DEPOIS DA PAZ Romance de Alma Welt ___________ Quinto volume da Saga A HERANÇA 2 3 4 Aos meus amados, que são tantos... 5  A cada pessoa cabe uma vida única, pessoal e intransferível. Apenas aos artistas, atores, escritores e poetas cabe viver múltiplas vidas através de seus vívidos personagens. Ah! A alguns psicóticos também... (Alma Welt) 6 Eu e os Piratas ( de Alma Welt) Meu irmãozinho construiu embarcação Toda de caixotes, pouco destra, Com um cabo de vassoura e armação Que pretendia ser a vela mestra. E a arrastamos juntos ao laguinho Da cascata, pra com ela navegarmos Como piratas, eu com bigodinho, Ele com a venda e os sarcasmos. Mas eis que me vi numa enrascada, Pois borrando meu bigode com o dedo Ele disse: “ Descobri o teu segredo!” “Já que és mulher és cobiçada E vais ficar pelada e com medo, Pois serás de toda a marujada!” 20/12/2006 7 ÍNDICE Prefácio................................................................ Primeiro Capítulo A Dívida................................................................. Segundo Capítulo O Cavalo de Tróia............................................... Terceiro Capítulo A Rainha.............................................................. Quarto Capítulo O Natal dos Welt................................................ 8 PREFÁCIO Neste quinto tomo de A HERANÇA, que ela intitulou Depois da Paz, a autora como sempre nos alicía ou ‘fisga” logo de saída, num Primeiro Capítulo instigante, cheio de perigos e quase comovente pelo patético de uma situação nada honrosa, envolvendo o reaparecido e um tanto patético, Bruno, o escritor e mau jogador de pôquer, o meio-irmão da Alma. Mas notável é que a autora, em nome do realismo que sempre caracteriza as suas memórias, preferiu sacrificar o thriller que já se anunciava, com um corajoso anticlímax em nome da boa literatura, pois estávamos somente num inicio de romance, pavimentando algo mais profundo. Sim, Alma é uma escritora basicamente psicológica, de natureza junguiana, e nunca falsearia seu memorialismo para cativar leitores apressados e superficiais. Antes de tudo é uma viagem anímica, o que ela vem narrando. Percebemos, também, que Alma Welt é basicamente 9 uma poetisa em sua visão de mundo, quando escreve sua fluente prosa de narradora realista, de memórias. Com esta escritora gaúcha temos sempre a impressão de que tudo o que ela conta, aconteceu mesmo, são memórias fidedignas, e não ficção. 10 DEPOIS DA PAZ Primeiro Capítulo A DÍVIDA Um novo e auspicioso período de paz se anunciava em nossa vida aqui na nossa Estância Santa Gertrudes após a turbulência do meu processo no caso Natália Fontes, que descrevi no volume anterior, e a surpreendente herança de uma Vila e um vinhedo na Toscana, com que a minha Aline e Rodo foram contemplados pelo destino, afastando-os (e ao pequeno Marco, meu filhinho com eles), do meu convívio diário. Zoé, minha filha pequena, especialmente sofria a falta do seu irmãozinho maior, que só vinha com os pais, meus amados Aline Rodo, para as festas do fim do ano aqui na estância. Então eu desfrutava de uma paz melancólica, propícia apenas para a composição de meus sonetos, pois através deles eu evocava as passagens da minha infância com Rodo, que oscilavam entre a nostalgia e a comicidade, pois Rodo sempre fora um pândego irreverente, característica que prenunciava sua propensão para o jogo de pôquer que haveria de afastá-lo de nós todos, em longas temporadas pelos cassinos do Mundo. Eu 11 haveria de escrever um blog inteiro de sonetos de pôquer, que intitularia SONETOS DO RODO, que expressam meus estados de espírito em relação à falta de meu irmão, meu amor por ele as longas esperas que fizeram de mim uma “Penélope do Pano Verde”, como me descrevia naquela época. Exemplificarei sobejamente, como é do meu feitio, aquela fase, reproduzindo aqui alguns daqueles sugestivos, e talvez belos sonetos A Queixosa Ando muito só e triste, Deus me cuide... Foram-se todos os que me eram caros, E daqueles bons amigos, muito raros, Vi pequenas traições, mas amiúde. Ora, Alma- digo então para mim mesma- Estás aí a te queixares, que vergonha! Agora és para ti tua abantesma, Em vez de só molhares a tua fronha. Mas Rodo, meu irmão que é meu esteio, Meu coração perdido de si mesmo, Caiu no mundo a jogar dados a esmo... Mas Alma! - a resposta a mim me veio... Não há dados novos, te dás conta? Tua vida é tão rica... e nasceu pronta. 12 A Abelha e a Vespa De repente estava fora do meu meio, Perdera o meu encaixe original E achando agora quase tudo feio, Até mesmo este meu torrão natal... Meu irmão então me disse: Vem comigo Vou te mostrar o mundo verdadeiro, Que está muito mais para um vespeiro Que a colméia que crês que é teu abrigo. Carregou-me com ele mundo afora, Mas no circuito de criaturas vis Onde a dúbia emoção do jogo mora. E eu disse: Estou de novo sem encaixe E cobiçada demais para ser feliz: Antes abelha que à vespa me rebaixe. 13 O coração da vida (de Alma Welt) Não te vás, ó Rodo, eu te suplico! Devolvo a chave, sei, fui atrevida. Falo demais, talvez, complico, Mas estamos no coração da Vida, O mundo está aqui como lá fora. Ou o vejo daqui, por isso fico. Por quê tens, irmão, que ir embora Só porque só sei jogar o mico? Coração sempre tiveste destemido, Sou tola e pegajosa, que sei eu? Anseias o teu pôquer de bandido... Não tens mais paciência com a guria. Onde, pois, a aventureira se meteu? Que escreve, chora e se angustia... Relendo esses meus “sonetos do Rodo”, eu, por momentos me envergonhava de minha dependência e obsessão por meu irmão, causadas pelo meu trauma do flagrante sob a macieira em minha infância, episódio que já mencionei por diversas vezes e a que minha doutora Jensen atribui uma evidente conotação arquetípica. 14 Agora, nestes tempos de paz, eu me via revisitando aqueles tempos com uma mistura de pudor e nostalgia, e não estando preparada para nenhuma interferência externa em minhas divagações, recebi uma carta de Bruno, meu meio irmão a que me referi em episódio de A ARA DOS PAMPAS, um volume anterior de minhas memórias. Reproduzo aqui a carta de Bruno: Alma, querida irmã Retornando de uma longa temporada de carteados em cassinos da Europa, na companhia de meu novo mentor no âmbito do pôquer, nosso irmão Rodo, fiquei sabendo de sua visita à Letícia, minha mulher e mãe de meu filho, a quem jamais abandonei, como ela chegou a pensar. Assim que comecei a ganhar dinheiro com o jogo (graças às lições do incrível Rodo), enviei uma grande soma a eles. Entretanto, Letícia se sentia abandonada, acumulou ressentimentos... e me deixou. Partiu com meu filho, com uma mulher mais velha (!!!) que a seduziu. Voltei para uma casa vazia e estou muito abalado. Venho, pois, pedir-te que me recebas para uma temporada de recuperação na tua estância, que visitei brevemente há muitos anos quando nosso pai estava vivo, e o fiz a pretexto de colher o seu autógrafo em seu livro, na verdade para conhecê-lo, a ele, que nem sabia de minha existência. Naquele curto episódio, conheci a ti, minha irmã, que era uma adolescente linda, a quem só pude tocar o queixo e partir, mas sem nunca mais poder esquecer-te. Agora, me sentindo extremamente só, eu te pergunto: me receberás por um período, para que ao menos eu recupere a 15 auto-estima, e possa conhecer a ti e à tua filhinha Zoé ? Que o lindo Marco eu já conheci na Toscana, com o Rodo e Aline... Aguardando ansiosamente a tua resposta Teu irmão Bruno Alvarez Welt Lendo esta carta de meu meio-irmão, me pus imediatamente eufórica, fazendo planos, como a adolescente que eu era quando o conheci. Respondi a ele, igualmente por carta de papel, em plena era do e.mail, e para enviá-la, incurável romântica, fiz questão de ir com o Galdério na charrete até o correio na Es- taçãozinha da nossa Maria Fumaça em vias de extinção: Bruno, meu querido irmão! Tu não imaginas a alegria de receber uma carta tua carta e da perspectiva de receber-te nesta casa que também é tua. Percebo que não estás bem, e eu prometo que eu e Dario, meu marido, te receberemos de braços abertos e cuidaremos bem de ti. Zoé certamente vai adorar conhecer mais um novo tio. “Venha, querida grande alma, nós te amamos, nós te receberemos.” Tua irmã 16 Alma Notem que, eu, incorrigível livresca, terminei minha carta parafraseando a mensagem de resposta de Verlaine a Rimbaud, quando este anunciou por carta aos seus amigos poetas, a sua intenção de fugir de casa e encontrar-se com eles em Paris. Passada uma semana, recebi uma mensagem de Bruno por celular, esperando por mim na estaçãozinha, e fomos, Galdério, Dario e eu, buscá-lo de automóvel, e o encontramos sentado num banco da plataforma com sua mala ao lado. Reconheci o belo rapaz fortuito e fugidio de muitos anos atrás em visita ao nosso pai, quando então me revelou o seu segredo, mas, impressionou-me agora o seu estado, visivelmente abatido, e grisalhando o cabelo e barba curta. Dario, já devidamente esclarecido por mim sobre este inesperado cunhado, estendeu cordialmente a mão para cumprimentá-lo num cordial e mesmo fraterno movimento de recepção. Quanto a mim, comovida, abracei-o apertado pela primeira vez nas nossas vidas.   Desde guria sou fascinada pela arte dos mágicos prestidigitadores. Desde o dia em que presenciei o show de um deles numa festa de fim de ano da escola primária em Novo Hamburgo, em que me emocionei 17 com a pomba tirada de uma cartola. Daí por diante, emocionalmente pelo menos, eu veria todos chapéus como esconderijos potenciais de pombas, patos e coelhos, e portanto, o verdadeiro refúgio da ternura dos seus portadores. As imagens do mundo, que forjamos na infância, nos acompanharão pra sempre intactas, no terreno afetivo. Mas eu sei que isso é verdade somente para aqueles que se mantêm fiéis à sua infância e seus ocultos pactos com o mundo, com a vida. Havia na nossa estância um velho peão, o mais antigo, que era o preferido de meu pai, que o considerava um venerável exemplo de sabedoria popular. Meu pai, que além de extremamente culto, erudito, tinha também, ele próprio enorme sabedoria, a ponto de reconhecê-la num simples peão semi-analfabeto, por seu apreço pelo velho boiadeiro me fez também perceber e aproximar-me daquele homem de barbas e cabelos brancos bem menos tratados. Um dia, no inverno, guria ainda, fui visitá-lo sozinha, e encontrei-o na varanda de seu chalé de madeira, onde aposentado, ficava horas, mirando o horizonte e fumando o seu cachimbo. Levei-lhe um poema meu, como único presente que me ocorreu oferecer-lhe como prova de meu afeto e respeito. O velho peão recebeu a folha de papel, e depois de retirar uma espécie de touca de lã que eu tinha na cabeça, colocada por minha mãe, passou a mão rapidamente no alto e em seguida abrindo a folha em suas mãos grossas e calosas, me fez ver uma borboleta pousada sobre meus versos, em que ele mal deitara os olhos. Então, ele pegou a borboleta, 18 que me pareceu trêmula, e com uma delicadeza insuspeitada, pela ponta das asas a colocou no meu ombro, olhando-me profundamente, com seus olhos gastos azulados, com um sorriso que percebi sob os imensos bigodes brancos caídos. Aquilo me pareceu mágico, e ao mesmo tempo uma espécie de recado cifrado, vago, que eu não saberia decifrar naquele momento. Alguns dias depois aquele homem estaria morto, e eu recebi a notícia com extrema emoção. Fui vê-lo em seu caixão, cercado de peões e algumas mulheres, peonas velhas e jovens, além da nossa chorosa Matilde, na pequena sala de sua “querência”, como ele dizia. E ali, cercada de lágrimas e alguns sorrisos, depositei, com toda a minha inocência, sobre o seu peito, acima de suas mãos cruzadas, um novo poeminha meu, para que ele o transformasse numa borboleta que o acompanharia em sua nova jornada no pampa longínquo do horizonte que o aguardava. 19 SEGUNDO CAPÍTULO O Cavalo de Tróia Aqui na estância, depois de alguns dias, Bruno pareceu adquirir vida novamente, desabrochar mesmo, como o homem belo que era e um escritor de mão cheia. Passávamos horas conversando sobre literatura, principalmente as nossas, e apesar da minha curiosidade sobre o seu convívio com Rodo, ele, misteriosamente, parecia querer esquecer aquela fase de sua vida, e eu logo iria descobrir por quê. Foi numa noite, quando avistamos da varanda os faróis ainda longínquos de um carro que vinha pela estrada, e como isso era raro, pusemo-nos em alerta. Por instinto, eu diria, Dario foi buscar uma espingarda de caça no nosso arsenal. Quando o carro, um sedan preto a chegou à nossa porteira, dois homens de terno e gravata desceram para abri-la e voltando a entrar no veículo vieram na nossa direção parando a uns vinte metros, quando então quatro homens armados desceram com suas armas em punho e cercaram a nossa varanda, sem nada dizer. Dario, não sabia para que lado apontar a sua arma. Então um, que parecia ser o chefe, disse alto e calmamente: 20 - A senhora é Alma, sabemos, irmã do Rodo, pois não? Entregue-nos o Bruno, que iremos embora e nada sofrerão. Criou-se imediatamente um impasse. É claro que não entregaríamos meu irmão, fosse por que fosse, ainda mais que percebemos que não se tratava da polícia e nem sequer eram gaúchos, pois não usavam o “tu”, não apresentaram insígnias e pior: não tinham o nosso sotaque, o que era mais preocupante. O quê aqueles forasteiros queriam com o Bruno? Uma suspeita logo assomou meu espírito: dívida de jogo! Não, eu jamais entregaria meu irmão àquele bando engravatado, por mais que ele devesse. Gritei: -Senhores, vão embora! Imagino que vieram cobrar uma dívida de jogo, pois não? Meus peões foram avisados e estão armados (eu blefei), se forçarem, vocês não sairão vivos. Retirem-se em paz e nada sofrerão. Eu me entenderei com Bruno e veremos o que pode ser feito. Nesse momento, como reforço de argumento, o Galdério apareceu vindo dos fundos da casa com um um fuzil na mão. Os homens se entreolharam, baixaram as armas e o chefe disse: -Está bem, dona Alma. Regressaremos a Rosário e daremos a vocês um prazo de 24 horas para nos pagarem ou nos entregarem o Bruno. Depois disso será guerra. A propósito: o montante da dívida é de 21 100.000 Euros. Queremos isso na mão ou teremos a cabeça do pilantra numa bandeja. Entraram no carro e deram marcha ré até depois da porteira, fizeram a manobra e partiram em disparada, dando tiros para o alto pelas janelas. Respiramos aliviados, mas não muito. Por nossa vez, nós, na varanda, nos entreolhávamos, desolados. Bruno, de cabeça baixa, assomou na porta. _____________________________________ Quando guria, aqui na estância, uma vez, conversando com a avó Frida no seu belo jardim, ela me disse: -Alma, um dia, quando fores moça, como todo mundo sairás de casa. Então lembra-te: toma cuidado para não te perderes. Quem se perde, se perde sempre num limbo, senão no próprio Inferno. E eu, guria curiosa, que questionava tudo, perguntei à minha avó: -E se eu cair no Inferno, vó, como farei para sair? Ela respondeu: "Caminha para frente, corajosamente almejando a saída, Alma, não pegue um atalho para voltar. Do Inferno não se sai pela porta de entrada. Ali 22 estão os covardes, eternamente no corredor de entrada, cheio de moscas".* Lembro-me que depois dessa conversa com minha avó, tive pesadelos por mais de uma noite. A Mutti, percebendo, culpou minha avó, dizendo a mim (ela não teria coragem de confrontar a velha alemã, que ela chamava de "bruxa"): -Alma, essas conversas que tens com tua avó te deixam nesse estado. Vê, freqüentemente não dormes direito, tens pesadelos. O que te diz a velha bruxa? Eu respondi: - Não, não, Mutti, não é culpa dela. A avó Frida só me dá bons conselhos para o futuro, para quando eu for moça e sair de casa. É que eu tenho medo de ter que sair de casa, um dia. O mundo fora daqui, da nossa estância, da campanha... me parece muito grande e assustador. Minha mãe apenas abanou a cabeça, e suspirou. Mas ela continuou vigiando, preocupada, os meus pequenos desvios de uma normalidade que ela queria "obrigatória", como zelosa e inútil guardiã da porta do Inferno, que ela era. Esse cargo eu teria um dia de lhe reconhecer e, mesmo que tardiamente, também lhe ser grata, como à minha avó, a bruxa benfazeja, por alguns cruéis e eficazes conselhos que me salvariam a vida... 23 Assim que o carro dos forasteiros sumiu na curva da estrada, reentramos todos e nos reunimos na sala. Não era minha intenção presidir uma inquisição, coisa que nunca foi o meu feitio, mas Bruno logo começou a tentar justificar-se e eu apenas ouvia com paciência, na verdade tentando encontrar uma saída, para todos nós, daquela situação perigosíssima. Sim, porque já estávamos envolvidos, ao abrigar o devedor fugitivo. Um caloteiro, meu meio-irmão? Provavelmente sim, mas isso já não vinha mais ao caso. Sua vida, e a nossa por tabela, estavam em perigo. Se tratava somente de arranjarmos o dinheiro para pagar aquela imensa dívida, lembrando sempre que dívida de jogo é sagrada. Rodo me ensinara isso há muito tempo. Entretanto eu não poderia contar com o Rodo para arcar com a dívida do irmão que ele carregara para o jogo sem ter a mesma esperteza que ele. Ele se sentiria responsável? E teria ele aquela dinheirama toda disponível? Eu estava lutando para não ficar desesperada, essa é que era a verdade... Dario se mantinha estranhamente calado, esperando alguma coisa, eu depreendi. Ocorreu-me que ele esperava que eu apelasse a ele para salvar o meu irmão. Ao pensar nisso, realmente o fiz. Eu lhe disse: -Dario, querido, sei que tu és muito rico. Se salvares Bruno quitando sua dívida com aqueles homens perigosos, eu passarei a ti a minha parte na Santa Gertrudes, nesta casa e no vinhedo. 24 Antes que Dario pudesse responder, Bruno que também estava quieto, mas cabisbaixo, envergonhado, adiantou-se e disse: -Alma, não posso aceitar o sacrifício do que mais amas na vida, além de teu marido e tua família. Sei o que a estância e este casarão significam para ti. Eu sei o que vou fazer. Como não tenho com que pagar a minha dívida, vou continuar a fugir. Estou decidido, não tente me deter, parto hoje mesmo, somente peço que dês ordem ao Galdério para me levar de carro à estação. Nada mais te peço! Está decidido. Avise a polícia depois que o trem partir. Quando meu credor com seus capangas voltarem amanhã, diga-lhes que fugi. Eu, me sentindo impotente, desolada, recuei até encontrar uma parede e literalmente escorreguei por ela e me sentei no chão, abraçando meus joelhos. Creio que foi para não desmaiar... Quando eu tinha quinze anos e era portanto uma ninfeta, o Vati dando uma churrascada em nossa estância no dia de Santo Antonio, eu vestida de prenda, um guri de uns nove anos, filho de um estancieiro vizinho, vestido como um peãozinho e com um bigode de carvão sentou ao meu lado e disse, desenvolto: "Alma, eu te amo e vamos casar quando 25 eu for grande. Mas tu tens que me esperar. Tu me esperas?" Eu o olhei com vontade de rir, mas só disse: "Guri, até lá eu estarei muito velha, e tu não vai mais me querer". " Ele retrucou: "Vou, sim, eu gosto de gurias mais velhas..." Eu olhei um pouco mais com os olhos no seu bigodinho e disse: "Olhe, Martim, para esse acordo valer tu vai ter que assinar um contrato com testemunhas e tudo... Dá muito trabalho". E ele: "Não Alma, meu pai disse que entre gente honesta é no fio do bigode" (e ele passou a mão no lado direito do bigodinho, borrando-o). Eu dei um grande suspiro e disse: "Quando eu tiver trinta anos e te apresentares com a metade do bigode, a do lado esquerda, eu me casarei contigo. Não te esquece... do lado esquerdo, o do coração!" E sai correndo e dando uma gargalhadinha. Na corrida dei uma ligeira olhada para trás e... vi que ele estava iluminado! E... estranho... senti que me casaria mesmo com ele, se ele mantivesse aquele brilho... ___________________________________ 26 Naquela mesma noite, Galdério e eu, com Bruno no banco traseiro para eventualmente poder se esconder deitando, estávamos na estrada a caminho da estaçãozinha. Após a compra da passagem, tensos, olhando para os lados, esperamos na plataforma o trem Maria Fumaça que afinal chegou envolto em vapor e fumaça, como uma densa neblina propiciatória que protegeria meu irmão em sua fuga. Assim devaneei em lágrimas, enquanto o abraçava fortemente não querendo soltá-lo, meu desastrado e infeliz irmão mais velho. O trenzinho partiu resfolegando enquanto Bruno acenava pateticamente de uma janela. Voltei em lágrimas silenciosas no percurso de todo de volta, me sentindo, por minha vez, fracassada, pois não pudera realmente salvar o meu irmãozinho de meia-idade, escritor cujo talento eu iria conferir e admirar um dia, quando ele, como me prometeu, publicasse suas “memórias de desventuras”. Devo, a meu favor, revelar que dei ao meu irmão grande parte das minhas economias para ajudá-lo em sua fuga e talvez reerguê-lo um pouco para recomeçar a vida, certamente com outro nome e sobrenome. De volta ao casarão, abracei Dario, e não queria soltá- lo, meu marido ideal, que não era um jogador, e cuja sobriedade e firmeza eram agora o esteio desta família. Logo estaríamos distribuindo armas, de madrugada, entre os peões, para o que desse e viesse ao 27 amanhecer, quando aquela engravatada gang do pôquer viesse nos cobrar a dívida de Bruno. __________________________________ Naquela manhã bem cedo, despertamos com “a mão nos coldres”, por assim dizer, e colocamos nossos peões bem armados e distribuídos estrategicamente em torno do casarão, e alguns dentro, além de nós, quero dizer: Dario, Galdério, Matilde e eu. Minha amada Zoé eu deixei com a Quitéria, sua tia, na estância vizinha, que também se armou, por precaução, embora nada tivesse a ver com a nossa situação. Na verdade, eu estava desesperada com a perspectiva infeliz de minha filhinha, órfã de mãe ser criada pela Quitéria, caso ocorresse uma desgraça. Meu Deus, por quê Rodo não estava aqui ? Ele, que seria o meu Heitor nesta guerra que se aproximava, já que eu pusera para dentro um cavalo de Tróia... Então liguei para o delegado de Rosário do Sul e o pus a par da situação e o conclamei para evitar uma tragédia. O delegado respondeu que viria com três viaturas e muitos policiais Então, por volta das 8:00 horas, avistamos na estrada o carro dos credores, que adentrando a nossa porteira, saltaram com as armas na mão. Eu, de vestido branco até os pés, como sempre, mas com um absurdo coldre e revolver na cintura, de pé na soleira, entre Dario e 28 Galdério e mais dois peões de cada lado, mirando-os com os olhos, fixamente, tentava me manter serena. O chefe deles gritou: -Senhora Alma, terminou o prazo, entregue-nos o Bruno ou paguem sua dívida e partiremos, não haverá confronto. Eu respondi, firmemente: -Senhor credor, Bruno não está mais aqui, resolveu continuar sua fuga para não comprometer a família. Partiu ainda ontem mesmo. Só resta aos senhores se retirarem, pois só têm a perder, já que avisamos o delegado de Rosário e a polícia está vindo. O chefe do bando pareceu hesitar, entreolharam-se se aproximaram uns dos outros e confabularam baixo e brevemente. Então voltando novamente a olhar para mim, colocou a arma no seu coldre do peito do paletó, no estilo gangster, e os outros o imitaram. Colocou dois dedos na testa na falta de um chapéu e voltando- nos as costas, entraram no carro e... PARTIRAM! Esperei eles sumirem na curva para então desmaiar nos braços de Dario, meu marido ideal... ______________________________________ Quando voltei a mim, alguns minutos depois, nos braços de Dario e com Matilde me abanando, me ocorreu que aqueles gangsters, imediatamente deduziram que Bruno escapara de trem pela nossa 29 estaçãozinha, e que poderiam tentar interceptar o trem, à moda do Velho Oeste hollywoodiano. Bem... jamais saberemos, pois passar-se-ia um ano antes de termos notícias do meu pobre irmão desastrado. Voltarei a falar dele, por quem meu coração carregava um pouco de culpa por não te podido fazer nada por ele, cujo preço pela cabeça estava demasiado alto para mim, e eu não tinha o direito de pedir tal soma ao meu marido e nem ao Rodo, que já me tirara da enrascada de uma multa judicial altíssima como narrei no tomo anterior destas minhas “memórias de uma moça mal comportada”. * ________________________________________ 30 TERCEIRO CAPÍTULO A Rainha Nada mais ocorreu de importante, até chegar o fim do ano, quando então Rodo, Aline e Marco vieram para Natal e as Férias, juntarem-se ao clã todo, com meus amados sobrinhos adolescentes trazidos de Alegrete, por Lucia, para dois meses de férias deslumbrantes. Nessas temporadas eu entrava numa fase de êxtase e felicidades inenarráveis, e Rodo me dizia que eu adquiria uma espécie de luz, que logrei perceber um dia, ao espelho. Mas isso é sabido, a felicidade cria mesmo uma aura de luz, por ser uma emanação do Bem Supremo. Zoé florescia a olhos vistos e sua beleza encantava como a minha quando era criança. Ah! Até a minha doce Natália, já formada em Literatura, e moça feita, veio juntar-se a nós para as férias, e já não nos causaria “encrenca”, embora seus pais, assim como a mãe de Aline, ainda não me tragassem, essa é que era a verdade. Não se pode agradar a todos nesta vida... Entretanto, sabemos que o equilíbrio é frágil e a Paz não é deste mundo. Antes do Natal recebi uma carta de Dona Maria de Marco, a mãe de Aline, que reivindicava o direito de visitar o seu neto aqui na estância, já que Aline, “herdeira ingrata”, não o levava 31 mais até ela em São Paulo. Eu sabia por experiência, como aquela senhora era de temperamento difícil e preconceituoso, mas reconhecia o seu direito de contato com o neto, nosso querido Marco. Respondi positivamente a carta, transformando gentilmente sua “requisição” em convite de minha parte. Que ela viesse se juntar a nós para o Natal e as festas de Fim de Ano! Assim, em meados de Dezembro fomos, Aline, Rodo eu e Galdério, de carro, buscá-la na estaçãozinha, no que, para mim, desde a infância, era um adorado “programa de festejos”: Meu trenzinho (de Alma Welt) Ainda espero o trem da minha infância O mesmo, de fumaça, em meio à bruma; Trenzinho dos meus sonhos sem ganância, Que pra essa estação ainda não ruma... A viagem cujo rumo mal importa, É toda encantamento como outrora, Envolta no mistério de uma porta Que não logrei transpor até agora. Pois o que interessava era o comboio Levando e trazendo o não e o sim, Separando em mim o trigo e o joio... Era eu que eu esperava ou despedia, Tudo se passava dentro em mim, Plataforma em que eu chorava e ria... 32 Logo estaríamos ali na plataforma, quando o trenzinho chegou resfolegando em meio à bruma do vapor que me encantava, esperando aquela senhora italiana que eu nunca vira pessoalmente, falara pouco comigo apenas por telefone e de maneira desagradável, pois me discriminara, embora compreensivelmente, como parceira de sua filha e mãe de seu neto. Ela apareceu em meio ao vapor como uma rainha, surpreendentemente bem vestida, elegante mesmo, e com um porte imponente, cabelos grisalhos, e nariz empinado. Aproximou-se de nós com segurança, e eu diria... com antecipado desprezo mal disfarçado. E eu, Alma, deveria ser o alvo específico desse desprezo. Dona Maria de Marco lançou os olhos sobre mim, da cabeça aos pés, praticamente exclamou, com uma certa ambigüidade: - Alma Welt! Eu, naturalmente, fiz um ligeira genuflexão, acompanhada de uma irônica vênia que ela preferiu ignorar. E sem me estender a mão, logo dirigiu-se à sua filha, para abraçá-la estendendo a mão ao Rodo, o maridão. Um “boy” da estação trazia a sua bagagem e a colocou no porta-mala do nosso automóvel, e ela, abrindo uma bolsinha dourada, retirou uma nota e deu de gorjeta ao garoto, que se retirou. Mas, esta grande dama teve que aboletar-se prosaicamente no banco de atrás, entre sua filha e seu genro. 33 Eu, me lembro bem... no banco do carona, durante toda a viagem de volta, eu sentia um ligeiro frio na nuca. Ou era uma impressão do meu sugestionável coração? ________________________________ Sentindo a atmosfera bastante absurda , com a nossa nova convidada, a Rainha Maria de Marco, eu, depois conduzi-la ao seu aposento, a melhor suíte de hospedes do casarão, com a grande cama de dossel que fora de meus pais, lençóis branquíssimos e imensos travesseiros de plumas, com fronhas virgens igualmente alvas, depois de seu descanso, ao chamá-la para o jantar, servi-a à mesa quase como uma mucama de Casa Grande, sob o olhar perplexo de Aline percebendo a nota irônica que eu queria imprimir à minha atitude. Se a Rainha percebia ou não, ela não demonstrava, e agia com naturalidade na sua arrogância, de quem estava acostumada a ser servida. Pobre Aline! Comecei a imaginar como teria sido a infância e adolescência de minha doce parceirinha de outrora, a linda modelo nua das minhas melhores telas... No fim daquela noite cheia de pequenos lances ligeiramente caricatos, produzidos pela minha impertinência, a que a Rainha fingia não perceber como a quem “noblesse oblige”, todos afinal recolhidos aos seus quartos, persistindo em mim aquela sensação 34 de absurdo, ao escrever como sempre antes de apagar a luz e dormir, me saiu este pequeno conto “nosense”, de sabor medieval, que transcrevo aqui, porque o achei divertido ao relê-lo pela manhã: Rofoldo, o guarda-corujas (de Alma Welt) Rofoldo (seu nome era Rofoldo mesmo, e não Rodolfo como era de se esperar), era um excelente guarda-corujas. Mas não um guarda- corujas qualquer, mas de 1º grau e sem parachutes. Meticuloso e monótono, seu cotidiano possuía uma poesia ácida e insuspeita, que o fez apaixonar-se desavisadamente (eu sei que parece redundância ) pela cabrita do seu parceiro e fiel atormentador de fins-de-semana: Garvão (com r mesmo), o último atormentador daquele condado desde que o conde morrera sem deixar descendentes. A situação tendia a se radicalizar pois, contra todas as expectativas do povo do “Condado-sem-Conde”, como passou a se chamar aquele vale (ah! não contei que era um vale!) a cabrita não se fez de rogada e correspondeu à paixão de Rofoldo, com suaves balidos. Infelizmente não foi registrado nos anais do vale, minuciosamente como se deveria, as relações, anais ou não, da ilustre cabrita com o agora célebre guarda-corujas. Mas nós, que nos empenhamos em colher a ponta do fio da meada, descobrimos uma biografia rica de sabores folclóricos e até mesmo educativos. Trata-se de tomar o melhor partido de tudo o que se nos apresente na vida. Nada mais tenho a dizer. O Guilherme de Faria, que convidei e veio novamente para as Festas, e a quem mostrei este mini conto, desenhou para mim o “guarda-corujas” conforme sua concepção subjetiva de mestre desenhista, como uma coruja mesma, um corujão de óculos e gravata borboleta. Sob certo ângulo de visão nada faz mesmo muito sentido nesta vida. Mas foi dito que se nos 35 acostumamos com freqüência a abordar tal ângulo, é muito perigoso, pois podemos não voltar mais. ________________________________________________ No dia seguinte de manhã cedo após pedir à Matilde que levasse o café na cama para Sua Majestade, tentei engatar o fio da normalidade, após o café da manhã completo (e chimarrão para quem quis) com as crianças, fui brincar com elas no jardim e no pomar em torno da minha macieira, a “ARA dos Pampas”, com quatro delas já adolescentes passando os dedos ritualisticamente na cicatriz em forma de coração 36 gravado por mim, AR, a partir da minha infância com Rodo, e completado há alguns anos com o A de Aline. Bah! Eu queria que a Rainha visse essa cicatriz completa e definitiva e... me aceitasse, sim, pelo menos no passado da minha amada, pois, para mim, os amados e amadas são eternos, ela tinha que saber! Contudo, naquela manhã, observando as crianças brincarem tão alegremente... algo, de repente, aconteceu dentro de mim. Senti como se o mundo, o país, o Sul, enfim... estivessem finalmente sob um governante feliz, e me senti subitamente envergonhada da minha atitude para com a minha hóspede. Eu percebi que meu comportamento era fruto de um ressentimento longamente guardado, simplesmente por não ser aceita por ela, eu, que no meu próprio orgulho, não tinha o direito de me insurgir contra um orgulho talvez mais legítimo, e que eu deveria me submeter, sim, mas com a verdadeira humildade que eu tinha que encontrar dentro de mim. Só assim (eu descobri de repente) eu poderia salvar as minhas Férias, e, provavelmente, a de todos, que lentamente acabariam sendo afetados pelo meu surdo ressentimento. Voltei para dentro de casa para receber condignamente a minha hóspede, que, já acordada e tendo tomado o seu café no quarto, estava no salão e um pouco triste (eu percebi), embora com a mesma altivez. Ali, na semi-obscuridade permanente daquele salão realmente nobre, aproximei-me dela, 37 humildemente, abracei-a levemente e a beijei suavemente no rosto, tão autenticamente que, ela, embora paralisada e surpresa, percebendo, talvez, uma aura diferente em mim, não me repeliu. Ao desfazer com naturalidade o meu abraço, percebi a sua mão direita tocar suavemente minha face, num esboço de carícia. Senti, então, que eu poderia transformar aquilo, “no começo de uma bela amizade.” * Sim, “eu sempre necessitei da bondade dos outros” *, como aquela pobre, linda e louca Blanche Dubois... ___________________________________ Dali por diante as coisas foram mudando, e Dona Maria aos poucos começou a participar dos passeios e até dos jogos que organizávamos e dava-me a mão em cirandas que se formavam ao som de uma flauta doce soprada por Rodo, seu genro, que este, a cativara rapidamente também no segundo dia por sua naturalidade desabrida, sua virilidade e seu vitalismo. Ela o considerou digno de sua filha. E estava sendo cativada também, é claro, por seu neto, o pequeno Marco, cuja beleza e graça a comprou de saída. Foram dias felizes aquele até o Natal quando Dona Maria participou da montagem do Presépio e do grande “pinheirinho” colhido no nosso próprio quintal, por assim dizer, de um lado da nossa piscina, em que, a propósito, Dona Maria (não a chamarei mais de “Rainha), no terceiro ou quarto dia enfrentou as águas 38 num maiô antiquado, dos anos trinta, que ela escondera no fundo da mala, nos surpreendendo jocosamente. Na verdade ela estava bela, de um jeito peculiar, pois evocava a sua juventude, em que percebíamos ter sido esplendorosa e percebemos por quem Aline “tinha puxado”. Eu estava ficando feliz demais, e Rodo, que me conhecia bem, começou a ficar preocupado com meus risos e gargalhadas a toda hora. Ele temia um pico repentino de minha bi-polaridade não diagnosticada, mas suspeitada leigamente por alguns. Eu precisava da minha querida Doutora Jensen por aqui, e telefonei a ela convidando-a para o Natal, na verdade numa espécie de pedido de socorro, implícito. É curioso pedirmos ajuda por excesso de felicidade, mas era o caso. E ela me conhecia. Eu comecei a ter que disfarçar minha alegria, e o fazia desajeitadamente, fechando a cara após uma gargalhadinha que fosse, como fazem certos adolescentes. Até a minha adorada Doutora Jensen chegar para me salvar de mim mesma, de minha felicidade desmedida, que, ela, aceitando meu convite, nos primeiros dias só fez aumentar. ________________________________________ 39 Nas últimas páginas do diálogo A República, de Platão, este descreve no chamado "Mito de Er" e do "fuso de Ananke", a escolha que a alma de Odisseu morto (o inventor do "Cavalo de Tróia") faz de uma nova vida, agora de um homem modesto, comum (talvez até mesmo medíocre), já que tendo sofrido muito na sua encarnação aventurosa célebre, optou pelo contrário para sua nova encarnação e saiu dali com seu sorriso astuto de sempre... Decididamente Platão tinha humor (embora não escrachado como o de seu inimigo Aristófanes) mas tão sutil que passa despercebido até para os seus exegetas. Quanto a mim, gostaria, no jogo das almas, de renascer poeta, assim como os samurais que tivessem cumprido o Bushido (código de honra dos samurais) tinham a esperança de renascer novamente samurais após a morte em batalha, duelo, ou pelo sepuku (harakiri). Por quê, Alma? (pode alguém perguntar). Os poetas não sofrem demais, e entre os artistas não são, estatisticamente, os que mais se suicidam? Eu respondo: Sim, sofremos muito, mas também temos grandes êxtases, e descortinamos o real e seu sentido "autêntico e absoluto" (como escreveu Novalis), como ninguém. "Não gostarias de renascer -insistem- como uma simples dona de 40 casa, atarefada com o asseio do lar, as roupas de cama e as de seu marido e filhos, e ser feliz armando e desarmando a árvore de Natal com um sorriso terno, pensando na alegria das crianças quando estraçalhavam os papéis coloridos que embrulhavam os presentes?" Bem... tentadores, não insistam nessas comparações porque entre o heróico e o comezinho meu coração balança: há poesia também nas coisas mais comuns, mesmo banais, e essa é talvez a compensação do mundo. E depois... a alegria, a verdadeira alegria, sempre esteve ao alcance de todos, ainda que fugaz, e (como escreveu Nietzsche) "pede eternidade, a profunda eternidade”... 41 QUARTO CAPÍTULO O Natal dos Welt Finalmente, chegou o Natal, e a minha doutora Jensen, que deixou a sua clinica em Alegrete, (onde fui uma vez internada, e participou de nossa lauta e maravilhosa ceia de Natal, numa das cabeceiras da enorme e comprida mesa, com a Dona Maria, que estava ganhando o meu coração, na outra ponta. Eu me reservei um assento no meio do lado direito, com Dario, meu marido ideal, Rodo, Aline, Patrícia, Natália, Guilherme, o velho artista, meu querido mentor, e até Quitéria, que convidei, claro, já era da família, mas se ressentiu nitidamente de não poder ocupar uma das cabeceiras, reservadas às matriarcas. Por um momento, ao sentarmos, fuzilou-me com os olhos. Do outro lado da mesa para podermos conversar com eles e até controlá-los um pouco, ficaram as crianças, Marco e Zoé, bem defronte a mim, mais um pretinho lindo, filho da nossa copeira Liona Garra que “herdei” da Quitéria e que quis servir, prestimosamente a mesa; mais os adolescentes Pedrinho, Hans e Christian. Matilde e Galdério 42 convidados por mim, recusaram sentar conosco e participar da ceia preparada por eles, agradecidos, mas muito compenetrados, que eram, da hierarquia. Eu naturalmente, a Poeta da casa, no início da Ceia, à meia noite, levantei e fiz como brinde a declamação deste soneto de Natal que escrevi na véspera, que olhando para elas, dediquei às minha crianças: O Natal do Menino Jesus (de Alma Welt) Quando nosso Natal se aproximava Eu me punha inquieta e tão falante, Eufórica, a correr a todo instante, Até que a bá, Matilde, então ralhava: "Que pensas, guria, que é o Natal? Não acordes o menino Jesusinho Que está na manjedoura como um ninho, Dormindo longe do barulho e todo o Mal." Então, envergonhada eu me calava: Imitando-lhe o gesto de silêncio, Com o dedinho os lábios eu selava* *(Zoé imitou-me nesse verso, com o dedinho nos lábios) E eis que o Mundo todo se aquietava Diante do menino em sono imenso Que o presente de sua vida já nos dava... 43 Todos aplaudiram bastante, alguns comovidos como Zoé, que saiu de seu lugar e deu a volta na mesa e veio abraçar as minhas pernas sob aplausos que aumentaram no meio de um assovio agudo e maroto, de moleque, do Rodo, que fez todos gargalharem, roubando a cena. Quanto a mim pensei que não conseguiria chegar ao fim da Ceia, que eu teria um colapso de felicidade. Dario, prudentemente, não deixou que eu, durante o repasto, bebesse o vinho que tirei da nossa adega. Ele me conhecia. Então, a propósito, ali, declamei para o Dario este soneto que improvisei como uma repentista: Celebremos a vida, sem abuso, Com moderados goles de bom vinho, Pois quem puder beber faça bom uso E quem não puder fique quietinho. Pois há quem já bebeu a sua cota Com imensa sede ao pote, de menino, E agora basta um só gole e capota Ou vai soprar a flauta do destino... E depois, quem de nós bebum suporta? Nem sua própria mãe, pelo que eu saiba, Que prefere lhe cerrar a sua porta. Então comam, mas não bebam no Natal Nem o que num pequeno dedal caiba Que um só gole é um tonel sem fim, fatal! (Uma imensa gargalhada geral iniciou a Ceia) 44 Dos dias que se seguiram ao Natal, tenho pouco a dizer, porque foram bastante intimistas, os meus queridos confraternizando os hóspedes, dando-se a conhecer, em contatos dois a dois, insondáveis, conferindo-se, talvez. Percebi, por exemplo, que Natália, guria ambiciosa, se insinuava ao velho mestre Guilherme, com a intenção de ser retratada em tela ou em desenho por ele, que não se fez de rogado. Grande voyeur, logo estaria a pintá-la nua, frontal e de costas, lindamente, é verdade. Eu adejava entre os pares ou grupelhos que se formavam, como se fosse a maestrina de um concerto de câmera, senão uma sinfonia. Foram dias harmoniosos aqueles, entre pessoas de um universo em comum, que na verdade era centrado em mim, no meu Ego de poeta e incorrigível amorosa, essa é que a verdade. Foi então que um novo elemento complicador se intrometeu naquela espécie de baile harmonioso que se estabelecera às vésperas do nosso Ano Novo. Laís reapareceu, chegada da Europa, sem saber que Rodo estava casado com Aline e assumido nosso filhinho Marco, felizes os três. O problema era que Laís veio disposta a reivindicar seu lugar na vida dele, ela que o abandonara em Monte Carlo, talvez com razão. Mas agora era tarde! Ela, arrependida, reivindicava tacitamente o seu lugar também na minha vida, aqui na estância e no casarão, igualmente tarde, já que eu estava casada, e com um marido ideal. Longe iam os tempos de ménages, trios e “quatrilhos” por aqui. 45 _____________________________________ Dentre os inúmeros peões que tivemos aqui na estância, havia um “gaucho” da banda oriental, uruguaio, que se destacou pela competência, mas também pelo temperamento esquivo, confundido com maus bofes. De um modo geral era silencioso e solitário, não se misturava. Bom de laço e boleadeiras, excelente domador de cavalos, não havia garanhão chucro que ele não pusesse o freio em menos de dez minutos, sob aplausos de outros peões, que fora do cercado não o teriam cumprimentado. Pois bueno, esse peão, Facundo era o seu nome (o “apelido”, sobrenome, eu nunca soube) deveria protagonizar um episódio doloroso de que alguns se lembram ainda com um arrepio. Por aqui chegou para trabalhar na Sta Gertrudes, uma família de holandeses que tinha uma filha, uma guria loura, rechonchuda, muito guapa embora arredia e tímida, sempre debaixo das rédeas dos pais, que mal a deixavam trabalhar fora da casa, nem mesmo no vinhedo, para não andar por aí. Pois bem, Facundo deu um jeito de se aproximar da prenda e de alguma forma começou um namoro às escondidas. Acontece que a guria tinha um irmão, rapaz alto e louro, espadaúdo e de grossos punhos e manoplas. Certamente havia um grande contraste entre os tipos, vocês podem imaginar: o uruguaio, vagamente sinistro, com seu nariz aquilino e seu rosto sulcado, mal 46 barbeado e moreno, bem latino, ao mesmo tempo arredio e cheio de orgulho, e o aparentemente bronco e enorme holandês louro mal saído da adolescência. Mas o embate inevitável dos dois ocorreria logo, após duas semanas do namoro secreto, que algum peão intrigante testemunhara, alguém que quisera ver o circo pegar fogo. Assim, na nossa “colina do enforcado”, ou do umbu-rei como a chamo, houve o último duelo por estas bandas desde então. Diz o nosso querido Galdério, conterrâneo do malfadado domador, que foram chamadas testemunhas uma de cada lado e que tudo deveria se passar dentro das regras que por aqui existem desde antes dos farroupilhas. Mas o fato é que não houve sobreviventes, pois embora Facundo tivesse deixado para trás três mortos (nunca se soube o que realmente ocorreu), ele próprio não foi encontrado senão três dias depois, na fronteira, caído de borco, ainda com a mão no ventre e a do braço estendido mergulhada no Arroio do Chuí. Ele quase chegara à sua terra, mas segundo consta, deste lado da fronteira alguém chorou por ele. Sua vida de solitário banido não fora de todo desperdiçada... 47 Agora eu tinha duas de minhas ex-amantes desemparceiradas e descontentes, vagando entre nós, os “felizes”. Estou sendo cínica, eu sei, mas , na verdade me doía a condição provisória das duas, que não cogitavam de unir-se em parceria amorosa entre si. Impotente, agora, para solucionar a vidas dos outros, já que arrependida eu renunciara à manipulação, eu me punha a compor sonetos como estes: Quantas vezes tateamos na penumbra Seguindo tão somente o nosso faro De lembranças e do sentimento raro Como lobos caminhando pela tundra... Percepções difíceis, vagas e sutis Que mal logramos, a rigor, sintonizar Evitando as escolhas torpes, vis, Para o nosso pensamento clarear... Mas do quê estás falando, ó minha Alma? Não sabes que o caminho está traçado No solo claro e limpo da tua palma? Tudo é Destino, mormente tuas escolhas E não poderás senão cumprir teu fado, Teu soprinho a formar tão belas bolhas... 48 Toda vida humana é aventura, Um;thriller;, uma saga ou epopéia Em que ouvimos sirenosa melopéia * Numa nau.deitadas sortes à ventura.* Ou pensáveis que viestes a passeio Curtir belas primaveras e os verões? Ou só da juventude o doce enleio Que existe entre fêmeas e varões? Ou então apaixonar-vos, transgressivas, Por outras belas fêmeas, se assim sois, Ou, de machos, relações mais agressivas? Sabei, por certo alta taxa ireis pagar, Já que não há almoço grátis;, ora, pois Vendeis almoço pelo preço do jantar... _________________________________________ À Deriva (de Alma) Ser no mundo é estar no mesmo barco, E não podes simplesmente pular fora; Não tens como nem pra onde ir embora Estejas no oceano ou num charco... Do doutor Victor, o monstro remendado Afirmou a certa altura ter deixado Para trás toda a humana sociedade E incendiou-se em meio à tempestade... 49 Não podes cair fora sem tragédia. Cada um que o tenta é um motim: Condenado no todo ou pela média Hás de ficar à deriva até o fim... Se, ao pulares, manter, pensas, a rédea, Ao sabor ficas, das correntes... vai por mim. ______________________________________ Assim, eu me dava conta de que escrever é renunciar à toda ação, menos à do próprio ato de escrever. E eu apenas esperava, que Natália e Laís se descobrissem, sem mim como catalisadora ativa, somente, talvez, como inspiração. Agora que eu era mãe, minha relação com as crianças tinha que ser mais responsável e não caberia mais os jogos de cena de estátuas nuas, de outrora, nem mesmo os jogos de espiões, como os que salvaram a nossa estância, e que também não se justificariam mais. Eu tinha que me impor como adulta perante a cobrança tácita de mulheres maduras como Dona Maria de Marco, Quitéria, e talvez, de longe, dos pais de Natália, também. Dario, meu marido ideal, ainda apaixonado, era bastante condescendente comigo, que confesso tê-lo manipulado de maneira alarmante, no princípio. Todavia, recuso o epíteto de “grande manipuladora” ou “Casanova de saias” que quiseram me impingir em duas ocasiões nos tribunais. Sou artista, e se estivéssemos num palco eu seria a diretora. É assim que me vejo. Mas agora estava ocorrendo um novo fator de desarmonia no seio do meu numeroso elenco: Natália e Laís não se 50 bicaram de saída. Criou-se um ambiente de disputa e intriga entre elas, em relação a mim, naturalmente. Como se não pudesse todas caber no meu coração... Ó insensatas! A coisa ficou tão séria que quase estive a ponto de despachá-las para os seus “pagos” de origem, como diríamos aqui no Sul. _______________________________________________ Penso muito na vida e no mundo de uma maneira geral, não pessoal, isto é, com um distanciamento senão crítico, de espectadora. Me parece sempre que estou do lado de fora, e que a minha vida mesma pertence a uma outra esfera, mais monótona, bucólica e de uma solidão romântica às vezes dolorosa. Não sei porque sou assim, pois, afinal, cercada de duas irmã mais pragmáticas e um irmão ousado e aventureiro, não deveria me sentir assim, fora do mundo verdadeiro, como se vivesse num sonho plausível, ligeiramente melancólico ás vezes, eufórico outras. Rodo, meu irmão, muitas vezes me arrastou para aventuras, na nossa infância, em que eu não me entregava totalmente, talvez por causa da minha admiração por ele, por seu entusiasmo e simplicidade. Minha natureza de poeta e escritora sempre foi contemplativa, e me impede de me integrar com o ambiente humano ao meu redor. Serei uma romântica como George Sand como escritora? Estarei vendo este Pampa e estes peões que me circundam, os gáltchos e gaudérios, de maneira idealista, ou mesmo folclórica? Não sei... O mundo vai julgar. Sei que sou sincera e derramo as palavras como elas me vêm, embora cultivadas e não rudes como esses simpáticos machões que me circundam, com suas falas altas e sonoras, com sua bombachas, bigodes e chimarrões. E até com seus sinistros punhais adormecidos nas faixas que envolvem suas cinturas... 51 Tenho o hábito de acordar bem cedo e vagar pela coxilha que cintila lindamente em reflexos prateados seu orvalho da madrugada. Numa manhã dessas topei com um negrinho aqui da estância que me fazia pensar no Negrinho nosso do Pastoreio, embora nunca esteja pastoreando nenhuma rês. Ele disse logo: "Bom dia Dona Alma. Eu vejo a senhora de manhã todos os dias, mas me escondo atrás dos cupins por isso a senhora não me vê. Hoje tomei coragem e não me escondi." Surpresa, eu disse sorrindo: "Bom dia, Raimundinho! Mas que negócio é esse de me observar escondido? Não sabes que isso é feio?" Então ele sorriu meio envergonhado e respondeu: "Ah! Dona Alma... É que assim eu penso que estou protegendo a senhora, porque de perto e de frente é como se a senhora é que estivesse me protegendo, e não é certo." Fiquei olhando pra ele, comovida de ver que ele se conhecia tanto, capaz de expressar uma coisa como essa, que resumia toda a sua dignidade e fidelidade, com as quais eu poderia sempre contar. Então voltou-me à memória episódios como este: Quando eu era guria pequena, meu pai me levou a um velório de um velho peão aqui da estância, e ao ver aquele corpo parado em cima da mesa, todo ataviado, de bombachas e esporas, e perguntei ao meu pai: ;Vati, ele não vai se mexer mais? Então, Lucia, minha irmã, se adiantou e disse: Não, Alma, ele vai virar uma borboleta... Nesse momento, Rodo, meu irmãozinho muito esperto, interferiu dizendo:- Não, suas bobas. Ele vai virar uma caveira. e arreganhou os dentinhos num sorrizinho grotesco. Calei-me então, e permaneci pensativa entre estas duas imagens, a encantada e a perturbadora... Assim estou até hoje. 52 Também isto: Uma vez, de volta à estância chegando de viagem, nossa Matilde veio me receber em lágrimas, mas que não eram de alegria. "Minha guria" - disse ela- nosso Rodo foi preso em Monte Carlo! Estava roubando no jogo, eles disseram!" Imediatamente eu soube que era calúnia de perdedores, pois meu irmão era um profissional competente, não precisava roubar. Mas a angústia me subiu ao peito. Eu estava disposta a ir para lá, tão longe... pagar fiança, sei lá! Mas enquanto pensava no que fazer, tocou o telefone. Era Rodo, dizendo: "Alma, estou em Livramento, roubaram meu passaporte em Punta del’Este, quando eu pretendia partir para Monte Carlo. Irei para casa, guria, vou dar um tempo. Meu coração encheu-se de alegria, e pela primeira vez agradeci a um ladrão. O curioso desta estória é que sutilmente ela indica que o Rodo realmente roubou, não foi roubado, e estava em livramento e não Santana do Livramento. Provavelmente pagou fiança e ainda estava na Europa. E o ladrão que a agradeci era o próprio Rodo por estar voltando para os meus braços... Como já contei algumas vezes, eu costumava (até hoje, na verdade) banhar-me nua no nosso poço da cascata. Na infância e adolescência eu já fazia isso sozinha ou com o Rôdo, meu irmão, e brincávamos ali por no mínimo uma hora a cada dia escolhido, nos verões de nossas férias. Vez por outra ouvíamos comentários de comentários pois havia espiões, desde Solange até mesmo um peão, nos observaram escondidos. Mas isso nunca nos deteve. Rôdo foi sempre muito respeitado, desde guri, por seu espírito indômito, cheio de um caráter firme e segurança interior. Meu irmãozinho sempre foi um fenômeno e eu o admiro e sinto- 53 me segura com ele, como se fosse... sua “prenda”, essa é a verdade. Digo isso porque houve mesmo o momento em que fui disputada à faca ao meu irmão, por um jovem peão, que tendo me visto nua, apaixonou-se, alucinou, e achou que por ter-me visto assim, eu era automaticamente dele: ele já me possuíra com o seu olhar. Foi uma situação insólita e peculiar, e se não fosse Rôdo defender-me eu seria mesmo “possuída”, isto é, violada por aquele jovem na primeira oportunidade. Lembro-me que tive um pressentimento, certa manhã, quando Rôdo não apareceu ao encontro combinado, no poço, e então corri para a pradaria, ao lugar onde sobre uma coxilha havia um grande umbuzeiro, a nossa árvore preferida, depois da macieira do meu pomar. De longe já os avistei, batendo-se à faca. Eu vinha gritando, gritando de medo de Rôdo ser ferido, e chegando esbaforida após subir a colina, caí exausta entre os dois. Eles pararam, seus punhais na mão, e ficaram olhando-me, ofegantes também. Então, eu (nunca me esqueço), guria melodramática fiz a única coisa que poderia detê-los: ajoelhada na relva, rasguei subitamente o busto do meu vestido e desnudei meus seios, que ofereci, gritando: –Vamos, cravem suas facas, aqui, uma em cada seio, depois afastem-se para sempre, um do outro! Os dois gaúchos, atônitos, estarrecidos (o próprio Rôdo jamais esperaria uma coisa assim) guardaram suas facas e afastaram-se, Rôdo logo seguido por mim, que no caminho, como uma pequena “vivandeira*, recompunha meus “farrapos” com a mão, seguindo o meu guerreiro. Tinha certeza, como ainda hoje (embora eu ria quando me lembro daquilo), que eu produzira uma espécie feminina de 54 “juizo salomônico”, livresco ou instintivo, não sei ao certo. Eu caminhava perplexa comigo mesma, mas aliviada, feliz. Não seria disputada nesse nível perigoso, tão cedo, por ninguém. Por falar em “juízo salomônico, lembrei-me de um episódio de muitos anos atrás, aqui na estância Uma manhã, há muitos anos, recebi uma moça camponesa, uma das minhas colhedoras de uvas, guria encantadora em sua beleza rústica, de grandes olhos sombreados pelo chapéu e o lenço que o cobre para amarrá-lo num laço sob o queixo. Uma espécie de corpete realça-lhe os seios, e lhe empresta um ar antigo, que remete-me mais depressa à minha condição de princesa, ou de rainha mesmo. Imbuída do meu papel, ou reconciliada com ele, graças as divagações que expus acima, eu ouço a queixa da camponesa: — Dona Alma, quero me casar com o Léo, o guri encarregado dos batoques dos barris, e meus pais me proíbem, pois seu trabalho é desprezado e sofre chacota entre os peões. Dizem que ele só sabe tapar buracos ( ela pôs a mão na boca, acompanhada por mim mas com um sorriso, nesta reação). Mas o Léo, está tão desesperado, que me propôs... ai!, não tenho coragem de dizer ( ela cobriu pudicamente as faces com as mãos). Tive vontade de rir, e creio que soltei uma pequena gargalhada que logo controlei, instigando-a: —Raimunda, guria, o que o Léo pode ter te proposto? Abrir um buraco, em vez de fechá-lo?(Ela corou, com a mão na boca, mas eu logo me arrependi da brincadeira, pois a situação delineava contornos mais sérios). Querida, tu deves tomar cuidado, pois quando um homem propõe isto a uma 55 moça simples, está sempre fazendo um teste, mesmo que ainda não saiba disto. Raimunda ficou um pouco confusa, mas creio que captou o que eu quis lhe transmitir. No código de valores dessas criaturas, que temos que levar em conta, a virgindade é coisa seríssima, e depois do leite derramado, só resta esperar a benevolência ou o bom caráter do rapaz, que se mostre disposto a reparar o erro casando, ou então sofrer castigos e freqüentemente o desprezo da própria família, coisa que virtualmente as destroem. Mais antigamente houve casos em que o próprio pai pôs a filha na zona, como castigo e repúdio perpétuo, crueldade inimaginável nos dias de hoje, mas que teoricamente não foi apagada do código internalizado de certos pais-peões, de irmãos, e até mesmo (pasmem) de certas matriarcas camponesas. Na minha infância ouvi contar, principalmente na cozinha da estância, pela boca de Matilde, tragédias como essas. Desconfio que minha babá, depois cozinheira, falava disso para me alertar, de medo que eu própria malbaratasse minha virgindade, e nunca mais pudesse casar. Pobre Matilde, se ela soubesse o que realmente penso de tudo isso... Não, ela não poderia compreender. —Querida,-eu completei-resista, resista. E espera, que quando teus pais perceberem a força do amor de vocês, se ele existir, o casamento virá, naturalmente, por si só... (eu jamais seria capaz de seguir, eu mesma, tal conselho, pois sou impaciente e precipitaria as coisas com alguma loucura.) —Mas dona Alma, o caso é que meu pai vai me casar dentro de uns dias com o senhor Paco, só porque ele tem um pedacinho de terra que a senhora lhe deu, e chega de lá montado num cavalo dele mesmo. Eu não quero, dona 56 Alma, eu não amo aquele homem! Eu tenho horror daquele homem! (Ela caiu num súbito pranto). Fiquei consternada por constatar, que até os dias de hoje ainda ocorriam entre os camponeses da nossa estância, casamentos impostos, arranjados, sem levar em conta os sentimentos das moças. O século dezenove adentrara o século vinte inteiro e chegara ao terceiro milênio. Era inacreditável! Aquela mocinha estava votada ao estupro, e nada poderia poupá-la desse destino anunciado, essa é que era a verdade! Senti um súbito aperto no peito, por empatia, por identificação anímica de mulher, e só pude chorar por ela, abraçando-a, fraternalmente. O que poderia eu dizer a ela, diante daquelas circunstâncias? Poderia eu instigá-la a fugir com o guri, o pequeno peão tão desprezado pelo seu humilde ofício? Não! Mas se eu tinha algum poder, que me delegavam, eu o usaria com alguma sabedoria, se eu invocasse a Deus esse dom. Ao pensar assim, a solução me foi imediatamente apontada, como um juízo salomônico. Eu disse: -Raimundinha,vou tentar algo, mas tu deves guardar segredo dessa nossa conversa. Dê um jeito de avisar o Léo, para que me procure, imediatamente. A guria, um tanto surpresa, saiu correndo, semeada de esperança, depois de beijar-me as mãos, comovedoramente. Eu meditava no que deveria dizer ao pequeno batoqueiro. Passados dez minutos chegou ele, bastante tenso e desconfiado. Saudou-me um tanto constrangido, de olhos baixos, como se esperasse ser repreendido. Eu lhe disse: –Olá, Léo. Hoje pode ser o teu dia de sorte. Mas antes deves 57 me responder algo com toda a sinceridade. Amas alguém, uma moça aqui da estância, sim ou não? O jovem, nada feio, um tanto matuto, mas bem apanhado para um peão ignorante, hesitou um pouco, e respondeu: —Sim, dona Alma, mas não sei o que... (calou-se, de olhos baixos). —Bem Léo, é a Mundinha o teu amor? É verdade que a amas? —Sss...sim, dona Alma, mas não atino como sabes... —Então, Léo, prepara-te porque vais casar-te com ela, que é minha protegida. E por isso vão ganhar como presente meu, de casamento, um pedaço de terra, bem fértil, e com uma querência nele, um pampeiro, e duas vacas, umas galinhas também. É o meu presente de casamento. Vou passar a escritura em nome dos dois, desde já, confiando na realização desse casamento e de que ele será muito feliz. Mas tens que me prometer, que a tratarás como uma princesa, que é isso o que as mulheres são, sabias? Léo ficou um instante boquiaberto, depois ajoelhou-se subitamente e agarrando-me a fimbria do vestido, sem levantá-la, curvado, beijou-a quase deitado aos meus pés. Eu tive que tocar-lhe os ombros para instá-lo a parar com aquilo. Ele estava deslumbrado, e chorava, de emoção, de gratidão, me pareceu. Diante de sua reação, fiquei convencida do acerto da minha decisão. Dentro de um mês, na véspera do casório de Léo e Raimunda, chegou Rôdo de mais um giro pela Europa, e vendo os preparativos para a festança, com fandango e 58 churrascada à vista, questionou-me, diante do meu empenho na organização daquele evento. —Sou a madrinha do casal, Rôdo, pois dei um empurrãozinho para o casamento acontecer. Dei-lhes um palminho de terra e umas coisinhas mais, para o Léo, que era o escolhido de Raimunda, ficar em pé de igualdade com um rival. Como contava com o amor da moça, a balança pesou a seu favor diante dos olhos dos pais dela. Foi só isso, Rôdo, o que fiz... uma pequena ajuda ao amor. Rôdo abanou a cabeça, e ralhou comigo, sorrindo: —Alma , Alma, és incorrigível! Nesse passo vais dilapidar todo o nosso patrimônio, distribuir aos poucos todas as nossas terras e até a vinha. Não vês que logo todos os peões vão querer se casar, escolhendo-te para madrinha? Não conheces o povo! Além disso, quem te dá o direito de interferires no destino alheio? E se o casal for infeliz, amarrado a um pedaço de terra? Mais cedo ou mais tarde te culparão. Fiquei por um momento confusa com as palavras de Rôdo, mas logo reafirmei minha decisão, defendendo-a: —Rôdo, meu irmão, tuas palavras são de falsa sabedoria, pois são só razão, lhes falta coração. Deve-se confiar mais nos impulsos do coração. Tens o pessimismo de um cético, e crês pouco no ser humano. Deve ser por isso que és um jogador, um blefador. Não vês que um único ser humano salvo, ou aliviado de sua dor, justifica uma vida inteira de erros? Meu coração está pleno, julguei com sabedoria neste caso, quase como Salomão ao ameaçar repartir entre desiguais e deixar o amor fazer pender a balança na direção certa. Não como Lear, se é o que tu pensas, que abriu mão 59 do seu poder, doando tudo de uma vez. Não, meu irmãozinho querido, não queiras me confundir. Estou feliz, como eles, e isso é suficiente prova do meu acerto. Rôdo sorriu ternamente, afinal, e me abraçou profundamente, enquanto eu, apertada em seus braços, com a cabeça em seu ombro, pensava no quanto eu amava aquele guri, tão diferente de mim... ________________________________________ Voltando ao fim de ano aqui narrado... eu tinha que me preocupar com a rivalidade de duas queridas, Natália e Laís, que me disputavam absurdamente, à minha revelia. Em outros tempos eu me repartiria entre elas, simultaneamente, sem preferências, no coração e no leito. Mas, agora, era preciso moderação, com a casa cheia de crianças e adolescentes, duas matriarcas vigilantes e... um marido, embora “ideal”! Rodo, o grande cínico, que percebia tudo, era evidente que se divertia com a situação.

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