria descobrir por quê.
Foi numa noite, quando avistamos da varanda os
faróis ainda longínquos de um carro que vinha pela
estrada, e como isso era raro, pusemo-nos em alerta.
Por instinto, eu diria, Dario foi buscar uma espingarda
de caça no nosso arsenal.
Quando o carro, um sedan preto a chegou à nossa
porteira, dois homens de terno e gravata desceram
para abri-la e voltando a entrar no veículo vieram na
nossa direção parando a uns vinte metros, quando
então quatro homens armados desceram com suas
armas em punho e cercaram a nossa varanda, sem
nada dizer. Dario, não sabia para que lado apontar a
sua arma.
Então um, que parecia ser o chefe, disse alto e
calmamente:
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- A senhora é Alma, sabemos, irmã do Rodo, pois
não? Entregue-nos o Bruno, que iremos embora e
nada sofrerão.
Criou-se imediatamente um impasse. É claro que não
entregaríamos meu irmão, fosse por que fosse, ainda
mais que percebemos que não se tratava da polícia e
nem sequer eram gaúchos, pois não usavam o “tu”,
não apresentaram insígnias e pior: não tinham o nosso
sotaque, o que era mais preocupante. O quê aqueles
forasteiros queriam com o Bruno? Uma suspeita logo
assomou meu espírito: dívida de jogo! Não, eu jamais
entregaria meu irmão àquele bando engravatado, por
mais que ele devesse. Gritei:
-Senhores, vão embora! Imagino que vieram cobrar
uma dívida de jogo, pois não? Meus peões foram
avisados e estão armados (eu blefei), se forçarem,
vocês não sairão vivos. Retirem-se em paz e nada
sofrerão. Eu me entenderei com Bruno e veremos o
que pode ser feito.
Nesse momento, como reforço de argumento, o
Galdério apareceu vindo dos fundos da casa com um
um fuzil na mão. Os homens se entreolharam,
baixaram as armas e o chefe disse:
-Está bem, dona Alma. Regressaremos a Rosário e
daremos a vocês um prazo de 24 horas para nos
pagarem ou nos entregarem o Bruno. Depois disso
será guerra. A propósito: o montante da dívida é de
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100.000 Euros. Queremos isso na mão ou teremos a
cabeça do pilantra numa bandeja.
Entraram no carro e deram marcha ré até depois da
porteira, fizeram a manobra e partiram em disparada,
dando tiros para o alto pelas janelas.
Respiramos aliviados, mas não muito. Por nossa vez,
nós, na varanda, nos entreolhávamos, desolados.
Bruno, de cabeça baixa, assomou na porta.
_____________________________________
Quando guria, aqui na estância, uma vez, conversando
com a avó Frida no seu belo jardim, ela me disse:
-Alma, um dia, quando fores moça, como todo mundo
sairás de casa. Então lembra-te: toma cuidado para não
te perderes. Quem se perde, se perde sempre num
limbo, senão no próprio Inferno.
E eu, guria curiosa, que questionava tudo, perguntei à
minha avó:
-E se eu cair no Inferno, vó, como farei para sair?
Ela respondeu: "Caminha para frente, corajosamente
almejando a saída, Alma, não pegue um atalho para
voltar. Do Inferno não se sai pela porta de entrada. Ali
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estão os covardes, eternamente no corredor de
entrada, cheio de moscas".*
Lembro-me que depois dessa conversa com minha
avó, tive pesadelos por mais de uma noite. A Mutti,
percebendo, culpou minha avó, dizendo a mim (ela
não teria coragem de confrontar a velha alemã, que ela
chamava de "bruxa"):
-Alma, essas conversas que tens com tua avó te
deixam nesse estado. Vê, freqüentemente não dormes
direito, tens pesadelos. O que te diz a velha bruxa?
Eu respondi: - Não, não, Mutti, não é culpa dela. A
avó Frida só me dá bons conselhos para o futuro, para
quando eu for moça e sair de casa. É que eu tenho
medo de ter que sair de casa, um dia. O mundo fora
daqui, da nossa estância, da campanha... me parece
muito grande e assustador.
Minha mãe apenas abanou a cabeça, e suspirou. Mas
ela continuou vigiando, preocupada, os meus
pequenos desvios de uma normalidade que ela queria
"obrigatória", como zelosa e inútil guardiã da porta do
Inferno, que ela era. Esse cargo eu teria um dia de lhe
reconhecer e, mesmo que tardiamente, também lhe ser
grata, como à minha avó, a bruxa benfazeja, por
alguns cruéis e eficazes conselhos que me salvariam a
vida...
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Assim que o carro dos forasteiros sumiu na curva da
estrada, reentramos todos e nos reunimos na sala. Não
era minha intenção presidir uma inquisição, coisa que
nunca foi o meu feitio, mas Bruno logo começou a
tentar justificar-se e eu apenas ouvia com paciência, na
verdade tentando encontrar uma saída, para todos nós,
daquela situação perigosíssima. Sim, porque já
estávamos envolvidos, ao abrigar o devedor fugitivo.
Um caloteiro, meu meio-irmão? Provavelmente sim,
mas isso já não vinha mais ao caso. Sua vida, e a nossa
por tabela, estavam em perigo. Se tratava somente de
arranjarmos o dinheiro para pagar aquela imensa
dívida, lembrando sempre que dívida de jogo é
sagrada. Rodo me ensinara isso há muito tempo.
Entretanto eu não poderia contar com o Rodo para
arcar com a dívida do irmão que ele carregara para o
jogo sem ter a mesma esperteza que ele. Ele se sentiria
responsável? E teria ele aquela dinheirama toda
disponível? Eu estava lutando para não ficar
desesperada, essa é que era a verdade...
Dario se mantinha estranhamente calado, esperando
alguma coisa, eu depreendi. Ocorreu-me que ele
esperava que eu apelasse a ele para salvar o meu irmão.
Ao pensar nisso, realmente o fiz. Eu lhe disse:
-Dario, querido, sei que tu és muito rico. Se salvares
Bruno quitando sua dívida com aqueles homens
perigosos, eu passarei a ti a minha parte na Santa
Gertrudes, nesta casa e no vinhedo.
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Antes que Dario pudesse responder, Bruno que
também estava quieto, mas cabisbaixo, envergonhado,
adiantou-se e disse:
-Alma, não posso aceitar o sacrifício do que mais
amas na vida, além de teu marido e tua família. Sei o
que a estância e este casarão significam para ti. Eu sei
o que vou fazer. Como não tenho com que pagar a
minha dívida, vou continuar a fugir. Estou decidido,
não tente me deter, parto hoje mesmo, somente peço
que dês ordem ao Galdério para me levar de carro à
estação. Nada mais te peço! Está decidido. Avise a
polícia depois que o trem partir. Quando meu credor
com seus capangas voltarem amanhã, diga-lhes que
fugi.
Eu, me sentindo impotente, desolada, recuei até
encontrar uma parede e literalmente escorreguei por
ela e me sentei no chão, abraçando meus joelhos.
Creio que foi para não desmaiar...
Quando eu tinha quinze anos e era portanto uma
ninfeta, o Vati dando uma churrascada em nossa
estância no dia de Santo Antonio, eu vestida de
prenda, um guri de uns nove anos, filho de um
estancieiro vizinho, vestido como um peãozinho e
com um bigode de carvão sentou ao meu lado e disse,
desenvolto: "Alma, eu te amo e vamos casar quando
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eu for grande. Mas tu tens que me esperar. Tu me
esperas?"
Eu o olhei com vontade de rir, mas só disse: "Guri, até
lá eu estarei muito velha, e tu não vai mais me querer".
"
Ele retrucou: "Vou, sim, eu gosto de gurias mais
velhas..."
Eu olhei um pouco mais com os olhos no seu
bigodinho e disse:
"Olhe, Martim, para esse acordo valer tu vai ter que
assinar um contrato com testemunhas e tudo... Dá
muito trabalho". E ele:
"Não Alma, meu pai disse que entre gente honesta é
no fio do bigode" (e ele passou a mão no lado direito
do bigodinho, borrando-o).
Eu dei um grande suspiro e disse:
"Quando eu tiver trinta anos e te apresentares com a
metade do bigode, a do lado esquerda, eu me casarei
contigo. Não te esquece... do lado esquerdo, o do
coração!"
E sai correndo e dando uma gargalhadinha. Na corrida
dei uma ligeira olhada para trás e... vi que ele estava
iluminado!
E... estranho... senti que me casaria mesmo com ele, se
ele mantivesse aquele brilho...
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26
Naquela mesma noite, Galdério e eu, com Bruno no
banco traseiro para eventualmente poder se esconder
deitando, estávamos na estrada a caminho da
estaçãozinha. Após a compra da passagem, tensos,
olhando para os lados, esperamos na plataforma o
trem Maria Fumaça que afinal chegou envolto em
vapor e fumaça, como uma densa neblina
propiciatória que protegeria meu irmão em sua fuga.
Assim devaneei em lágrimas, enquanto o abraçava
fortemente não querendo soltá-lo, meu desastrado e
infeliz irmão mais velho.
O trenzinho partiu resfolegando enquanto Bruno
acenava pateticamente de uma janela. Voltei em
lágrimas silenciosas no percurso de todo de volta, me
sentindo, por minha vez, fracassada, pois não pudera
realmente salvar o meu irmãozinho de meia-idade,
escritor cujo talento eu iria conferir e admirar um dia,
quando ele, como me prometeu, publicasse suas
“memórias de desventuras”.
Devo, a meu favor, revelar que dei ao meu irmão
grande parte das minhas economias para ajudá-lo em
sua fuga e talvez reerguê-lo um pouco para recomeçar
a vida, certamente com outro nome e sobrenome.
De volta ao casarão, abracei Dario, e não queria soltá-
lo, meu marido ideal, que não era um jogador, e cuja
sobriedade e firmeza eram agora o esteio desta família.
Logo estaríamos distribuindo armas, de madrugada,
entre os peões, para o que desse e viesse ao
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amanhecer, quando aquela engravatada gang do
pôquer viesse nos cobrar a dívida de Bruno.
__________________________________
Naquela manhã bem cedo, despertamos com “a mão
nos coldres”, por assim dizer, e colocamos nossos
peões bem armados e distribuídos estrategicamente
em torno do casarão, e alguns dentro, além de nós,
quero dizer: Dario, Galdério, Matilde e eu. Minha
amada Zoé eu deixei com a Quitéria, sua tia, na
estância vizinha, que também se armou, por
precaução, embora nada tivesse a ver com a nossa
situação. Na verdade, eu estava desesperada com a
perspectiva infeliz de minha filhinha, órfã de mãe ser
criada pela Quitéria, caso ocorresse uma desgraça.
Meu Deus, por quê Rodo não estava aqui ? Ele, que
seria o meu Heitor nesta guerra que se aproximava, já
que eu pusera para dentro um cavalo de Tróia...
Então liguei para o delegado de Rosário do Sul e o pus
a par da situação e o conclamei para evitar uma
tragédia. O delegado respondeu que viria com três
viaturas e muitos policiais
Então, por volta das 8:00 horas, avistamos na estrada
o carro dos credores, que adentrando a nossa porteira,
saltaram com as armas na mão. Eu, de vestido branco
até os pés, como sempre, mas com um absurdo coldre
e revolver na cintura, de pé na soleira, entre Dario e
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Galdério e mais dois peões de cada lado, mirando-os
com os olhos, fixamente, tentava me manter serena.
O chefe deles gritou:
-Senhora Alma, terminou o prazo, entregue-nos o
Bruno ou paguem sua dívida e partiremos, não haverá
confronto.
Eu respondi, firmemente:
-Senhor credor, Bruno não está mais aqui, resolveu
continuar sua fuga para não comprometer a família.
Partiu ainda ontem mesmo. Só resta aos senhores se
retirarem, pois só têm a perder, já que avisamos o
delegado de Rosário e a polícia está vindo.
O chefe do bando pareceu hesitar, entreolharam-se se
aproximaram uns dos outros e confabularam baixo e
brevemente. Então voltando novamente a olhar para
mim, colocou a arma no seu coldre do peito do paletó,
no estilo gangster, e os outros o imitaram. Colocou
dois dedos na testa na falta de um chapéu e voltando-
nos as costas, entraram no carro e... PARTIRAM!
Esperei eles sumirem na curva para então desmaiar
nos braços de Dario, meu marido ideal...
______________________________________
Quando voltei a mim, alguns minutos depois, nos
braços de Dario e com Matilde me abanando, me
ocorreu que aqueles gangsters, imediatamente
deduziram que Bruno escapara de trem pela nossa
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estaçãozinha, e que poderiam tentar interceptar o
trem, à moda do Velho Oeste hollywoodiano. Bem...
jamais saberemos, pois passar-se-ia um ano antes de
termos notícias do meu pobre irmão desastrado.
Voltarei a falar dele, por quem meu coração carregava
um pouco de culpa por não te podido fazer nada por
ele, cujo preço pela cabeça estava demasiado alto para
mim, e eu não tinha o direito de pedir tal soma ao meu
marido e nem ao Rodo, que já me tirara da enrascada
de uma multa judicial altíssima como narrei no tomo
anterior destas minhas “memórias de uma moça mal
comportada”. *
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TERCEIRO CAPÍTULO
A Rainha
Nada mais ocorreu de importante, até chegar o fim do
ano, quando então Rodo, Aline e Marco vieram para
Natal e as Férias, juntarem-se ao clã todo, com meus
amados sobrinhos adolescentes trazidos de Alegrete,
por Lucia, para dois meses de férias deslumbrantes.
Nessas temporadas eu entrava numa fase de êxtase e
felicidades inenarráveis, e Rodo me dizia que eu
adquiria uma espécie de luz, que logrei perceber um
dia, ao espelho. Mas isso é sabido, a felicidade cria
mesmo uma aura de luz, por ser uma emanação do
Bem Supremo.
Zoé florescia a olhos vistos e sua beleza encantava
como a minha quando era criança.
Ah! Até a minha doce Natália, já formada em
Literatura, e moça feita, veio juntar-se a nós para as
férias, e já não nos causaria “encrenca”, embora seus
pais, assim como a mãe de Aline, ainda não me
tragassem, essa é que era a verdade. Não se pode
agradar a todos nesta vida...
Entretanto, sabemos que o equilíbrio é frágil e a Paz
não é deste mundo. Antes do Natal recebi uma carta
de Dona Maria de Marco, a mãe de Aline, que
reivindicava o direito de visitar o seu neto aqui na
estância, já que Aline, “herdeira ingrata”, não o levava
31
mais até ela em São Paulo. Eu sabia por experiência,
como aquela senhora era de temperamento difícil e
preconceituoso, mas reconhecia o seu direito de
contato com o neto, nosso querido Marco. Respondi
positivamente a carta, transformando gentilmente sua
“requisição” em convite de minha parte. Que ela
viesse se juntar a nós para o Natal e as festas de Fim
de Ano!
Assim, em meados de Dezembro fomos, Aline, Rodo
eu e Galdério, de carro, buscá-la na estaçãozinha, no
que, para mim, desde a infância, era um adorado
“programa de festejos”:
Meu trenzinho (de Alma Welt)
Ainda espero o trem da minha infância
O mesmo, de fumaça, em meio à bruma;
Trenzinho dos meus sonhos sem ganância,
Que pra essa estação ainda não ruma...
A viagem cujo rumo mal importa,
É toda encantamento como outrora,
Envolta no mistério de uma porta
Que não logrei transpor até agora.
Pois o que interessava era o comboio
Levando e trazendo o não e o sim,
Separando em mim o trigo e o joio...
Era eu que eu esperava ou despedia,
Tudo se passava dentro em mim,
Plataforma em que eu chorava e ria...
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Logo estaríamos ali na plataforma, quando o trenzinho
chegou resfolegando em meio à bruma do vapor que
me encantava, esperando aquela senhora italiana que
eu nunca vira pessoalmente, falara pouco comigo
apenas por telefone e de maneira desagradável, pois
me discriminara, embora compreensivelmente, como
parceira de sua filha e mãe de seu neto.
Ela apareceu em meio ao vapor como uma rainha,
surpreendentemente bem vestida, elegante mesmo, e
com um porte imponente, cabelos grisalhos, e nariz
empinado. Aproximou-se de nós com segurança, e eu
diria... com antecipado desprezo mal disfarçado. E eu,
Alma, deveria ser o alvo específico desse desprezo.
Dona Maria de Marco lançou os olhos sobre mim, da
cabeça aos pés, praticamente exclamou, com uma certa
ambigüidade: - Alma Welt!
Eu, naturalmente, fiz um ligeira genuflexão,
acompanhada de uma irônica vênia que ela preferiu
ignorar. E sem me estender a mão, logo dirigiu-se à
sua filha, para abraçá-la estendendo a mão ao Rodo, o
maridão.
Um “boy” da estação trazia a sua bagagem e a colocou
no porta-mala do nosso automóvel, e ela, abrindo
uma bolsinha dourada, retirou uma nota e deu de
gorjeta ao garoto, que se retirou. Mas, esta grande
dama teve que aboletar-se prosaicamente no banco de
atrás, entre sua filha e seu genro.
33
Eu, me lembro bem... no banco do carona, durante
toda a viagem de volta, eu sentia um ligeiro frio na
nuca. Ou era uma impressão do meu sugestionável
coração?
________________________________
Sentindo a atmosfera bastante absurda , com a nossa
nova convidada, a Rainha Maria de Marco, eu, depois
conduzi-la ao seu aposento, a melhor suíte de
hospedes do casarão, com a grande cama de dossel
que fora de meus pais, lençóis branquíssimos e
imensos travesseiros de plumas, com fronhas virgens
igualmente alvas, depois de seu descanso, ao chamá-la
para o jantar, servi-a à mesa quase como uma mucama
de Casa Grande, sob o olhar perplexo de Aline
percebendo a nota irônica que eu queria imprimir à
minha atitude. Se a Rainha percebia ou não, ela não
demonstrava, e agia com naturalidade na sua
arrogância, de quem estava acostumada a ser servida.
Pobre Aline! Comecei a imaginar como teria sido a
infância e adolescência de minha doce parceirinha de
outrora, a linda modelo nua das minhas melhores
telas...
No fim daquela noite cheia de pequenos lances
ligeiramente caricatos, produzidos pela minha
impertinência, a que a Rainha fingia não perceber
como a quem “noblesse oblige”, todos afinal recolhidos
aos seus quartos, persistindo em mim aquela sensação
34
de absurdo, ao escrever como sempre antes de apagar
a luz e dormir, me saiu este pequeno conto “nosense”,
de sabor medieval, que transcrevo aqui, porque o achei
divertido ao relê-lo pela manhã:
Rofoldo, o guarda-corujas (de Alma Welt)
Rofoldo (seu nome era Rofoldo mesmo, e não Rodolfo como era de
se esperar), era um excelente guarda-corujas. Mas não um guarda-
corujas qualquer, mas de 1º grau e sem parachutes. Meticuloso e
monótono, seu cotidiano possuía uma poesia ácida e insuspeita, que
o fez apaixonar-se desavisadamente (eu sei que parece redundância )
pela cabrita do seu parceiro e fiel atormentador de fins-de-semana:
Garvão (com r mesmo), o último atormentador daquele condado
desde que o conde morrera sem deixar descendentes. A situação
tendia a se radicalizar pois, contra todas as expectativas do povo do
“Condado-sem-Conde”, como passou a se chamar aquele vale (ah!
não contei que era um vale!) a cabrita não se fez de rogada e
correspondeu à paixão de Rofoldo, com suaves balidos.
Infelizmente não foi registrado nos anais do vale, minuciosamente
como se deveria, as relações, anais ou não, da ilustre cabrita com o
agora célebre guarda-corujas. Mas nós, que nos empenhamos em
colher a ponta do fio da meada, descobrimos uma biografia rica de
sabores folclóricos e até mesmo educativos. Trata-se de tomar o
melhor partido de tudo o que se nos apresente na vida.
Nada mais tenho a dizer.
O Guilherme de Faria, que convidei e veio novamente
para as Festas, e a quem mostrei este mini conto,
desenhou para mim o “guarda-corujas” conforme sua
concepção subjetiva de mestre desenhista, como uma
coruja mesma, um corujão de óculos e gravata
borboleta. Sob certo ângulo de visão nada faz mesmo
muito sentido nesta vida. Mas foi dito que se nos
35
acostumamos com freqüência a abordar tal ângulo, é
muito perigoso, pois podemos não voltar mais.
________________________________________________
No dia seguinte de manhã cedo após pedir à Matilde
que levasse o café na cama para Sua Majestade, tentei
engatar o fio da normalidade, após o café da manhã
completo (e chimarrão para quem quis) com as
crianças, fui brincar com elas no jardim e no pomar
em torno da minha macieira, a “ARA dos Pampas”,
com quatro delas já adolescentes passando os dedos
ritualisticamente na cicatriz em forma de coração
36
gravado por mim, AR, a partir da minha infância com
Rodo, e completado há alguns anos com o A de Aline.
Bah! Eu queria que a Rainha visse essa cicatriz
completa e definitiva e... me aceitasse, sim, pelo menos
no passado da minha amada, pois, para mim, os
amados e amadas são eternos, ela tinha que saber!
Contudo, naquela manhã, observando as crianças
brincarem tão alegremente... algo, de repente,
aconteceu dentro de mim. Senti como se o mundo, o
país, o Sul, enfim... estivessem finalmente sob um
governante feliz, e me senti subitamente envergonhada
da minha atitude para com a minha hóspede. Eu
percebi que meu comportamento era fruto de um
ressentimento longamente guardado, simplesmente
por não ser aceita por ela, eu, que no meu próprio
orgulho, não tinha o direito de me insurgir contra um
orgulho talvez mais legítimo, e que eu deveria me
submeter, sim, mas com a verdadeira humildade que
eu tinha que encontrar dentro de mim. Só assim (eu
descobri de repente) eu poderia salvar as minhas
Férias, e, provavelmente, a de todos, que lentamente
acabariam sendo afetados pelo meu surdo
ressentimento.
Voltei para dentro de casa para receber
condignamente a minha hóspede, que, já acordada e
tendo tomado o seu café no quarto, estava no salão e
um pouco triste (eu percebi), embora com a mesma
altivez. Ali, na semi-obscuridade permanente daquele
salão realmente nobre, aproximei-me dela,
37
humildemente, abracei-a levemente e a beijei
suavemente no rosto, tão autenticamente que, ela,
embora paralisada e surpresa, percebendo, talvez, uma
aura diferente em mim, não me repeliu.
Ao desfazer com naturalidade o meu abraço, percebi a
sua mão direita tocar suavemente minha face, num
esboço de carícia. Senti, então, que eu poderia
transformar aquilo, “no começo de uma bela
amizade.” *
Sim, “eu sempre necessitei da bondade dos outros” *,
como aquela pobre, linda e louca Blanche Dubois...
___________________________________
Dali por diante as coisas foram mudando, e Dona
Maria aos poucos começou a participar dos passeios e
até dos jogos que organizávamos e dava-me a mão em
cirandas que se formavam ao som de uma flauta doce
soprada por Rodo, seu genro, que este, a cativara
rapidamente também no segundo dia por sua
naturalidade desabrida, sua virilidade e seu vitalismo.
Ela o considerou digno de sua filha. E estava sendo
cativada também, é claro, por seu neto, o pequeno
Marco, cuja beleza e graça a comprou de saída. Foram
dias felizes aquele até o Natal quando Dona Maria
participou da montagem do Presépio e do grande
“pinheirinho” colhido no nosso próprio quintal, por
assim dizer, de um lado da nossa piscina, em que, a
propósito, Dona Maria (não a chamarei mais de
“Rainha), no terceiro ou quarto dia enfrentou as águas
38
num maiô antiquado, dos anos trinta, que ela
escondera no fundo da mala, nos surpreendendo
jocosamente. Na verdade ela estava bela, de um jeito
peculiar, pois evocava a sua juventude, em que
percebíamos ter sido esplendorosa e percebemos por
quem Aline “tinha puxado”.
Eu estava ficando feliz demais, e Rodo, que me
conhecia bem, começou a ficar preocupado com meus
risos e gargalhadas a toda hora. Ele temia um pico
repentino de minha bi-polaridade não diagnosticada,
mas suspeitada leigamente por alguns. Eu precisava da
minha querida Doutora Jensen por aqui, e telefonei a
ela convidando-a para o Natal, na verdade numa
espécie de pedido de socorro, implícito. É curioso
pedirmos ajuda por excesso de felicidade, mas era o
caso. E ela me conhecia.
Eu comecei a ter que disfarçar minha alegria, e o fazia
desajeitadamente, fechando a cara após uma
gargalhadinha que fosse, como fazem certos
adolescentes.
Até a minha adorada Doutora Jensen chegar para me
salvar de mim mesma, de minha felicidade desmedida,
que, ela, aceitando meu convite, nos primeiros dias só
fez aumentar.
________________________________________
39
Nas últimas páginas do diálogo A República, de
Platão, este descreve no chamado "Mito de Er" e
do "fuso de Ananke", a escolha que a alma de
Odisseu morto (o inventor do "Cavalo de Tróia")
faz de uma nova vida, agora de um homem
modesto, comum (talvez até mesmo medíocre), já
que tendo sofrido muito na sua encarnação
aventurosa célebre, optou pelo contrário para sua
nova encarnação e saiu dali com seu sorriso
astuto de sempre... Decididamente Platão tinha
humor (embora não escrachado como o de seu
inimigo Aristófanes) mas tão sutil que passa
despercebido até para os seus exegetas. Quanto a
mim, gostaria, no jogo das almas, de renascer
poeta, assim como os samurais que tivessem
cumprido o Bushido (código de honra dos
samurais) tinham a esperança de renascer
novamente samurais após a morte em batalha,
duelo, ou pelo sepuku (harakiri). Por quê, Alma?
(pode alguém perguntar). Os poetas não sofrem
demais, e entre os artistas não são,
estatisticamente, os que mais se suicidam? Eu
respondo: Sim, sofremos muito, mas também
temos grandes êxtases, e descortinamos o real e
seu sentido "autêntico e absoluto" (como
escreveu Novalis), como ninguém. "Não gostarias
de renascer -insistem- como uma simples dona de
40
casa, atarefada com o asseio do lar, as roupas de
cama e as de seu marido e filhos, e ser feliz
armando e desarmando a árvore de Natal com
um sorriso terno, pensando na alegria das
crianças quando estraçalhavam os papéis
coloridos que embrulhavam os presentes?"
Bem... tentadores, não insistam nessas
comparações porque entre o heróico e o
comezinho meu coração balança: há poesia
também nas coisas mais comuns, mesmo banais,
e essa é talvez a compensação do mundo. E
depois... a alegria, a verdadeira alegria, sempre
esteve ao alcance de todos, ainda que fugaz, e
(como escreveu Nietzsche) "pede eternidade, a
profunda eternidade”...
41
QUARTO CAPÍTULO
O Natal dos Welt
Finalmente, chegou o Natal, e a minha doutora
Jensen, que deixou a sua clinica em Alegrete,
(onde fui uma vez internada, e participou de
nossa lauta e maravilhosa ceia de Natal, numa das
cabeceiras da enorme e comprida mesa, com a
Dona Maria, que estava ganhando o meu
coração, na outra ponta. Eu me reservei um
assento no meio do lado direito, com Dario, meu
marido ideal, Rodo, Aline, Patrícia, Natália,
Guilherme, o velho artista, meu querido mentor,
e até Quitéria, que convidei, claro, já era da
família, mas se ressentiu nitidamente de não
poder ocupar uma das cabeceiras, reservadas às
matriarcas. Por um momento, ao sentarmos,
fuzilou-me com os olhos.
Do outro lado da mesa para podermos conversar
com eles e até controlá-los um pouco, ficaram as
crianças, Marco e Zoé, bem defronte a mim, mais
um pretinho lindo, filho da nossa copeira Liona
Garra que “herdei” da Quitéria e que quis servir,
prestimosamente a mesa; mais os adolescentes
Pedrinho, Hans e Christian. Matilde e Galdério
42
convidados por mim, recusaram sentar conosco e
participar da ceia preparada por eles, agradecidos,
mas muito compenetrados, que eram, da
hierarquia. Eu naturalmente, a Poeta da casa, no
início da Ceia, à meia noite, levantei e fiz como
brinde a declamação deste soneto de Natal que
escrevi na véspera, que olhando para elas,
dediquei às minha crianças:
O Natal do Menino Jesus (de Alma Welt)
Quando nosso Natal se aproximava
Eu me punha inquieta e tão falante,
Eufórica, a correr a todo instante,
Até que a bá, Matilde, então ralhava:
"Que pensas, guria, que é o Natal?
Não acordes o menino Jesusinho
Que está na manjedoura como um ninho,
Dormindo longe do barulho e todo o Mal."
Então, envergonhada eu me calava:
Imitando-lhe o gesto de silêncio,
Com o dedinho os lábios eu selava*
*(Zoé imitou-me nesse verso, com o dedinho nos lábios)
E eis que o Mundo todo se aquietava
Diante do menino em sono imenso
Que o presente de sua vida já nos dava...
43
Todos aplaudiram bastante, alguns comovidos
como Zoé, que saiu de seu lugar e deu a volta na
mesa e veio abraçar as minhas pernas sob
aplausos que aumentaram no meio de um assovio
agudo e maroto, de moleque, do Rodo, que fez
todos gargalharem, roubando a cena. Quanto a
mim pensei que não conseguiria chegar ao fim da
Ceia, que eu teria um colapso de felicidade.
Dario, prudentemente, não deixou que eu,
durante o repasto, bebesse o vinho que tirei da
nossa adega. Ele me conhecia.
Então, a propósito, ali, declamei para o Dario
este soneto que improvisei como uma repentista:
Celebremos a vida, sem abuso,
Com moderados goles de bom vinho,
Pois quem puder beber faça bom uso
E quem não puder fique quietinho.
Pois há quem já bebeu a sua cota
Com imensa sede ao pote, de menino,
E agora basta um só gole e capota
Ou vai soprar a flauta do destino...
E depois, quem de nós bebum suporta?
Nem sua própria mãe, pelo que eu saiba,
Que prefere lhe cerrar a sua porta.
Então comam, mas não bebam no Natal
Nem o que num pequeno dedal caiba
Que um só gole é um tonel sem fim, fatal!
(Uma imensa gargalhada geral iniciou a Ceia)
44
Dos dias que se seguiram ao Natal, tenho pouco a
dizer, porque foram bastante intimistas, os meus
queridos confraternizando os hóspedes, dando-se a
conhecer, em contatos dois a dois, insondáveis,
conferindo-se, talvez. Percebi, por exemplo, que
Natália, guria ambiciosa, se insinuava ao velho mestre
Guilherme, com a intenção de ser retratada em tela ou
em desenho por ele, que não se fez de rogado. Grande
voyeur, logo estaria a pintá-la nua, frontal e de costas,
lindamente, é verdade. Eu adejava entre os pares ou
grupelhos que se formavam, como se fosse a
maestrina de um concerto de câmera, senão uma
sinfonia. Foram dias harmoniosos aqueles, entre
pessoas de um universo em comum, que na verdade
era centrado em mim, no meu Ego de poeta e
incorrigível amorosa, essa é que a verdade.
Foi então que um novo elemento complicador se
intrometeu naquela espécie de baile harmonioso que
se estabelecera às vésperas do nosso Ano Novo. Laís
reapareceu, chegada da Europa, sem saber que Rodo
estava casado com Aline e assumido nosso filhinho
Marco, felizes os três. O problema era que Laís veio
disposta a reivindicar seu lugar na vida dele, ela que o
abandonara em Monte Carlo, talvez com razão. Mas
agora era tarde! Ela, arrependida, reivindicava
tacitamente o seu lugar também na minha vida, aqui na
estância e no casarão, igualmente tarde, já que eu
estava casada, e com um marido ideal. Longe iam os
tempos de ménages, trios e “quatrilhos” por aqui.
45
_____________________________________
Dentre os inúmeros peões que tivemos aqui na
estância, havia um “gaucho” da banda oriental,
uruguaio, que se destacou pela competência, mas
também pelo temperamento esquivo, confundido com
maus bofes. De um modo geral era silencioso e
solitário, não se misturava. Bom de laço e boleadeiras,
excelente domador de cavalos, não havia garanhão
chucro que ele não pusesse o freio em menos de dez
minutos, sob aplausos de outros peões, que fora do
cercado não o teriam cumprimentado.
Pois bueno, esse peão, Facundo era o seu nome (o
“apelido”, sobrenome, eu nunca soube) deveria
protagonizar um episódio doloroso de que alguns se
lembram ainda com um arrepio.
Por aqui chegou para trabalhar na Sta Gertrudes, uma
família de holandeses que tinha uma filha, uma guria
loura, rechonchuda, muito guapa embora arredia e
tímida, sempre debaixo das rédeas dos pais, que mal a
deixavam trabalhar fora da casa, nem mesmo no
vinhedo, para não andar por aí. Pois bem, Facundo
deu um jeito de se aproximar da prenda e de alguma
forma começou um namoro às escondidas. Acontece
que a guria tinha um irmão, rapaz alto e louro,
espadaúdo e de grossos punhos e manoplas.
Certamente havia um grande contraste entre os tipos,
vocês podem imaginar: o uruguaio, vagamente sinistro,
com seu nariz aquilino e seu rosto sulcado, mal
46
barbeado e moreno, bem latino, ao mesmo tempo
arredio e cheio de orgulho, e o aparentemente bronco
e enorme holandês louro mal saído da adolescência.
Mas o embate inevitável dos dois ocorreria logo, após
duas semanas do namoro secreto, que algum peão
intrigante testemunhara, alguém que quisera ver o
circo pegar fogo. Assim, na nossa “colina do
enforcado”, ou do umbu-rei como a chamo, houve o
último duelo por estas bandas desde então.
Diz o nosso querido Galdério, conterrâneo do
malfadado domador, que foram chamadas
testemunhas uma de cada lado e que tudo deveria se
passar dentro das regras que por aqui existem desde
antes dos farroupilhas. Mas o fato é que não houve
sobreviventes, pois embora Facundo tivesse deixado
para trás três mortos (nunca se soube o que realmente
ocorreu), ele próprio não foi encontrado senão três
dias depois, na fronteira, caído de borco, ainda com a
mão no ventre e a do braço estendido mergulhada no
Arroio do Chuí.
Ele quase chegara à sua terra, mas segundo consta,
deste lado da fronteira alguém chorou por ele. Sua
vida de solitário banido não fora de todo
desperdiçada...
47
Agora eu tinha duas de minhas ex-amantes
desemparceiradas e descontentes, vagando entre nós,
os “felizes”. Estou sendo cínica, eu sei, mas , na
verdade me doía a condição provisória das duas, que
não cogitavam de unir-se em parceria amorosa entre
si.
Impotente, agora, para solucionar a vidas dos outros,
já que arrependida eu renunciara à manipulação, eu me
punha a compor sonetos como estes:
Quantas vezes tateamos na penumbra
Seguindo tão somente o nosso faro
De lembranças e do sentimento raro
Como lobos caminhando pela tundra...
Percepções difíceis, vagas e sutis
Que mal logramos, a rigor, sintonizar
Evitando as escolhas torpes, vis,
Para o nosso pensamento clarear...
Mas do quê estás falando, ó minha Alma?
Não sabes que o caminho está traçado
No solo claro e limpo da tua palma?
Tudo é Destino, mormente tuas escolhas
E não poderás senão cumprir teu fado,
Teu soprinho a formar tão belas bolhas...
48
Toda vida humana é aventura,
Um;thriller;, uma saga ou epopéia
Em que ouvimos sirenosa melopéia *
Numa nau.deitadas sortes à ventura.*
Ou pensáveis que viestes a passeio
Curtir belas primaveras e os verões?
Ou só da juventude o doce enleio
Que existe entre fêmeas e varões?
Ou então apaixonar-vos, transgressivas,
Por outras belas fêmeas, se assim sois,
Ou, de machos, relações mais agressivas?
Sabei, por certo alta taxa ireis pagar,
Já que não há almoço grátis;, ora, pois
Vendeis almoço pelo preço do jantar...
_________________________________________
À Deriva (de Alma)
Ser no mundo é estar no mesmo barco,
E não podes simplesmente pular fora;
Não tens como nem pra onde ir embora
Estejas no oceano ou num charco...
Do doutor Victor, o monstro remendado
Afirmou a certa altura ter deixado
Para trás toda a humana sociedade
E incendiou-se em meio à tempestade...
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Não podes cair fora sem tragédia.
Cada um que o tenta é um motim:
Condenado no todo ou pela média
Hás de ficar à deriva até o fim...
Se, ao pulares, manter, pensas, a rédea,
Ao sabor ficas, das correntes... vai por mim.
______________________________________
Assim, eu me dava conta de que escrever é renunciar à toda
ação, menos à do próprio ato de escrever. E eu apenas
esperava, que Natália e Laís se descobrissem, sem mim
como catalisadora ativa, somente, talvez, como inspiração.
Agora que eu era mãe, minha relação com as crianças tinha
que ser mais responsável e não caberia mais os jogos de cena
de estátuas nuas, de outrora, nem mesmo os jogos de
espiões, como os que salvaram a nossa estância, e que
também não se justificariam mais. Eu tinha que me impor
como adulta perante a cobrança tácita de mulheres maduras
como Dona Maria de Marco, Quitéria, e talvez, de longe,
dos pais de Natália, também. Dario, meu marido ideal, ainda
apaixonado, era bastante condescendente comigo, que
confesso tê-lo manipulado de maneira alarmante, no
princípio. Todavia, recuso o epíteto de “grande
manipuladora” ou “Casanova de saias” que quiseram me
impingir em duas ocasiões nos tribunais. Sou artista, e se
estivéssemos num palco eu seria a diretora. É assim que me
vejo.
Mas agora estava ocorrendo um novo fator de desarmonia
no seio do meu numeroso elenco: Natália e Laís não se
50
bicaram de saída. Criou-se um ambiente de disputa e intriga
entre elas, em relação a mim, naturalmente. Como se não
pudesse todas caber no meu coração... Ó insensatas! A coisa
ficou tão séria que quase estive a ponto de despachá-las para
os seus “pagos” de origem, como diríamos aqui no Sul.
_______________________________________________
Penso muito na vida e no mundo de uma maneira geral, não
pessoal, isto é, com um distanciamento senão crítico, de
espectadora. Me parece sempre que estou do lado de fora, e
que a minha vida mesma pertence a uma outra esfera, mais
monótona, bucólica e de uma solidão romântica às vezes
dolorosa. Não sei porque sou assim, pois, afinal, cercada de
duas irmã mais pragmáticas e um irmão ousado e
aventureiro, não deveria me sentir assim, fora do mundo
verdadeiro, como se vivesse num sonho plausível,
ligeiramente melancólico ás vezes, eufórico outras. Rodo,
meu irmão, muitas vezes me arrastou para aventuras, na
nossa infância, em que eu não me entregava totalmente,
talvez por causa da minha admiração por ele, por seu
entusiasmo e simplicidade. Minha natureza de poeta e
escritora sempre foi contemplativa, e me impede de me
integrar com o ambiente humano ao meu redor. Serei uma
romântica como George Sand como escritora? Estarei vendo
este Pampa e estes peões que me circundam, os gáltchos e
gaudérios, de maneira idealista, ou mesmo folclórica? Não
sei... O mundo vai julgar. Sei que sou sincera e derramo as
palavras como elas me vêm, embora cultivadas e não rudes
como esses simpáticos machões que me circundam, com
suas falas altas e sonoras, com sua bombachas, bigodes e
chimarrões. E até com seus sinistros punhais adormecidos
nas faixas que envolvem suas cinturas...
51
Tenho o hábito de acordar bem cedo e vagar pela coxilha
que cintila lindamente em reflexos prateados seu orvalho da
madrugada. Numa manhã dessas topei com um negrinho
aqui da estância que me fazia pensar no Negrinho nosso do
Pastoreio, embora nunca esteja pastoreando nenhuma rês.
Ele disse logo: "Bom dia Dona Alma. Eu vejo a senhora de
manhã todos os dias, mas me escondo atrás dos cupins por
isso a senhora não me vê. Hoje tomei coragem e não me
escondi." Surpresa, eu disse sorrindo: "Bom dia,
Raimundinho! Mas que negócio é esse de me observar
escondido? Não sabes que isso é feio?" Então ele sorriu
meio envergonhado e respondeu: "Ah! Dona Alma... É que
assim eu penso que estou protegendo a senhora, porque de
perto e de frente é como se a senhora é que estivesse me
protegendo, e não é certo." Fiquei olhando pra ele,
comovida de ver que ele se conhecia tanto, capaz de
expressar uma coisa como essa, que resumia toda a sua
dignidade e fidelidade, com as quais eu poderia sempre
contar.
Então voltou-me à memória episódios como este:
Quando eu era guria pequena, meu pai me levou a um
velório de um velho peão aqui da estância, e ao ver aquele
corpo parado em cima da mesa, todo ataviado, de
bombachas e esporas, e perguntei ao meu pai: ;Vati, ele
não vai se mexer mais? Então, Lucia, minha irmã, se
adiantou e disse: Não, Alma, ele vai virar uma borboleta...
Nesse momento, Rodo, meu irmãozinho muito esperto,
interferiu dizendo:- Não, suas bobas. Ele vai virar uma
caveira. e arreganhou os dentinhos num sorrizinho
grotesco. Calei-me então, e permaneci pensativa entre estas
duas imagens, a encantada e a perturbadora... Assim estou
até hoje.
52
Também isto:
Uma vez, de volta à estância chegando de viagem, nossa
Matilde veio me receber em lágrimas, mas que não eram de
alegria. "Minha guria" - disse ela- nosso Rodo foi preso em
Monte Carlo! Estava roubando no jogo, eles disseram!"
Imediatamente eu soube que era calúnia de perdedores, pois
meu irmão era um profissional competente, não precisava
roubar. Mas a angústia me subiu ao peito. Eu estava disposta
a ir para lá, tão longe... pagar fiança, sei lá! Mas enquanto
pensava no que fazer, tocou o telefone. Era Rodo, dizendo:
"Alma, estou em Livramento, roubaram meu passaporte em
Punta del’Este, quando eu pretendia partir para Monte
Carlo. Irei para casa, guria, vou dar um tempo. Meu coração
encheu-se de alegria, e pela primeira vez agradeci a um
ladrão.
O curioso desta estória é que sutilmente ela indica que o
Rodo realmente roubou, não foi roubado, e estava em
livramento e não Santana do Livramento. Provavelmente
pagou fiança e ainda estava na Europa. E o ladrão que a
agradeci era o próprio Rodo por estar voltando para os meus
braços...
Como já contei algumas vezes, eu costumava (até hoje, na
verdade) banhar-me nua no nosso poço da cascata. Na
infância e adolescência eu já fazia isso sozinha ou com o
Rôdo, meu irmão, e brincávamos ali por no mínimo uma
hora a cada dia escolhido, nos verões de nossas férias. Vez
por outra ouvíamos comentários de comentários pois havia
espiões, desde Solange até mesmo um peão, nos observaram
escondidos. Mas isso nunca nos deteve. Rôdo foi sempre
muito respeitado, desde guri, por seu espírito indômito,
cheio de um caráter firme e segurança interior. Meu
irmãozinho sempre foi um fenômeno e eu o admiro e sinto-
53
me segura com ele, como se fosse... sua “prenda”, essa é a
verdade.
Digo isso porque houve mesmo o momento em que fui
disputada à faca ao meu irmão, por um jovem peão, que
tendo me visto nua, apaixonou-se, alucinou, e achou que por
ter-me visto assim, eu era automaticamente dele: ele já me
possuíra com o seu olhar. Foi uma situação insólita e
peculiar, e se não fosse Rôdo defender-me eu seria mesmo
“possuída”, isto é, violada por aquele jovem na primeira
oportunidade.
Lembro-me que tive um pressentimento, certa manhã,
quando Rôdo não apareceu ao encontro combinado, no
poço, e então corri para a pradaria, ao lugar onde sobre uma
coxilha havia um grande umbuzeiro, a nossa árvore
preferida, depois da macieira do meu pomar.
De longe já os avistei, batendo-se à faca. Eu vinha gritando,
gritando de medo de Rôdo ser ferido, e chegando esbaforida
após subir a colina, caí exausta entre os dois. Eles pararam,
seus punhais na mão, e ficaram olhando-me, ofegantes
também.
Então, eu (nunca me esqueço), guria melodramática fiz a
única coisa que poderia detê-los: ajoelhada na relva, rasguei
subitamente o busto do meu vestido e desnudei meus seios,
que ofereci, gritando:
–Vamos, cravem suas facas, aqui, uma em cada seio, depois
afastem-se para sempre, um do outro!
Os dois gaúchos, atônitos, estarrecidos (o próprio Rôdo
jamais esperaria uma coisa assim) guardaram suas facas e
afastaram-se, Rôdo logo seguido por mim, que no caminho,
como uma pequena “vivandeira*, recompunha meus
“farrapos” com a mão, seguindo o meu guerreiro.
Tinha certeza, como ainda hoje (embora eu ria quando me
lembro daquilo), que eu produzira uma espécie feminina de
54
“juizo salomônico”, livresco ou instintivo, não sei ao certo.
Eu caminhava perplexa comigo mesma, mas aliviada, feliz.
Não seria disputada nesse nível perigoso, tão cedo, por
ninguém.
Por falar em “juízo salomônico, lembrei-me de um episódio
de muitos anos atrás, aqui na estância
Uma manhã, há muitos anos, recebi uma moça camponesa,
uma das minhas colhedoras de uvas, guria encantadora em
sua beleza rústica, de grandes olhos sombreados pelo chapéu
e o lenço que o cobre para amarrá-lo num laço sob o queixo.
Uma espécie de corpete realça-lhe os seios, e lhe empresta
um ar antigo, que remete-me mais depressa à minha
condição de princesa, ou de rainha mesmo. Imbuída do meu
papel, ou reconciliada com ele, graças as divagações que
expus acima, eu ouço a queixa da camponesa:
— Dona Alma, quero me casar com o Léo, o guri
encarregado dos batoques dos barris, e meus pais me
proíbem, pois seu trabalho é desprezado e sofre chacota
entre os peões. Dizem que ele só sabe tapar buracos ( ela
pôs a mão na boca, acompanhada por mim mas com um
sorriso, nesta reação). Mas o Léo, está tão desesperado, que
me propôs... ai!, não tenho coragem de dizer ( ela cobriu
pudicamente as faces com as mãos).
Tive vontade de rir, e creio que soltei uma pequena
gargalhada que logo controlei, instigando-a:
—Raimunda, guria, o que o Léo pode ter te proposto? Abrir
um buraco, em vez de fechá-lo?(Ela corou, com a mão na
boca, mas eu logo me arrependi da brincadeira, pois a
situação delineava contornos mais sérios). Querida, tu deves
tomar cuidado, pois quando um homem propõe isto a uma
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moça simples, está sempre fazendo um teste, mesmo que
ainda não saiba disto.
Raimunda ficou um pouco confusa, mas creio que captou o
que eu quis lhe transmitir. No código de valores dessas
criaturas, que temos que levar em conta, a virgindade é coisa
seríssima, e depois do leite derramado, só resta esperar a
benevolência ou o bom caráter do rapaz, que se mostre
disposto a reparar o erro casando, ou então sofrer castigos e
freqüentemente o desprezo da própria família, coisa que
virtualmente as destroem. Mais antigamente houve casos em
que o próprio pai pôs a filha na zona, como castigo e
repúdio perpétuo, crueldade inimaginável nos dias de hoje,
mas que teoricamente não foi apagada do código
internalizado de certos pais-peões, de irmãos, e até mesmo
(pasmem) de certas matriarcas camponesas. Na minha
infância ouvi contar, principalmente na cozinha da estância,
pela boca de Matilde, tragédias como essas. Desconfio que
minha babá, depois cozinheira, falava disso para me alertar,
de medo que eu própria malbaratasse minha virgindade, e
nunca mais pudesse casar. Pobre Matilde, se ela soubesse o
que realmente penso de tudo isso... Não, ela não poderia
compreender.
—Querida,-eu completei-resista, resista. E espera, que
quando teus pais perceberem a força do amor de vocês, se
ele existir, o casamento virá, naturalmente, por si só... (eu
jamais seria capaz de seguir, eu mesma, tal conselho, pois
sou impaciente e precipitaria as coisas com alguma loucura.)
—Mas dona Alma, o caso é que meu pai vai me casar dentro
de uns dias com o senhor Paco, só porque ele tem um
pedacinho de terra que a senhora lhe deu, e chega de lá
montado num cavalo dele mesmo. Eu não quero, dona
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Alma, eu não amo aquele homem! Eu tenho horror daquele
homem! (Ela caiu num súbito pranto).
Fiquei consternada por constatar, que até os dias de hoje
ainda ocorriam entre os camponeses da nossa estância,
casamentos impostos, arranjados, sem levar em conta os
sentimentos das moças. O século dezenove adentrara o
século vinte inteiro e chegara ao terceiro milênio. Era
inacreditável! Aquela mocinha estava votada ao estupro, e
nada poderia poupá-la desse destino anunciado, essa é que
era a verdade! Senti um súbito aperto no peito, por empatia,
por identificação anímica de mulher, e só pude chorar por
ela, abraçando-a, fraternalmente. O que poderia eu dizer a
ela, diante daquelas circunstâncias? Poderia eu instigá-la a
fugir com o guri, o pequeno peão tão desprezado pelo seu
humilde ofício? Não! Mas se eu tinha algum poder, que me
delegavam, eu o usaria com alguma sabedoria, se eu
invocasse a Deus esse dom.
Ao pensar assim, a solução me foi imediatamente apontada,
como um juízo salomônico. Eu disse:
-Raimundinha,vou tentar algo, mas tu deves guardar segredo
dessa nossa conversa. Dê um jeito de avisar o Léo, para que
me procure, imediatamente.
A guria, um tanto surpresa, saiu correndo, semeada de
esperança, depois de beijar-me as mãos, comovedoramente.
Eu meditava no que deveria dizer ao pequeno batoqueiro.
Passados dez minutos chegou ele, bastante tenso e
desconfiado. Saudou-me um tanto constrangido, de olhos
baixos, como se esperasse ser repreendido. Eu lhe disse:
–Olá, Léo. Hoje pode ser o teu dia de sorte. Mas antes deves
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me responder algo com toda a sinceridade. Amas alguém,
uma moça aqui da estância, sim ou não?
O jovem, nada feio, um tanto matuto, mas bem apanhado
para um peão ignorante, hesitou um pouco, e respondeu:
—Sim, dona Alma, mas não sei o que... (calou-se, de olhos
baixos).
—Bem Léo, é a Mundinha o teu amor? É verdade que a
amas?
—Sss...sim, dona Alma, mas não atino como sabes...
—Então, Léo, prepara-te porque vais casar-te com ela, que é
minha protegida. E por isso vão ganhar como presente meu,
de casamento, um pedaço de terra, bem fértil, e com uma
querência nele, um pampeiro, e duas vacas, umas galinhas
também. É o meu presente de casamento. Vou passar a
escritura em nome dos dois, desde já, confiando na
realização desse casamento e de que ele será muito feliz. Mas
tens que me prometer, que a tratarás como uma princesa,
que é isso o que as mulheres são, sabias?
Léo ficou um instante boquiaberto, depois ajoelhou-se
subitamente e agarrando-me a fimbria do vestido, sem
levantá-la, curvado, beijou-a quase deitado aos meus pés. Eu
tive que tocar-lhe os ombros para instá-lo a parar com
aquilo. Ele estava deslumbrado, e chorava, de emoção, de
gratidão, me pareceu. Diante de sua reação, fiquei
convencida do acerto da minha decisão.
Dentro de um mês, na véspera do casório de Léo e
Raimunda, chegou Rôdo de mais um giro pela Europa, e
vendo os preparativos para a festança, com fandango e
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churrascada à vista, questionou-me, diante do meu empenho
na organização daquele evento.
—Sou a madrinha do casal, Rôdo, pois dei um
empurrãozinho para o casamento acontecer. Dei-lhes um
palminho de terra e umas coisinhas mais, para o Léo, que era
o escolhido de Raimunda, ficar em pé de igualdade com um
rival. Como contava com o amor da moça, a balança pesou a
seu favor diante dos olhos dos pais dela. Foi só isso, Rôdo, o
que fiz... uma pequena ajuda ao amor.
Rôdo abanou a cabeça, e ralhou comigo, sorrindo:
—Alma , Alma, és incorrigível! Nesse passo vais dilapidar
todo o nosso patrimônio, distribuir aos poucos todas as
nossas terras e até a vinha. Não vês que logo todos os peões
vão querer se casar, escolhendo-te para madrinha? Não
conheces o povo! Além disso, quem te dá o direito de
interferires no destino alheio? E se o casal for infeliz,
amarrado a um pedaço de terra? Mais cedo ou mais tarde te
culparão.
Fiquei por um momento confusa com as palavras de Rôdo,
mas logo reafirmei minha decisão, defendendo-a:
—Rôdo, meu irmão, tuas palavras são de falsa sabedoria,
pois são só razão, lhes falta coração. Deve-se confiar mais
nos impulsos do coração. Tens o pessimismo de um cético,
e crês pouco no ser humano. Deve ser por isso que és um
jogador, um blefador. Não vês que um único ser humano
salvo, ou aliviado de sua dor, justifica uma vida inteira de
erros? Meu coração está pleno, julguei com sabedoria neste
caso, quase como Salomão ao ameaçar repartir entre
desiguais e deixar o amor fazer pender a balança na direção
certa. Não como Lear, se é o que tu pensas, que abriu mão
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do seu poder, doando tudo de uma vez. Não, meu
irmãozinho querido, não queiras me confundir. Estou feliz,
como eles, e isso é suficiente prova do meu acerto.
Rôdo sorriu ternamente, afinal, e me abraçou
profundamente, enquanto eu, apertada em seus braços, com
a cabeça em seu ombro, pensava no quanto eu amava aquele
guri, tão diferente de mim...
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Voltando ao fim de ano aqui narrado... eu tinha que me
preocupar com a rivalidade de duas queridas, Natália e Laís,
que me disputavam absurdamente, à minha revelia. Em
outros tempos eu me repartiria entre elas, simultaneamente,
sem preferências, no coração e no leito. Mas, agora, era
preciso moderação, com a casa cheia de crianças e
adolescentes, duas matriarcas vigilantes e... um marido,
embora “ideal”! Rodo, o grande cínico, que percebia tudo,
era evidente que se divertia com a situação.
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